Foram encontradas 50 questões.
A FILA
Para os que não desistiram
Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital,
havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De
morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.
As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a
existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de
informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para
saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para
entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas.
Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao
fim, revela seu nada.
Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final...
A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje
só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"
Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa
Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo
LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para
fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí,
minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!"
Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se
os peixinhos para adentrar na boca do tubarão.
Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas
pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo
de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê...
auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada
a mim.
-Essa fila não anda!?
-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!
- Issé uma imoralidade!
-E parece que vai chover de novo.
A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada.
Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava
no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente
das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada
Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.
Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na
pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu
senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma
bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça
brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás.
Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!
Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a
bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão..
Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se
mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que
era prevenida!
E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo
a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente
do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha.
Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto
já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do
ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava:
" Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar.
Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar
ele. Risco de linchamento, sempre tem.
Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.
Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas
forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em
falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e
pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher
na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um
cachorro faminto, abocanhando uma presa.
Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça!
Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou
esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais
com vergonha, do que com medo.
Ninguém interveio.
Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama.
Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que
a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o
meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha,
não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele,
esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não!
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há
muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital!
Sobretudo, de coragem.
(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)
O uso do acento grave justifica-se pela regência do termo anterior: O particípio "passada", ao indicar que algo foi submetido ou exposto a um estado ou substância, exige a preposição "a".
Presença do artigo A: A palavra lama" é um substantivo feminino que admite o artigo definido "a". Dadas as opções a seguir marque a que não recebe acento grave.
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A FILA
Para os que não desistiram
Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital,
havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De
morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.
As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a
existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de
informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para
saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para
entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas.
Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao
fim, revela seu nada.
Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final...
A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje
só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"
Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa
Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo
LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para
fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí,
minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!"
Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se
os peixinhos para adentrar na boca do tubarão.
Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas
pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo
de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê...
auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada
a mim.
-Essa fila não anda!?
-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!
- Issé uma imoralidade!
-E parece que vai chover de novo.
A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada.
Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava
no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente
das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada
Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.
Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na
pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu
senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma
bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça
brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás.
Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!
Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a
bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão..
Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se
mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que
era prevenida!
E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo
a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente
do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha.
Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto
já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do
ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava:
" Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar.
Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar
ele. Risco de linchamento, sempre tem.
Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.
Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas
forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em
falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e
pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher
na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um
cachorro faminto, abocanhando uma presa.
Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça!
Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou
esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais
com vergonha, do que com medo.
Ninguém interveio.
Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama.
Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que
a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o
meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha,
não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele,
esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não!
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há
muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital!
Sobretudo, de coragem.
(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)
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A FILA
Para os que não desistiram
Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital,
havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De
morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.
As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a
existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de
informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para
saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para
entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas.
Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao
fim, revela seu nada.
Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final...
A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje
só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"
Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa
Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo
LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para
fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí,
minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!"
Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se
os peixinhos para adentrar na boca do tubarão.
Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas
pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo
de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê...
auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada
a mim.
-Essa fila não anda!?
-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!
- Issé uma imoralidade!
-E parece que vai chover de novo.
A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada.
Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava
no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente
das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada
Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.
Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na
pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu
senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma
bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça
brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás.
Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!
Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a
bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão..
Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se
mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que
era prevenida!
E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo
a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente
do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha.
Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto
já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do
ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava:
" Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar.
Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar
ele. Risco de linchamento, sempre tem.
Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.
Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas
forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em
falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e
pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher
na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um
cachorro faminto, abocanhando uma presa.
Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça!
Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou
esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais
com vergonha, do que com medo.
Ninguém interveio.
Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama.
Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que
a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o
meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha,
não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele,
esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não!
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há
muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital!
Sobretudo, de coragem.
(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)
O excerto é parte da fala da personagem que quase teve sua bolsa roubada. Observe a palavra destacada, trata-se de uma questão que acarreta muita dúvida referente à concordância nominal. Dadas as frases a seguir, marque a opção incorreta:
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A FILA
Para os que não desistiram
Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital,
havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De
morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.
As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a
existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de
informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para
saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para
entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas.
Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao
fim, revela seu nada.
Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final...
A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje
só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"
Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa
Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo
LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para
fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí,
minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!"
Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se
os peixinhos para adentrar na boca do tubarão.
Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas
pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo
de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê...
auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada
a mim.
-Essa fila não anda!?
-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!
- Issé uma imoralidade!
-E parece que vai chover de novo.
A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada.
Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava
no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente
das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada
Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.
Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na
pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu
senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma
bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça
brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás.
Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!
Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a
bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão..
Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se
mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que
era prevenida!
E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo
a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente
do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha.
Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto
já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do
ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava:
" Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar.
Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar
ele. Risco de linchamento, sempre tem.
Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.
Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas
forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em
falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e
pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher
na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um
cachorro faminto, abocanhando uma presa.
Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça!
Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou
esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais
com vergonha, do que com medo.
Ninguém interveio.
Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama.
Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que
a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o
meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha,
não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele,
esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não!
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há
muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital!
Sobretudo, de coragem.
(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
A FILA
Para os que não desistiram
Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital,
havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De
morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.
As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a
existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de
informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para
saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para
entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas.
Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao
fim, revela seu nada.
Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final...
A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje
só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"
Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa
Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo
LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para
fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí,
minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!"
Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se
os peixinhos para adentrar na boca do tubarão.
Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas
pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo
de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê...
auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada
a mim.
-Essa fila não anda!?
-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!
- Issé uma imoralidade!
-E parece que vai chover de novo.
A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada.
Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava
no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente
das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada
Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.
Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na
pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu
senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma
bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça
brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás.
Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!
Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a
bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão..
Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se
mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que
era prevenida!
E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo
a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente
do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha.
Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto
já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do
ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava:
" Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar.
Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar
ele. Risco de linchamento, sempre tem.
Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.
Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas
forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em
falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e
pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher
na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um
cachorro faminto, abocanhando uma presa.
Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça!
Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou
esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais
com vergonha, do que com medo.
Ninguém interveio.
Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama.
Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que
a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o
meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha,
não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele,
esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não!
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há
muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital!
Sobretudo, de coragem.
(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)
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Questão presente nas seguintes provas
A FILA
Para os que não desistiram
Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital,
havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De
morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.
As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a
existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de
informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para
saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para
entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas.
Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao
fim, revela seu nada.
Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final...
A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje
só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"
Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa
Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo
LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para
fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí,
minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!"
Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se
os peixinhos para adentrar na boca do tubarão.
Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas
pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo
de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê...
auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada
a mim.
-Essa fila não anda!?
-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!
- Issé uma imoralidade!
-E parece que vai chover de novo.
A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada.
Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava
no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente
das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada
Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.
Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na
pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu
senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma
bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça
brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás.
Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!
Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a
bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão..
Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se
mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que
era prevenida!
E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo
a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente
do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha.
Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto
já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do
ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava:
" Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar.
Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar
ele. Risco de linchamento, sempre tem.
Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.
Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas
forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em
falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e
pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher
na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um
cachorro faminto, abocanhando uma presa.
Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça!
Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou
esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais
com vergonha, do que com medo.
Ninguém interveio.
Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama.
Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que
a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o
meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha,
não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele,
esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não!
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há
muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital!
Sobretudo, de coragem.
(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)
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A FILA
Para os que não desistiram
Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital,
havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De
morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.
As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a
existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de
informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para
saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para
entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas.
Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao
fim, revela seu nada.
Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final...
A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje
só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"
Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa
Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo
LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para
fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí,
minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!"
Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se
os peixinhos para adentrar na boca do tubarão.
Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas
pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo
de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê...
auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada
a mim.
-Essa fila não anda!?
-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!
- Issé uma imoralidade!
-E parece que vai chover de novo.
A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada.
Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava
no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente
das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada
Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.
Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na
pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu
senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma
bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça
brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás.
Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!
Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a
bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão..
Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se
mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que
era prevenida!
E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo
a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente
do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha.
Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto
já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do
ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava:
" Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar.
Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar
ele. Risco de linchamento, sempre tem.
Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.
Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas
forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em
falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e
pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher
na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um
cachorro faminto, abocanhando uma presa.
Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça!
Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou
esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais
com vergonha, do que com medo.
Ninguém interveio.
Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama.
Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que
a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o
meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha,
não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele,
esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não!
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há
muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital!
Sobretudo, de coragem.
(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)
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Na clínica-escola, um paciente
relata culpa intensa e impulsos contraditórios. A
psicóloga formula hipóteses a partir do modelo estrutural do aparelho psíquico, distinguindo instâncias e conflitos. Seria incorreto nesse ponto afirmar que Id, Ego
e Superego:
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"João, acabou-se a farinha
O querosene da cozinha
No feijão, gurgui já deu
Pai, traz um vestido de chita
Que eu quero ficar bonita
Bonita que nem o Mateu"
A música acima, intitulada "Meio Dia" é uma das canções contemporâneas mais conhecidas no Nordeste brasileiro e foi lançada pela Banda Mastruz com Leite no ano de 1994. O(s) seu(s) compositor(es) é(são) o(s) cratense(s):
O querosene da cozinha
No feijão, gurgui já deu
Pai, traz um vestido de chita
Que eu quero ficar bonita
Bonita que nem o Mateu"
A música acima, intitulada "Meio Dia" é uma das canções contemporâneas mais conhecidas no Nordeste brasileiro e foi lançada pela Banda Mastruz com Leite no ano de 1994. O(s) seu(s) compositor(es) é(são) o(s) cratense(s):
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A FILA
Para os que não desistiram
Antes da conversão do gentio ao maravilhoso mundo digital,
havia mais filas no mundo para se esperar a vez. De nascer. De
morrer. De usar o telefone... De pedir perdão... Ou amor eterno.
As pessoas madrugavam, já concebendo, resignadas, a
existência clara da lógica de sempre haver mais fila do que atendimento. Havia grande fome no mundo analógico! Sobretudo, de
informação. Por isso, havia a fila só para informação. Fila para
saber que outra fila tinha que enfrentar, para pegar a senha para
entrar noutra fila... Várias encarnações sobre as pernas cansadas.
Numa sequência quase infinda, como uma Matriuska, que, ao
fim, revela seu nada.
Em todo canto havia o canto da fila. E o lugar de quem chegava por último, era sempre o da espera horrenda: o fim final...
A danação eterna de esperar a vez e ser avisado: "- Por hoje
só! Quem quiser, que volte amanhã e pegue a fila!"
Receita Federal, INPS, INAMPS, COBAL, Correios, Caixa
Econômica 'Foderal', Banco do Brasil, Lojas Brasileiras, vulgo
LOBRÁS, veja só! (Não existia Havan!). Tudo era boca para
fila, sorvedouro de gente para as infra dimensões. "- Na fila aí,
minha gente! Borá lá! Se organizando... Um atrás do outro!"
Conduzia a voz de comando, ao que, obedientes, perfilavam-se
os peixinhos para adentrar na boca do tubarão.
Também eu, no meu tempo, gastei muito do cálcio de minhas
pernas engrossando filas. Certa vez, a fila da vez e a conformidade (ou comorbidade) do caso, era na Caixa Econômica. Causo
de ir ver se tinha direito a FGTS, Fundo de não sei o quê...
auxílio... Mensagem perdida numa garrafa que fosse endereçada
a mim.
-Essa fila não anda!?
-Só abre às 9. E pra triagem, ainda!
- Issé uma imoralidade!
-E parece que vai chover de novo.
A fila parecia uma cobra morta. Abandonada sobre a calçada.
Começa rente à porta da Caixa... Descia as escadas. Sapateava
no barro do retângulo onde jazia um jardim. Ocupava a frente
das lojas ainda fechadas: a pastelaria Canarinho, Casa Rosada
Tecidos, Dedé discos... Se perdia Rua da Conceição afora, umedecida pela chuva de ontem e sob ameaça de outra.
Uma velha de saia godê florida cochilava encostada na
pa-rede. Uma sacola de plástico preto presa no braço. O diabo de um velho pitava um cigarro forte. "- A essa hora, meu
senhor!?". Baforejava fumaça prum lado e pro outro, como uma locomotiva incensando os presentes, que já devidamente anestesiados pelo cotidiano, nem ligavam. No 6° lugar, estava uma
bonitinha. Bem feita de corpo, a diaba! Não fosse essa calça
brega de oncinha e essa blusa verde-limão escrito H-u-g-o B-os-s! Réplica! Na certa!
De repente gritos e alvoroço! Algo desfez a fila ali atrás.
Esbagaçou-se só o rabo da cobra morta!
Um ladrão! Avançou na bolsa a tira colo de uma mulher baixinha. Ninguém interveio. Puxou ela pro meio da rua. Puxava a
bolsa. A mulher rodopiava levada à dança pela força do ladrão..
Um cara alto, magro, cabelo de pigmaleão... Ele rodava a baixinha para esquerda e para direita e ela ia. A bolsa não. Nem se
mexia... Debaixo do sovaco. Alça curta ao ombro. Via-se que
era prevenida!
E foram rodando. Rodando... Rodando. Avançando palmo
a passo no meio da rua, se aproximando mais e mais da frente
do banco. Duelavam agora na nossa frente. Ninguém intervinha.
Fez-se grave silencio. Eu era o 13° da fila. Lugar bom, alto, perto
já da escada. De onde eu estava, dava para ouvir o fungado do
ladrão, já cansado. A baixinha não desistia... Aqui acolá, gritava:
" Me solte, sujeito! Me solte!". Mas ele neco de soltar.
Uma hora ela sede! Não posso dar o bote perdido!", devia pensar
ele. Risco de linchamento, sempre tem.
Subiram à calçada aos rodopios. O povo só afastou um pouquinho. Ninguém intervinha.
Pisotearam o barro molhado. Na verdade, lama mesmo, dentro do retângulo com o jardim morto. Ele puxou com as últimas
forças prevendo a fraqueza. Chegou a levantá-la do chão! No em
falso, ela escorrega e cai. Apertou a bolsa debaixo do sovaco e
pressionou com a outra mão. Foi aí que, impaciente com a resistência indevida de alguém tão pequeno, ele sabugou a mulher
na lama, revirando-a de muitos modos possíveis, como faria um
cachorro faminto, abocanhando uma presa.
Ela se encorcovava quanto mais ele sacudia. A bolsa ia sumindo dentro dela, como que movediça!
Ele por fim, desistiu. Apontou o dedo silencioso e olhou
esbugalhado para ela. Nada disse! Saiu na carreira. Talvez mais
com vergonha, do que com medo.
Ninguém interveio.
Levantou sozinha. Batendo o barro da roupa, passada à lama.
Ajeitou a blusa e a bolsa, intacta, debaixo do sovaco. Com altivez, nem olhou pro povo. Se dirigindo a mim (justo a mim! Que
a reconheci no primeiro rodopio... ), pronunciou pausadamente o
meu nome: "XXXXXXXXX" e disse:
-Tá vendo aí, meu filho, como são as coisas? Uma pobre velha,
não tem ninguém que a defenda! Mas ele vai roubar a mãe dele,
esse filho da puta! Por que eu mesmo, ele não rouba não!
Era dona Zuíla, minha professora do ensino fundamental. Há
muitas lições que se pode aprender olhando duma fila. Era a minha vez. Há ainda grande fome também no mundo digital!
Sobretudo, de coragem.
(Souza, Auricélio Ferreira de. Objeto urgente: A fila p. 47, 50. São Paulo: Patuá, 2025)
I. Há uma crítica poética à era digital e nostalgia por um tempo em que as interações e até mesmo os processos naturais da vida (nascer, morrer) ou sociais (pedir perdão, amor eterno, usar o telefone) envolviam a espera e a conexão humana mais direta.
II. As filas são vistas como parte de uma experiência humana, onde as pessoas interagem ou pelo menos compartilham o mesmo espaço tempo.
II No "maravilhoso mundo digital", muitas dessas "filas" (esperas por comunicação, por serviços, por respostas) foram substituídas por interações instantâneas e virtuais, que, embora eficientes, podem ser consideradas mais impessoais ou menos "vivas" do que a interação face a face. Este é o principal motivo da falta de empatia.
IV. A implicação é que a tecnologia nos conectou à internet, mas nos desconectou de alguma forma das pessoas e do ritmo natural da vida, onde a paciência e a presença eram mais valorizadas.
V. É um lamento lírico pela perda do envolvimento coletivo e da profundidade das relações que a espera e a interação física deveriam proporcionar.
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