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O que 'guru' da Copa prevê para o Brasil — e qual seleção será campeã
Quando o polvo Paul (2008-2010) acertou todos os resultados da seleção alemã na Copa do Mundo Fifa de Futebol
Masculino de 2010, na África do Sul, o mundo o saudou como um verdadeiro oráculo. Mas o economista alemão Joachim
Klement superou Paul com um complexo modelo de previsão que mantém 100% de acerto nas suas previsões do campeão
mundial, desde a Copa disputada no Brasil, em 2014.
Se a profecia estatística de Klement se confirmar pela quarta vez, a Holanda irá erguer o troféu de campeão no Estádio MetLife em Nova Jersey, nos Estados Unidos, após vencer Portugal na final do torneio, no próximo dia 19 de julho.
Além dos campeões, o modelo do economista alemão mapeia todas as fases do torneio e suas 48 seleções. Para o
primeiro mata-mata após a fase de grupos, por exemplo, ele prevê a derrota da Escócia para a seleção da Coreia do Sul. Na
previsão de Klement, o Brasil irá se classificar em primeiro lugar no seu grupo, perdendo surpreendentemente logo na segunda fase, para o Japão. “Provavelmente, uma das maiores zebras da história da Copa do Mundo”, prevê Jochim Klement.
Segundo o modelo, a Holanda enfrentará a Espanha nas semifinais. E, na outra semifinal, enfrentam-se Inglaterra e
Portugal — que terá eliminado a Argentina nas quartas de final. O economista prevê que Portugal vencerá mais uma vez os
ingleses, como ocorreu nas quartas de final da Copa de 2006, na Alemanha. A previsão só não detalha se a decisão ocorrerá
novamente nos pênaltis. Klement é um “pessimista” confesso, que morou por 10 anos no Reino Unido. Para ele, a pesquisa
nunca pretendeu evitar a tristeza de ninguém, nem ganhar dinheiro em apostas. Na verdade, ele esperava revelar o absurdo
de tentar prever os resultados.
“Tudo começou como um exercício para mostrar ao mundo a arrogância dos economistas, que acham que podem
prever fatos sobre os quais não têm nenhuma indicação", explica Klement. “Agora, isso passou a ser uma demonstração de
como, se você tiver sorte várias vezes, as pessoas irão achar que você é um guru.” Sua primeira previsão se tornou realidade
em 2014, quando o seu país, a Alemanha, venceu a Copa do Mundo realizada no Brasil. Klement imaginou que, refazendo a
simulação novamente em 2018, ele poderia demonstrar que aquilo foi uma casualidade. Mas ele acertou novamente sua
previsão com a França em 2018 — e, depois, com a Argentina, em 2022. “Como eu acertei três vezes seguidas, as pessoas,
agora, acham que este modelo é invencível e que, é claro, eu certamente irei acertar mais uma vez”, ele conta.
É verdade que existem fatores “sistêmicos” conhecidos que determinam, em parte, o sucesso de cada país na Copa
do Mundo. Eles incluem a população nacional, a riqueza, o clima e o ranking mundial da Fifa. Mas a popularidade das previsões quadrienais de Klement cresce a cada acerto. E ele alerta seus leitores a considerar seus resultados com cautela, pois
estes fatores contam apenas uma parte da história.
“Os outros 50% são de sorte”, segundo ele. “Cada jogo — especialmente quando você tem equipes de alta qualidade, com
técnicas e habilidade muito similares, jogando entre si — realmente depende da forma naquele dia, de uma decisão da
arbitragem, de um pouco de sorte entre aquela bola que bate na trave ou entra no gol. Este tipo de coisa é completamente
imprevisível", explica Klement.
Sempre que a Copa do Mundo se aproxima, o modelo de previsão oferece a Klement uma ótima diversão em relação ao seu trabalho diário. “Particularmente em 2026, quando temos tantas crises, guerras e coisas acontecendo, é algo que
me faz sentir bem”, ele conta. “E espero que os leitores também se sintam bem e tenham um pouco de distração de tudo
de ruim que está acontecendo no mundo.” Mas, a cada vez que o economista acerta uma previsão, cresce o peso da expectativa. Klement trabalha como estrategista no banco de investimentos Panmure Liberum e recebe consultas dos seus colegas.
Eles querem saber, por exemplo, como a lesão do ligamento cruzado anterior, sofrida pelo meio-campista holandês
Xavi Simons, do Tottenham, pode influenciar o seu modelo. Por isso, apesar das suas inúmeras advertências sobre a integridade da previsão, Klement se prepara para o início do torneio, em junho. “Tenho vários colegas que apostaram na Holanda
porque publiquei aquela nota”, ele conta. “E, se a Holanda for eliminada da Copa do Mundo, acho que, no dia seguinte,
precisarei ficar trabalhando em casa.”
(ADAPTADO. Flora Snelson. Role,BBC Sport. Published: 27 maio 2026. Disponível em www.bbc.com/portuguese/articles/c4g44dvmkm0o)
Coluna I – Funções da linguagem 1. Função referencial 2. Função emotiva 3. Função conativa (apelativa) 4. Função metalinguística
Coluna II – Exemplos
( ) “A Holanda irá erguer o troféu de campeão no Estádio MetLife em Nova Jersey, nos Estados Unidos, após vencer Portugal na final do torneio.”
( ) “Particularmente em 2026, quando temos tantas crises, guerras e coisas acontecendo, é algo que me faz sentir bem.”
( ) “Ele alerta seus leitores a considerar seus resultados com cautela.”
( ) “Tudo começou como um exercício para mostrar ao mundo a arrogância dos economistas, que acham que podem prever fatos sobre os quais não têm nenhuma indicação.”
( ) “E espero que os leitores também se sintam bem e tenham um pouco de distração de tudo de ruim que está acontecendo no mundo.”
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta.
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O que 'guru' da Copa prevê para o Brasil — e qual seleção será campeã
Quando o polvo Paul (2008-2010) acertou todos os resultados da seleção alemã na Copa do Mundo Fifa de Futebol
Masculino de 2010, na África do Sul, o mundo o saudou como um verdadeiro oráculo. Mas o economista alemão Joachim
Klement superou Paul com um complexo modelo de previsão que mantém 100% de acerto nas suas previsões do campeão
mundial, desde a Copa disputada no Brasil, em 2014.
Se a profecia estatística de Klement se confirmar pela quarta vez, a Holanda irá erguer o troféu de campeão no Estádio MetLife em Nova Jersey, nos Estados Unidos, após vencer Portugal na final do torneio, no próximo dia 19 de julho.
Além dos campeões, o modelo do economista alemão mapeia todas as fases do torneio e suas 48 seleções. Para o
primeiro mata-mata após a fase de grupos, por exemplo, ele prevê a derrota da Escócia para a seleção da Coreia do Sul. Na
previsão de Klement, o Brasil irá se classificar em primeiro lugar no seu grupo, perdendo surpreendentemente logo na segunda fase, para o Japão. “Provavelmente, uma das maiores zebras da história da Copa do Mundo”, prevê Jochim Klement.
Segundo o modelo, a Holanda enfrentará a Espanha nas semifinais. E, na outra semifinal, enfrentam-se Inglaterra e
Portugal — que terá eliminado a Argentina nas quartas de final. O economista prevê que Portugal vencerá mais uma vez os
ingleses, como ocorreu nas quartas de final da Copa de 2006, na Alemanha. A previsão só não detalha se a decisão ocorrerá
novamente nos pênaltis. Klement é um “pessimista” confesso, que morou por 10 anos no Reino Unido. Para ele, a pesquisa
nunca pretendeu evitar a tristeza de ninguém, nem ganhar dinheiro em apostas. Na verdade, ele esperava revelar o absurdo
de tentar prever os resultados.
“Tudo começou como um exercício para mostrar ao mundo a arrogância dos economistas, que acham que podem
prever fatos sobre os quais não têm nenhuma indicação", explica Klement. “Agora, isso passou a ser uma demonstração de
como, se você tiver sorte várias vezes, as pessoas irão achar que você é um guru.” Sua primeira previsão se tornou realidade
em 2014, quando o seu país, a Alemanha, venceu a Copa do Mundo realizada no Brasil. Klement imaginou que, refazendo a
simulação novamente em 2018, ele poderia demonstrar que aquilo foi uma casualidade. Mas ele acertou novamente sua
previsão com a França em 2018 — e, depois, com a Argentina, em 2022. “Como eu acertei três vezes seguidas, as pessoas,
agora, acham que este modelo é invencível e que, é claro, eu certamente irei acertar mais uma vez”, ele conta.
É verdade que existem fatores “sistêmicos” conhecidos que determinam, em parte, o sucesso de cada país na Copa
do Mundo. Eles incluem a população nacional, a riqueza, o clima e o ranking mundial da Fifa. Mas a popularidade das previsões quadrienais de Klement cresce a cada acerto. E ele alerta seus leitores a considerar seus resultados com cautela, pois
estes fatores contam apenas uma parte da história.
“Os outros 50% são de sorte”, segundo ele. “Cada jogo — especialmente quando você tem equipes de alta qualidade, com
técnicas e habilidade muito similares, jogando entre si — realmente depende da forma naquele dia, de uma decisão da
arbitragem, de um pouco de sorte entre aquela bola que bate na trave ou entra no gol. Este tipo de coisa é completamente
imprevisível", explica Klement.
Sempre que a Copa do Mundo se aproxima, o modelo de previsão oferece a Klement uma ótima diversão em relação ao seu trabalho diário. “Particularmente em 2026, quando temos tantas crises, guerras e coisas acontecendo, é algo que
me faz sentir bem”, ele conta. “E espero que os leitores também se sintam bem e tenham um pouco de distração de tudo
de ruim que está acontecendo no mundo.” Mas, a cada vez que o economista acerta uma previsão, cresce o peso da expectativa. Klement trabalha como estrategista no banco de investimentos Panmure Liberum e recebe consultas dos seus colegas.
Eles querem saber, por exemplo, como a lesão do ligamento cruzado anterior, sofrida pelo meio-campista holandês
Xavi Simons, do Tottenham, pode influenciar o seu modelo. Por isso, apesar das suas inúmeras advertências sobre a integridade da previsão, Klement se prepara para o início do torneio, em junho. “Tenho vários colegas que apostaram na Holanda
porque publiquei aquela nota”, ele conta. “E, se a Holanda for eliminada da Copa do Mundo, acho que, no dia seguinte,
precisarei ficar trabalhando em casa.”
(ADAPTADO. Flora Snelson. Role,BBC Sport. Published: 27 maio 2026. Disponível em www.bbc.com/portuguese/articles/c4g44dvmkm0o)
1. ( ) O parágrafo apresenta progressão temática do geral para o particular, ao passar da descrição ampla do modelo para exemplos específicos de previsões.
2. ( ) O pronome “ele”, no segundo período, retoma anaforicamente o termo “o modelo do economista alemão”, contribuindo para a coesão textual.
3. ( ) O advérbio “surpreendentemente” introduz uma avaliação implícita do enunciador, indicando que a eliminação do Brasil é apresentada como um resultado inesperado.
4. ( ) A expressão “uma das maiores zebras da história da Copa do Mundo” é empregada em sentido denotativo, referindo-se ao animal zebra.
5. ( ) O advérbio “provavelmente” constitui um mecanismo de modalização, sinalizando que a previsão é apresentada como hipótese, e não como certeza absoluta.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta.
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- SintaxeFrase, Oração e PeríodoOração CoordenadaOrações Coordenadas Sindéticas
- SintaxeFrase, Oração e PeríodoOração SubordinadaSubordinadas Adverbial
- Interpretação de TextosCoesão e Coerência
O que 'guru' da Copa prevê para o Brasil — e qual seleção será campeã
Quando o polvo Paul (2008-2010) acertou todos os resultados da seleção alemã na Copa do Mundo Fifa de Futebol
Masculino de 2010, na África do Sul, o mundo o saudou como um verdadeiro oráculo. Mas o economista alemão Joachim
Klement superou Paul com um complexo modelo de previsão que mantém 100% de acerto nas suas previsões do campeão
mundial, desde a Copa disputada no Brasil, em 2014.
Se a profecia estatística de Klement se confirmar pela quarta vez, a Holanda irá erguer o troféu de campeão no Estádio MetLife em Nova Jersey, nos Estados Unidos, após vencer Portugal na final do torneio, no próximo dia 19 de julho.
Além dos campeões, o modelo do economista alemão mapeia todas as fases do torneio e suas 48 seleções. Para o
primeiro mata-mata após a fase de grupos, por exemplo, ele prevê a derrota da Escócia para a seleção da Coreia do Sul. Na
previsão de Klement, o Brasil irá se classificar em primeiro lugar no seu grupo, perdendo surpreendentemente logo na segunda fase, para o Japão. “Provavelmente, uma das maiores zebras da história da Copa do Mundo”, prevê Jochim Klement.
Segundo o modelo, a Holanda enfrentará a Espanha nas semifinais. E, na outra semifinal, enfrentam-se Inglaterra e
Portugal — que terá eliminado a Argentina nas quartas de final. O economista prevê que Portugal vencerá mais uma vez os
ingleses, como ocorreu nas quartas de final da Copa de 2006, na Alemanha. A previsão só não detalha se a decisão ocorrerá
novamente nos pênaltis. Klement é um “pessimista” confesso, que morou por 10 anos no Reino Unido. Para ele, a pesquisa
nunca pretendeu evitar a tristeza de ninguém, nem ganhar dinheiro em apostas. Na verdade, ele esperava revelar o absurdo
de tentar prever os resultados.
“Tudo começou como um exercício para mostrar ao mundo a arrogância dos economistas, que acham que podem
prever fatos sobre os quais não têm nenhuma indicação", explica Klement. “Agora, isso passou a ser uma demonstração de
como, se você tiver sorte várias vezes, as pessoas irão achar que você é um guru.” Sua primeira previsão se tornou realidade
em 2014, quando o seu país, a Alemanha, venceu a Copa do Mundo realizada no Brasil. Klement imaginou que, refazendo a
simulação novamente em 2018, ele poderia demonstrar que aquilo foi uma casualidade. Mas ele acertou novamente sua
previsão com a França em 2018 — e, depois, com a Argentina, em 2022. “Como eu acertei três vezes seguidas, as pessoas,
agora, acham que este modelo é invencível e que, é claro, eu certamente irei acertar mais uma vez”, ele conta.
É verdade que existem fatores “sistêmicos” conhecidos que determinam, em parte, o sucesso de cada país na Copa
do Mundo. Eles incluem a população nacional, a riqueza, o clima e o ranking mundial da Fifa. Mas a popularidade das previsões quadrienais de Klement cresce a cada acerto. E ele alerta seus leitores a considerar seus resultados com cautela, pois
estes fatores contam apenas uma parte da história.
“Os outros 50% são de sorte”, segundo ele. “Cada jogo — especialmente quando você tem equipes de alta qualidade, com
técnicas e habilidade muito similares, jogando entre si — realmente depende da forma naquele dia, de uma decisão da
arbitragem, de um pouco de sorte entre aquela bola que bate na trave ou entra no gol. Este tipo de coisa é completamente
imprevisível", explica Klement.
Sempre que a Copa do Mundo se aproxima, o modelo de previsão oferece a Klement uma ótima diversão em relação ao seu trabalho diário. “Particularmente em 2026, quando temos tantas crises, guerras e coisas acontecendo, é algo que
me faz sentir bem”, ele conta. “E espero que os leitores também se sintam bem e tenham um pouco de distração de tudo
de ruim que está acontecendo no mundo.” Mas, a cada vez que o economista acerta uma previsão, cresce o peso da expectativa. Klement trabalha como estrategista no banco de investimentos Panmure Liberum e recebe consultas dos seus colegas.
Eles querem saber, por exemplo, como a lesão do ligamento cruzado anterior, sofrida pelo meio-campista holandês
Xavi Simons, do Tottenham, pode influenciar o seu modelo. Por isso, apesar das suas inúmeras advertências sobre a integridade da previsão, Klement se prepara para o início do torneio, em junho. “Tenho vários colegas que apostaram na Holanda
porque publiquei aquela nota”, ele conta. “E, se a Holanda for eliminada da Copa do Mundo, acho que, no dia seguinte,
precisarei ficar trabalhando em casa.”
(ADAPTADO. Flora Snelson. Role,BBC Sport. Published: 27 maio 2026. Disponível em www.bbc.com/portuguese/articles/c4g44dvmkm0o)
I. No primeiro período, há uma oração subordinada adverbial temporal introduzida pelo conectivo “Quando”; essa oração estabelece a circunstância temporal para a oração principal.
II. No segundo período, introduzido pela conjunção adversativa “Mas”, ocorre uma contraposição entre dois personagens: o polvo Paul e o economista Joachim Klement.
III. A progressão temática ocorre por meio da retomada do referente “Paul”.
Assinale a alternativa correta.
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Quando o polvo Paul (2008-2010) acertou todos os resultados da seleção alemã na Copa do Mundo Fifa de Futebol
Masculino de 2010, na África do Sul, o mundo o saudou como um verdadeiro oráculo. Mas o economista alemão Joachim
Klement superou Paul com um complexo modelo de previsão que mantém 100% de acerto nas suas previsões do campeão
mundial, desde a Copa disputada no Brasil, em 2014.
Se a profecia estatística de Klement se confirmar pela quarta vez, a Holanda irá erguer o troféu de campeão no Estádio MetLife em Nova Jersey, nos Estados Unidos, após vencer Portugal na final do torneio, no próximo dia 19 de julho.
Além dos campeões, o modelo do economista alemão mapeia todas as fases do torneio e suas 48 seleções. Para o
primeiro mata-mata após a fase de grupos, por exemplo, ele prevê a derrota da Escócia para a seleção da Coreia do Sul. Na
previsão de Klement, o Brasil irá se classificar em primeiro lugar no seu grupo, perdendo surpreendentemente logo na segunda fase, para o Japão. “Provavelmente, uma das maiores zebras da história da Copa do Mundo”, prevê Jochim Klement.
Segundo o modelo, a Holanda enfrentará a Espanha nas semifinais. E, na outra semifinal, enfrentam-se Inglaterra e
Portugal — que terá eliminado a Argentina nas quartas de final. O economista prevê que Portugal vencerá mais uma vez os
ingleses, como ocorreu nas quartas de final da Copa de 2006, na Alemanha. A previsão só não detalha se a decisão ocorrerá
novamente nos pênaltis. Klement é um “pessimista” confesso, que morou por 10 anos no Reino Unido. Para ele, a pesquisa
nunca pretendeu evitar a tristeza de ninguém, nem ganhar dinheiro em apostas. Na verdade, ele esperava revelar o absurdo
de tentar prever os resultados.
“Tudo começou como um exercício para mostrar ao mundo a arrogância dos economistas, que acham que podem
prever fatos sobre os quais não têm nenhuma indicação", explica Klement. “Agora, isso passou a ser uma demonstração de
como, se você tiver sorte várias vezes, as pessoas irão achar que você é um guru.” Sua primeira previsão se tornou realidade
em 2014, quando o seu país, a Alemanha, venceu a Copa do Mundo realizada no Brasil. Klement imaginou que, refazendo a
simulação novamente em 2018, ele poderia demonstrar que aquilo foi uma casualidade. Mas ele acertou novamente sua
previsão com a França em 2018 — e, depois, com a Argentina, em 2022. “Como eu acertei três vezes seguidas, as pessoas,
agora, acham que este modelo é invencível e que, é claro, eu certamente irei acertar mais uma vez”, ele conta.
É verdade que existem fatores “sistêmicos” conhecidos que determinam, em parte, o sucesso de cada país na Copa
do Mundo. Eles incluem a população nacional, a riqueza, o clima e o ranking mundial da Fifa. Mas a popularidade das previsões quadrienais de Klement cresce a cada acerto. E ele alerta seus leitores a considerar seus resultados com cautela, pois
estes fatores contam apenas uma parte da história.
“Os outros 50% são de sorte”, segundo ele. “Cada jogo — especialmente quando você tem equipes de alta qualidade, com
técnicas e habilidade muito similares, jogando entre si — realmente depende da forma naquele dia, de uma decisão da
arbitragem, de um pouco de sorte entre aquela bola que bate na trave ou entra no gol. Este tipo de coisa é completamente
imprevisível", explica Klement.
Sempre que a Copa do Mundo se aproxima, o modelo de previsão oferece a Klement uma ótima diversão em relação ao seu trabalho diário. “Particularmente em 2026, quando temos tantas crises, guerras e coisas acontecendo, é algo que
me faz sentir bem”, ele conta. “E espero que os leitores também se sintam bem e tenham um pouco de distração de tudo
de ruim que está acontecendo no mundo.” Mas, a cada vez que o economista acerta uma previsão, cresce o peso da expectativa. Klement trabalha como estrategista no banco de investimentos Panmure Liberum e recebe consultas dos seus colegas.
Eles querem saber, por exemplo, como a lesão do ligamento cruzado anterior, sofrida pelo meio-campista holandês
Xavi Simons, do Tottenham, pode influenciar o seu modelo. Por isso, apesar das suas inúmeras advertências sobre a integridade da previsão, Klement se prepara para o início do torneio, em junho. “Tenho vários colegas que apostaram na Holanda
porque publiquei aquela nota”, ele conta. “E, se a Holanda for eliminada da Copa do Mundo, acho que, no dia seguinte,
precisarei ficar trabalhando em casa.”
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Justiça e vingança
No escritor romano Tácito, nós encontramos a possível origem de uma ideia que seria repetida por muitos pensadores moralistas
e pessimistas: Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança,
um prazer. Ofensas perdoadas (como em Os Miseráveis, de Victor Hugo) ou causadoras de toda a trama (como na telenovela
Avenida Brasil) trazem à tona nosso melhor e nosso pior. Em qualquer enredo, o momento em que a sofrida mocinha, que vinha
suportando barbaridades desde o primeiro capítulo da novela, finalmente ergue um olhar de rebeldia e esbofeteia a vilã registra
pico máximo de audiência. Sim, da Roma de Tácito à França de La Rochefoucauld, vingar-se é um prazer. Se o deleite puder ser
envolvido na sua máscara mais frequente, a justiça, chegamos ao nirvana absoluto das delícias humanas. Buscar justiça é mais
edificante do que buscar vingança. Nosso demônio interno adora usar a espada do anjo da justiça. A lei de Talião está nas fibras
profundas da nossa existência. A vendeta épica, como no filme argentino O Segredo dos Seus Olhos (Juan Jose Campanella, 2009),
é pouco acessível aos mortais como nós. O custo de uma vingança tão extraordinária como a descrita no filme é o uso de todo o
tempo de vida. Tal obsessão implica um ódio e uma memória muito especiais. Poucas pessoas querem pagar o preço enorme da
vingança total. Quando conseguem, formam a narrativa de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Como não somos santos generosos e extraordinários com o poder de perdão do Monsenhor Bienvenu da já citada obra
romântica francesa, também não teremos vinganças dignas de enredos comoventes. Quase todos somos medíocres no amor e
nos ódios. Restam-nos as pequenas vinganças... Não tendo acesso ao elenco principal, nosso papel coadjuvante tem sido bem
elaborado. Nosso dia a dia é tomado por microprazeres do “olho por olho e dente por dente”.
Recordo-me de uma história narrada por uma grande amiga. Casada com um homem muito incisivo (amo eufemismos),
descreveu um episódio de vida turística com o consorte. Estando em Nova York, ela presenciou a compra, e como ele pagou in cash.
A responsável, zelosa e cumpridora de uma norma superior, pegou cada nota e a examinou com um pudor único. Olhou contra a luz
uma a uma, apalpou, passou o dedo exigente sobre as microrranhuras do meio circulante para, enfim, encerrar o ritual da probidade
com uma caneta capaz de eliminar as últimas dúvidas.
O marido em questão, em vez de reclamar imediatamente como estava habituado, assumiu uma posição cordata e silenciosa
que trouxe estranheza à esposa, sabedora do seu gênio querelante. Ele sorria. Por que um homem demarcador rígido de espaços
sorria diante da desconfiança indireta que lhe era imputada? Obviamente porque já antecipava sua vingança, sua pequena guerrilha
de contra-ataque ao ato indigno de pública dúvida sobre sua honestidade.
A quantidade de fregueses à espera era grande na loja no coração de Manhattan. A fila, como muitos sabem, é um valor
superior a Deus e à pátria nos Estados Unidos. Terminado o exame inquisitivo, aprovadas todas as cédulas entregues, a mulher
deu a ele algumas pequenas notas de dólar como troco. Ele agradeceu, educado como uma moça pudica do velho Sacré-Coeur,
e, de maneira teatral, passou a realizar exames no troco que excediam, largamente, o procedimento da funcionária. Cada nota foi
apalpada, cheirada e sentida como se nelas residissem as verdades mais sublimes do Altíssimo. Depois, com o ar tranquilo de um
monge do Himalaia, pediu a caneta verificadora e passou dezenas de traços em cada nota, exarando com vagar o veredicto final
sobre a reta procedência do valor. Checou as imagens, colocou contra a luz e olhou com ponderação minuciosa.
Durante o angustiante procedimento, ele ficava elogiando o cuidado da caixa, dizendo que, de fato, nunca se pode confiar, que
ela fazia bem, que era assim mesmo que se evitavam fraudes. Falava em voz alta e louvava a atenção extrema do estabelecimento,
paralisando uma possível reação dela com profusos elogios. Finda a liturgia da vingança, agradeceu, bradou mais uma vez para
toda a loja que a ação dela era exemplar e que ela e todos da fila deveriam continuar fazendo isso, com arengas contra o estelionato
insidioso. Retirou-se, sorridente. A ação tivera efeito similar ao já indicado tapa no rosto da vilã no último capítulo. Catarse completa.
Vingança, a doce figura de Tácito, estava impetrada!
Já foi dito que somos bons quando somos bons e somos ainda melhores quando somos maus. Mesmo os mais abnegados
professores ocultam pouco um sorriso interno quando o aluno que atenazou sua vida o ano inteiro fica retido no conselho de
classe. A mais zelosa das mães que adverte com insistência um filho que leve casaco e recebe um muxoxo em troca talvez exulte
internamente quando o birrento reclama que passou muito frio. O castigo é a alma da lei e do sistema da autoridade. Tudo em pais,
policiais e professores indica que nossos valorosos conselhos só se tornam importantes quando, ignorados, se transformam em
desastres aos que fazem ouvidos de mercador.
Saramago, no diálogo do barco em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, coloca na boca de Deus-Pai que o demônio é
fundamental para a obra celestial. Sem o risco da punição, toda regra amorosa ficaria vazia. E se os fumantes morressem com
pulmões de crianças no bosque? E se o consumo de gorduras e doces emagrecesse? E se os medíocres triunfassem? Se os
adúlteros tivessem prazeres multiplicados e nenhum ônus decorrente do seu gesto infrator? O que seria da virtude sem o inferno ou
o colesterol? Para isso existe a vingança, quero dizer, a justiça... Uma semana amorosa para todos nós, incapazes de pequenas ou
de grandes maldades.
KARNAL, Leandro. O Coração das Coisas. São Paulo: Contexto, 2019.
“Vingança, a doce figura de Tácito, estava impetrada!”
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Justiça e vingança
No escritor romano Tácito, nós encontramos a possível origem de uma ideia que seria repetida por muitos pensadores moralistas
e pessimistas: Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança,
um prazer. Ofensas perdoadas (como em Os Miseráveis, de Victor Hugo) ou causadoras de toda a trama (como na telenovela
Avenida Brasil) trazem à tona nosso melhor e nosso pior. Em qualquer enredo, o momento em que a sofrida mocinha, que vinha
suportando barbaridades desde o primeiro capítulo da novela, finalmente ergue um olhar de rebeldia e esbofeteia a vilã registra
pico máximo de audiência. Sim, da Roma de Tácito à França de La Rochefoucauld, vingar-se é um prazer. Se o deleite puder ser
envolvido na sua máscara mais frequente, a justiça, chegamos ao nirvana absoluto das delícias humanas. Buscar justiça é mais
edificante do que buscar vingança. Nosso demônio interno adora usar a espada do anjo da justiça. A lei de Talião está nas fibras
profundas da nossa existência. A vendeta épica, como no filme argentino O Segredo dos Seus Olhos (Juan Jose Campanella, 2009),
é pouco acessível aos mortais como nós. O custo de uma vingança tão extraordinária como a descrita no filme é o uso de todo o
tempo de vida. Tal obsessão implica um ódio e uma memória muito especiais. Poucas pessoas querem pagar o preço enorme da
vingança total. Quando conseguem, formam a narrativa de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Como não somos santos generosos e extraordinários com o poder de perdão do Monsenhor Bienvenu da já citada obra
romântica francesa, também não teremos vinganças dignas de enredos comoventes. Quase todos somos medíocres no amor e
nos ódios. Restam-nos as pequenas vinganças... Não tendo acesso ao elenco principal, nosso papel coadjuvante tem sido bem
elaborado. Nosso dia a dia é tomado por microprazeres do “olho por olho e dente por dente”.
Recordo-me de uma história narrada por uma grande amiga. Casada com um homem muito incisivo (amo eufemismos),
descreveu um episódio de vida turística com o consorte. Estando em Nova York, ela presenciou a compra, e como ele pagou in cash.
A responsável, zelosa e cumpridora de uma norma superior, pegou cada nota e a examinou com um pudor único. Olhou contra a luz
uma a uma, apalpou, passou o dedo exigente sobre as microrranhuras do meio circulante para, enfim, encerrar o ritual da probidade
com uma caneta capaz de eliminar as últimas dúvidas.
O marido em questão, em vez de reclamar imediatamente como estava habituado, assumiu uma posição cordata e silenciosa
que trouxe estranheza à esposa, sabedora do seu gênio querelante. Ele sorria. Por que um homem demarcador rígido de espaços
sorria diante da desconfiança indireta que lhe era imputada? Obviamente porque já antecipava sua vingança, sua pequena guerrilha
de contra-ataque ao ato indigno de pública dúvida sobre sua honestidade.
A quantidade de fregueses à espera era grande na loja no coração de Manhattan. A fila, como muitos sabem, é um valor
superior a Deus e à pátria nos Estados Unidos. Terminado o exame inquisitivo, aprovadas todas as cédulas entregues, a mulher
deu a ele algumas pequenas notas de dólar como troco. Ele agradeceu, educado como uma moça pudica do velho Sacré-Coeur,
e, de maneira teatral, passou a realizar exames no troco que excediam, largamente, o procedimento da funcionária. Cada nota foi
apalpada, cheirada e sentida como se nelas residissem as verdades mais sublimes do Altíssimo. Depois, com o ar tranquilo de um
monge do Himalaia, pediu a caneta verificadora e passou dezenas de traços em cada nota, exarando com vagar o veredicto final
sobre a reta procedência do valor. Checou as imagens, colocou contra a luz e olhou com ponderação minuciosa.
Durante o angustiante procedimento, ele ficava elogiando o cuidado da caixa, dizendo que, de fato, nunca se pode confiar, que
ela fazia bem, que era assim mesmo que se evitavam fraudes. Falava em voz alta e louvava a atenção extrema do estabelecimento,
paralisando uma possível reação dela com profusos elogios. Finda a liturgia da vingança, agradeceu, bradou mais uma vez para
toda a loja que a ação dela era exemplar e que ela e todos da fila deveriam continuar fazendo isso, com arengas contra o estelionato
insidioso. Retirou-se, sorridente. A ação tivera efeito similar ao já indicado tapa no rosto da vilã no último capítulo. Catarse completa.
Vingança, a doce figura de Tácito, estava impetrada!
Já foi dito que somos bons quando somos bons e somos ainda melhores quando somos maus. Mesmo os mais abnegados
professores ocultam pouco um sorriso interno quando o aluno que atenazou sua vida o ano inteiro fica retido no conselho de
classe. A mais zelosa das mães que adverte com insistência um filho que leve casaco e recebe um muxoxo em troca talvez exulte
internamente quando o birrento reclama que passou muito frio. O castigo é a alma da lei e do sistema da autoridade. Tudo em pais,
policiais e professores indica que nossos valorosos conselhos só se tornam importantes quando, ignorados, se transformam em
desastres aos que fazem ouvidos de mercador.
Saramago, no diálogo do barco em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, coloca na boca de Deus-Pai que o demônio é
fundamental para a obra celestial. Sem o risco da punição, toda regra amorosa ficaria vazia. E se os fumantes morressem com
pulmões de crianças no bosque? E se o consumo de gorduras e doces emagrecesse? E se os medíocres triunfassem? Se os
adúlteros tivessem prazeres multiplicados e nenhum ônus decorrente do seu gesto infrator? O que seria da virtude sem o inferno ou
o colesterol? Para isso existe a vingança, quero dizer, a justiça... Uma semana amorosa para todos nós, incapazes de pequenas ou
de grandes maldades.
KARNAL, Leandro. O Coração das Coisas. São Paulo: Contexto, 2019.
I. “No escritor romano Tácito, nós encontramos a possível origem de uma ideia [...]”
Associando os símbolos empregados, assinale a alternativa que representa corretamente os elementos sintáticos, respectivamente, do segmento destacado no período II a seguir:
II. “Saramago coloca na boca de Deus-Pai que o demônio é fundamental para a obra celestial.”
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Justiça e vingança
No escritor romano Tácito, nós encontramos a possível origem de uma ideia que seria repetida por muitos pensadores moralistas
e pessimistas: Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança,
um prazer. Ofensas perdoadas (como em Os Miseráveis, de Victor Hugo) ou causadoras de toda a trama (como na telenovela
Avenida Brasil) trazem à tona nosso melhor e nosso pior. Em qualquer enredo, o momento em que a sofrida mocinha, que vinha
suportando barbaridades desde o primeiro capítulo da novela, finalmente ergue um olhar de rebeldia e esbofeteia a vilã registra
pico máximo de audiência. Sim, da Roma de Tácito à França de La Rochefoucauld, vingar-se é um prazer. Se o deleite puder ser
envolvido na sua máscara mais frequente, a justiça, chegamos ao nirvana absoluto das delícias humanas. Buscar justiça é mais
edificante do que buscar vingança. Nosso demônio interno adora usar a espada do anjo da justiça. A lei de Talião está nas fibras
profundas da nossa existência. A vendeta épica, como no filme argentino O Segredo dos Seus Olhos (Juan Jose Campanella, 2009),
é pouco acessível aos mortais como nós. O custo de uma vingança tão extraordinária como a descrita no filme é o uso de todo o
tempo de vida. Tal obsessão implica um ódio e uma memória muito especiais. Poucas pessoas querem pagar o preço enorme da
vingança total. Quando conseguem, formam a narrativa de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Como não somos santos generosos e extraordinários com o poder de perdão do Monsenhor Bienvenu da já citada obra
romântica francesa, também não teremos vinganças dignas de enredos comoventes. Quase todos somos medíocres no amor e
nos ódios. Restam-nos as pequenas vinganças... Não tendo acesso ao elenco principal, nosso papel coadjuvante tem sido bem
elaborado. Nosso dia a dia é tomado por microprazeres do “olho por olho e dente por dente”.
Recordo-me de uma história narrada por uma grande amiga. Casada com um homem muito incisivo (amo eufemismos),
descreveu um episódio de vida turística com o consorte. Estando em Nova York, ela presenciou a compra, e como ele pagou in cash.
A responsável, zelosa e cumpridora de uma norma superior, pegou cada nota e a examinou com um pudor único. Olhou contra a luz
uma a uma, apalpou, passou o dedo exigente sobre as microrranhuras do meio circulante para, enfim, encerrar o ritual da probidade
com uma caneta capaz de eliminar as últimas dúvidas.
O marido em questão, em vez de reclamar imediatamente como estava habituado, assumiu uma posição cordata e silenciosa
que trouxe estranheza à esposa, sabedora do seu gênio querelante. Ele sorria. Por que um homem demarcador rígido de espaços
sorria diante da desconfiança indireta que lhe era imputada? Obviamente porque já antecipava sua vingança, sua pequena guerrilha
de contra-ataque ao ato indigno de pública dúvida sobre sua honestidade.
A quantidade de fregueses à espera era grande na loja no coração de Manhattan. A fila, como muitos sabem, é um valor
superior a Deus e à pátria nos Estados Unidos. Terminado o exame inquisitivo, aprovadas todas as cédulas entregues, a mulher
deu a ele algumas pequenas notas de dólar como troco. Ele agradeceu, educado como uma moça pudica do velho Sacré-Coeur,
e, de maneira teatral, passou a realizar exames no troco que excediam, largamente, o procedimento da funcionária. Cada nota foi
apalpada, cheirada e sentida como se nelas residissem as verdades mais sublimes do Altíssimo. Depois, com o ar tranquilo de um
monge do Himalaia, pediu a caneta verificadora e passou dezenas de traços em cada nota, exarando com vagar o veredicto final
sobre a reta procedência do valor. Checou as imagens, colocou contra a luz e olhou com ponderação minuciosa.
Durante o angustiante procedimento, ele ficava elogiando o cuidado da caixa, dizendo que, de fato, nunca se pode confiar, que
ela fazia bem, que era assim mesmo que se evitavam fraudes. Falava em voz alta e louvava a atenção extrema do estabelecimento,
paralisando uma possível reação dela com profusos elogios. Finda a liturgia da vingança, agradeceu, bradou mais uma vez para
toda a loja que a ação dela era exemplar e que ela e todos da fila deveriam continuar fazendo isso, com arengas contra o estelionato
insidioso. Retirou-se, sorridente. A ação tivera efeito similar ao já indicado tapa no rosto da vilã no último capítulo. Catarse completa.
Vingança, a doce figura de Tácito, estava impetrada!
Já foi dito que somos bons quando somos bons e somos ainda melhores quando somos maus. Mesmo os mais abnegados
professores ocultam pouco um sorriso interno quando o aluno que atenazou sua vida o ano inteiro fica retido no conselho de
classe. A mais zelosa das mães que adverte com insistência um filho que leve casaco e recebe um muxoxo em troca talvez exulte
internamente quando o birrento reclama que passou muito frio. O castigo é a alma da lei e do sistema da autoridade. Tudo em pais,
policiais e professores indica que nossos valorosos conselhos só se tornam importantes quando, ignorados, se transformam em
desastres aos que fazem ouvidos de mercador.
Saramago, no diálogo do barco em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, coloca na boca de Deus-Pai que o demônio é
fundamental para a obra celestial. Sem o risco da punição, toda regra amorosa ficaria vazia. E se os fumantes morressem com
pulmões de crianças no bosque? E se o consumo de gorduras e doces emagrecesse? E se os medíocres triunfassem? Se os
adúlteros tivessem prazeres multiplicados e nenhum ônus decorrente do seu gesto infrator? O que seria da virtude sem o inferno ou
o colesterol? Para isso existe a vingança, quero dizer, a justiça... Uma semana amorosa para todos nós, incapazes de pequenas ou
de grandes maldades.
KARNAL, Leandro. O Coração das Coisas. São Paulo: Contexto, 2019.
A oração destacada é tipificada como:
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No escritor romano Tácito, nós encontramos a possível origem de uma ideia que seria repetida por muitos pensadores moralistas
e pessimistas: Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança,
um prazer. Ofensas perdoadas (como em Os Miseráveis, de Victor Hugo) ou causadoras de toda a trama (como na telenovela
Avenida Brasil) trazem à tona nosso melhor e nosso pior. Em qualquer enredo, o momento em que a sofrida mocinha, que vinha
suportando barbaridades desde o primeiro capítulo da novela, finalmente ergue um olhar de rebeldia e esbofeteia a vilã registra
pico máximo de audiência. Sim, da Roma de Tácito à França de La Rochefoucauld, vingar-se é um prazer. Se o deleite puder ser
envolvido na sua máscara mais frequente, a justiça, chegamos ao nirvana absoluto das delícias humanas. Buscar justiça é mais
edificante do que buscar vingança. Nosso demônio interno adora usar a espada do anjo da justiça. A lei de Talião está nas fibras
profundas da nossa existência. A vendeta épica, como no filme argentino O Segredo dos Seus Olhos (Juan Jose Campanella, 2009),
é pouco acessível aos mortais como nós. O custo de uma vingança tão extraordinária como a descrita no filme é o uso de todo o
tempo de vida. Tal obsessão implica um ódio e uma memória muito especiais. Poucas pessoas querem pagar o preço enorme da
vingança total. Quando conseguem, formam a narrativa de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Como não somos santos generosos e extraordinários com o poder de perdão do Monsenhor Bienvenu da já citada obra
romântica francesa, também não teremos vinganças dignas de enredos comoventes. Quase todos somos medíocres no amor e
nos ódios. Restam-nos as pequenas vinganças... Não tendo acesso ao elenco principal, nosso papel coadjuvante tem sido bem
elaborado. Nosso dia a dia é tomado por microprazeres do “olho por olho e dente por dente”.
Recordo-me de uma história narrada por uma grande amiga. Casada com um homem muito incisivo (amo eufemismos),
descreveu um episódio de vida turística com o consorte. Estando em Nova York, ela presenciou a compra, e como ele pagou in cash.
A responsável, zelosa e cumpridora de uma norma superior, pegou cada nota e a examinou com um pudor único. Olhou contra a luz
uma a uma, apalpou, passou o dedo exigente sobre as microrranhuras do meio circulante para, enfim, encerrar o ritual da probidade
com uma caneta capaz de eliminar as últimas dúvidas.
O marido em questão, em vez de reclamar imediatamente como estava habituado, assumiu uma posição cordata e silenciosa
que trouxe estranheza à esposa, sabedora do seu gênio querelante. Ele sorria. Por que um homem demarcador rígido de espaços
sorria diante da desconfiança indireta que lhe era imputada? Obviamente porque já antecipava sua vingança, sua pequena guerrilha
de contra-ataque ao ato indigno de pública dúvida sobre sua honestidade.
A quantidade de fregueses à espera era grande na loja no coração de Manhattan. A fila, como muitos sabem, é um valor
superior a Deus e à pátria nos Estados Unidos. Terminado o exame inquisitivo, aprovadas todas as cédulas entregues, a mulher
deu a ele algumas pequenas notas de dólar como troco. Ele agradeceu, educado como uma moça pudica do velho Sacré-Coeur,
e, de maneira teatral, passou a realizar exames no troco que excediam, largamente, o procedimento da funcionária. Cada nota foi
apalpada, cheirada e sentida como se nelas residissem as verdades mais sublimes do Altíssimo. Depois, com o ar tranquilo de um
monge do Himalaia, pediu a caneta verificadora e passou dezenas de traços em cada nota, exarando com vagar o veredicto final
sobre a reta procedência do valor. Checou as imagens, colocou contra a luz e olhou com ponderação minuciosa.
Durante o angustiante procedimento, ele ficava elogiando o cuidado da caixa, dizendo que, de fato, nunca se pode confiar, que
ela fazia bem, que era assim mesmo que se evitavam fraudes. Falava em voz alta e louvava a atenção extrema do estabelecimento,
paralisando uma possível reação dela com profusos elogios. Finda a liturgia da vingança, agradeceu, bradou mais uma vez para
toda a loja que a ação dela era exemplar e que ela e todos da fila deveriam continuar fazendo isso, com arengas contra o estelionato
insidioso. Retirou-se, sorridente. A ação tivera efeito similar ao já indicado tapa no rosto da vilã no último capítulo. Catarse completa.
Vingança, a doce figura de Tácito, estava impetrada!
Já foi dito que somos bons quando somos bons e somos ainda melhores quando somos maus. Mesmo os mais abnegados
professores ocultam pouco um sorriso interno quando o aluno que atenazou sua vida o ano inteiro fica retido no conselho de
classe. A mais zelosa das mães que adverte com insistência um filho que leve casaco e recebe um muxoxo em troca talvez exulte
internamente quando o birrento reclama que passou muito frio. O castigo é a alma da lei e do sistema da autoridade. Tudo em pais,
policiais e professores indica que nossos valorosos conselhos só se tornam importantes quando, ignorados, se transformam em
desastres aos que fazem ouvidos de mercador.
Saramago, no diálogo do barco em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, coloca na boca de Deus-Pai que o demônio é
fundamental para a obra celestial. Sem o risco da punição, toda regra amorosa ficaria vazia. E se os fumantes morressem com
pulmões de crianças no bosque? E se o consumo de gorduras e doces emagrecesse? E se os medíocres triunfassem? Se os
adúlteros tivessem prazeres multiplicados e nenhum ônus decorrente do seu gesto infrator? O que seria da virtude sem o inferno ou
o colesterol? Para isso existe a vingança, quero dizer, a justiça... Uma semana amorosa para todos nós, incapazes de pequenas ou
de grandes maldades.
KARNAL, Leandro. O Coração das Coisas. São Paulo: Contexto, 2019.
“O
A palavra “custo” formou-se por:
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No escritor romano Tácito, nós encontramos a possível origem de uma ideia que seria repetida por muitos pensadores moralistas
e pessimistas: Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança,
um prazer. Ofensas perdoadas (como em Os Miseráveis, de Victor Hugo) ou causadoras de toda a trama (como na telenovela
Avenida Brasil) trazem à tona nosso melhor e nosso pior. Em qualquer enredo, o momento em que a sofrida mocinha, que vinha
suportando barbaridades desde o primeiro capítulo da novela, finalmente ergue um olhar de rebeldia e esbofeteia a vilã registra
pico máximo de audiência. Sim, da Roma de Tácito à França de La Rochefoucauld, vingar-se é um prazer. Se o deleite puder ser
envolvido na sua máscara mais frequente, a justiça, chegamos ao nirvana absoluto das delícias humanas. Buscar justiça é mais
edificante do que buscar vingança. Nosso demônio interno adora usar a espada do anjo da justiça. A lei de Talião está nas fibras
profundas da nossa existência. A vendeta épica, como no filme argentino O Segredo dos Seus Olhos (Juan Jose Campanella, 2009),
é pouco acessível aos mortais como nós. O custo de uma vingança tão extraordinária como a descrita no filme é o uso de todo o
tempo de vida. Tal obsessão implica um ódio e uma memória muito especiais. Poucas pessoas querem pagar o preço enorme da
vingança total. Quando conseguem, formam a narrativa de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Como não somos santos generosos e extraordinários com o poder de perdão do Monsenhor Bienvenu da já citada obra
romântica francesa, também não teremos vinganças dignas de enredos comoventes. Quase todos somos medíocres no amor e
nos ódios. Restam-nos as pequenas vinganças... Não tendo acesso ao elenco principal, nosso papel coadjuvante tem sido bem
elaborado. Nosso dia a dia é tomado por microprazeres do “olho por olho e dente por dente”.
Recordo-me de uma história narrada por uma grande amiga. Casada com um homem muito incisivo (amo eufemismos),
descreveu um episódio de vida turística com o consorte. Estando em Nova York, ela presenciou a compra, e como ele pagou in cash.
A responsável, zelosa e cumpridora de uma norma superior, pegou cada nota e a examinou com um pudor único. Olhou contra a luz
uma a uma, apalpou, passou o dedo exigente sobre as microrranhuras do meio circulante para, enfim, encerrar o ritual da probidade
com uma caneta capaz de eliminar as últimas dúvidas.
O marido em questão, em vez de reclamar imediatamente como estava habituado, assumiu uma posição cordata e silenciosa
que trouxe estranheza à esposa, sabedora do seu gênio querelante. Ele sorria. Por que um homem demarcador rígido de espaços
sorria diante da desconfiança indireta que lhe era imputada? Obviamente porque já antecipava sua vingança, sua pequena guerrilha
de contra-ataque ao ato indigno de pública dúvida sobre sua honestidade.
A quantidade de fregueses à espera era grande na loja no coração de Manhattan. A fila, como muitos sabem, é um valor
superior a Deus e à pátria nos Estados Unidos. Terminado o exame inquisitivo, aprovadas todas as cédulas entregues, a mulher
deu a ele algumas pequenas notas de dólar como troco. Ele agradeceu, educado como uma moça pudica do velho Sacré-Coeur,
e, de maneira teatral, passou a realizar exames no troco que excediam, largamente, o procedimento da funcionária. Cada nota foi
apalpada, cheirada e sentida como se nelas residissem as verdades mais sublimes do Altíssimo. Depois, com o ar tranquilo de um
monge do Himalaia, pediu a caneta verificadora e passou dezenas de traços em cada nota, exarando com vagar o veredicto final
sobre a reta procedência do valor. Checou as imagens, colocou contra a luz e olhou com ponderação minuciosa.
Durante o angustiante procedimento, ele ficava elogiando o cuidado da caixa, dizendo que, de fato, nunca se pode confiar, que
ela fazia bem, que era assim mesmo que se evitavam fraudes. Falava em voz alta e louvava a atenção extrema do estabelecimento,
paralisando uma possível reação dela com profusos elogios. Finda a liturgia da vingança, agradeceu, bradou mais uma vez para
toda a loja que a ação dela era exemplar e que ela e todos da fila deveriam continuar fazendo isso, com arengas contra o estelionato
insidioso. Retirou-se, sorridente. A ação tivera efeito similar ao já indicado tapa no rosto da vilã no último capítulo. Catarse completa.
Vingança, a doce figura de Tácito, estava impetrada!
Já foi dito que somos bons quando somos bons e somos ainda melhores quando somos maus. Mesmo os mais abnegados
professores ocultam pouco um sorriso interno quando o aluno que atenazou sua vida o ano inteiro fica retido no conselho de
classe. A mais zelosa das mães que adverte com insistência um filho que leve casaco e recebe um muxoxo em troca talvez exulte
internamente quando o birrento reclama que passou muito frio. O castigo é a alma da lei e do sistema da autoridade. Tudo em pais,
policiais e professores indica que nossos valorosos conselhos só se tornam importantes quando, ignorados, se transformam em
desastres aos que fazem ouvidos de mercador.
Saramago, no diálogo do barco em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, coloca na boca de Deus-Pai que o demônio é
fundamental para a obra celestial. Sem o risco da punição, toda regra amorosa ficaria vazia. E se os fumantes morressem com
pulmões de crianças no bosque? E se o consumo de gorduras e doces emagrecesse? E se os medíocres triunfassem? Se os
adúlteros tivessem prazeres multiplicados e nenhum ônus decorrente do seu gesto infrator? O que seria da virtude sem o inferno ou
o colesterol? Para isso existe a vingança, quero dizer, a justiça... Uma semana amorosa para todos nós, incapazes de pequenas ou
de grandes maldades.
KARNAL, Leandro. O Coração das Coisas. São Paulo: Contexto, 2019.
“No escritor romano Tácito (1), encontramos a possível origem de uma ideia que seria repetida por muitos pensadores moralistas e pessimistas: Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício.” (2)
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Questão presente nas seguintes provas
Justiça e vingança
No escritor romano Tácito, nós encontramos a possível origem de uma ideia que seria repetida por muitos pensadores moralistas
e pessimistas: Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança,
um prazer. Ofensas perdoadas (como em Os Miseráveis, de Victor Hugo) ou causadoras de toda a trama (como na telenovela
Avenida Brasil) trazem à tona nosso melhor e nosso pior. Em qualquer enredo, o momento em que a sofrida mocinha, que vinha
suportando barbaridades desde o primeiro capítulo da novela, finalmente ergue um olhar de rebeldia e esbofeteia a vilã registra
pico máximo de audiência. Sim, da Roma de Tácito à França de La Rochefoucauld, vingar-se é um prazer. Se o deleite puder ser
envolvido na sua máscara mais frequente, a justiça, chegamos ao nirvana absoluto das delícias humanas. Buscar justiça é mais
edificante do que buscar vingança. Nosso demônio interno adora usar a espada do anjo da justiça. A lei de Talião está nas fibras
profundas da nossa existência. A vendeta épica, como no filme argentino O Segredo dos Seus Olhos (Juan Jose Campanella, 2009),
é pouco acessível aos mortais como nós. O custo de uma vingança tão extraordinária como a descrita no filme é o uso de todo o
tempo de vida. Tal obsessão implica um ódio e uma memória muito especiais. Poucas pessoas querem pagar o preço enorme da
vingança total. Quando conseguem, formam a narrativa de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Como não somos santos generosos e extraordinários com o poder de perdão do Monsenhor Bienvenu da já citada obra
romântica francesa, também não teremos vinganças dignas de enredos comoventes. Quase todos somos medíocres no amor e
nos ódios. Restam-nos as pequenas vinganças... Não tendo acesso ao elenco principal, nosso papel coadjuvante tem sido bem
elaborado. Nosso dia a dia é tomado por microprazeres do “olho por olho e dente por dente”.
Recordo-me de uma história narrada por uma grande amiga. Casada com um homem muito incisivo (amo eufemismos),
descreveu um episódio de vida turística com o consorte. Estando em Nova York, ela presenciou a compra, e como ele pagou in cash.
A responsável, zelosa e cumpridora de uma norma superior, pegou cada nota e a examinou com um pudor único. Olhou contra a luz
uma a uma, apalpou, passou o dedo exigente sobre as microrranhuras do meio circulante para, enfim, encerrar o ritual da probidade
com uma caneta capaz de eliminar as últimas dúvidas.
O marido em questão, em vez de reclamar imediatamente como estava habituado, assumiu uma posição cordata e silenciosa
que trouxe estranheza à esposa, sabedora do seu gênio querelante. Ele sorria. Por que um homem demarcador rígido de espaços
sorria diante da desconfiança indireta que lhe era imputada? Obviamente porque já antecipava sua vingança, sua pequena guerrilha
de contra-ataque ao ato indigno de pública dúvida sobre sua honestidade.
A quantidade de fregueses à espera era grande na loja no coração de Manhattan. A fila, como muitos sabem, é um valor
superior a Deus e à pátria nos Estados Unidos. Terminado o exame inquisitivo, aprovadas todas as cédulas entregues, a mulher
deu a ele algumas pequenas notas de dólar como troco. Ele agradeceu, educado como uma moça pudica do velho Sacré-Coeur,
e, de maneira teatral, passou a realizar exames no troco que excediam, largamente, o procedimento da funcionária. Cada nota foi
apalpada, cheirada e sentida como se nelas residissem as verdades mais sublimes do Altíssimo. Depois, com o ar tranquilo de um
monge do Himalaia, pediu a caneta verificadora e passou dezenas de traços em cada nota, exarando com vagar o veredicto final
sobre a reta procedência do valor. Checou as imagens, colocou contra a luz e olhou com ponderação minuciosa.
Durante o angustiante procedimento, ele ficava elogiando o cuidado da caixa, dizendo que, de fato, nunca se pode confiar, que
ela fazia bem, que era assim mesmo que se evitavam fraudes. Falava em voz alta e louvava a atenção extrema do estabelecimento,
paralisando uma possível reação dela com profusos elogios. Finda a liturgia da vingança, agradeceu, bradou mais uma vez para
toda a loja que a ação dela era exemplar e que ela e todos da fila deveriam continuar fazendo isso, com arengas contra o estelionato
insidioso. Retirou-se, sorridente. A ação tivera efeito similar ao já indicado tapa no rosto da vilã no último capítulo. Catarse completa.
Vingança, a doce figura de Tácito, estava impetrada!
Já foi dito que somos bons quando somos bons e somos ainda melhores quando somos maus. Mesmo os mais abnegados
professores ocultam pouco um sorriso interno quando o aluno que atenazou sua vida o ano inteiro fica retido no conselho de
classe. A mais zelosa das mães que adverte com insistência um filho que leve casaco e recebe um muxoxo em troca talvez exulte
internamente quando o birrento reclama que passou muito frio. O castigo é a alma da lei e do sistema da autoridade. Tudo em pais,
policiais e professores indica que nossos valorosos conselhos só se tornam importantes quando, ignorados, se transformam em
desastres aos que fazem ouvidos de mercador.
Saramago, no diálogo do barco em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, coloca na boca de Deus-Pai que o demônio é
fundamental para a obra celestial. Sem o risco da punição, toda regra amorosa ficaria vazia. E se os fumantes morressem com
pulmões de crianças no bosque? E se o consumo de gorduras e doces emagrecesse? E se os medíocres triunfassem? Se os
adúlteros tivessem prazeres multiplicados e nenhum ônus decorrente do seu gesto infrator? O que seria da virtude sem o inferno ou
o colesterol? Para isso existe a vingança, quero dizer, a justiça... Uma semana amorosa para todos nós, incapazes de pequenas ou
de grandes maldades.
KARNAL, Leandro. O Coração das Coisas. São Paulo: Contexto, 2019.
No trecho demarcado, há uma coesão do tipo:
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