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Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Santa Maria Jetibá-ES
Tecnologia: o uso excessivo e os impactos na saúde mental
Pesquisas norte-americanas recentes revelam o quão solitários os americanos se sentem, tendo como prevalência os jovens, que tiveram o tempo de qualidade em suas relações, com amigos e colegas, reduzido por mais de 50%.
Outro estudo, lançado em 2021, sobre o tempo de exposição a telas, de crianças e adolescentes, revelam que o Brasil está em terceiro lugar no ranking dos países que mais utilizam celular ou dispositivos eletrônicos, passando até nove horas diárias consumindo conteúdos pela internet.
Considerando que podemos resolver muitas coisas virtualmente, sem precisar sair de casa, temos poucas motivações para sair do conforto e segurança do lar. Desta forma, temos cada vez mais homens e mulheres, jovens e crianças, com poucas interações sociais e maior isolamento. A pandemia acelerou um processo natural que já vinha acontecendo, e assim, este fenômeno tecnológico foi potencializado.
A vida já estava sendo desenhada para favorecer o isolamento, mas esse caminho não era apresentado como isolamento, mas como privacidade, como algo bom. Porém, a privacidade não pode levar ao isolamento.
Perguntemos para nossos avós: “Como era a convivência com a vizinhança na época em que eram crianças? Como viviam, brincavam, e como os nossos bisavós viviam?”. Precisamos resgatar os bons exemplos! A tecnologia trouxe inúmeros benefícios, sem dúvidas, mas é preciso saber usá-la sem que nos adoeça.
Quanto mais tempo na internet, menos tempo presencialmente teremos com as pessoas e, automaticamente, mais chances de nos sentirmos solitários. Afinal, existe uma diferença muito grande entre o virtual e o real!
(Aline Rodrigues. Hoje em dia. Em: 16/11/2023. Adaptado.)
O estabelecimento da conexão entre as ideias e informações apresentadas está diretamente relacionado ao emprego adequado dos conectores textuais; dentre os que foram utilizados no texto com função anafórica estão os destacados a seguir com EXCEÇÃO de:
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Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Santa Maria Jetibá-ES
Tecnologia: o uso excessivo e os impactos na saúde mental
Pesquisas norte-americanas recentes revelam o quão solitários os americanos se sentem, tendo como prevalência os jovens, que tiveram o tempo de qualidade em suas relações, com amigos e colegas, reduzido por mais de 50%.
Outro estudo, lançado em 2021, sobre o tempo de exposição a telas, de crianças e adolescentes, revelam que o Brasil está em terceiro lugar no ranking dos países que mais utilizam celular ou dispositivos eletrônicos, passando até nove horas diárias consumindo conteúdos pela internet.
Considerando que podemos resolver muitas coisas virtualmente, sem precisar sair de casa, temos poucas motivações para sair do conforto e segurança do lar. Desta forma, temos cada vez mais homens e mulheres, jovens e crianças, com poucas interações sociais e maior isolamento. A pandemia acelerou um processo natural que já vinha acontecendo, e assim, este fenômeno tecnológico foi potencializado.
A vida já estava sendo desenhada para favorecer o isolamento, mas esse caminho não era apresentado como isolamento, mas como privacidade, como algo bom. Porém, a privacidade não pode levar ao isolamento.
Perguntemos para nossos avós: “Como era a convivência com a vizinhança na época em que eram crianças? Como viviam, brincavam, e como os nossos bisavós viviam?”. Precisamos resgatar os bons exemplos! A tecnologia trouxe inúmeros benefícios, sem dúvidas, mas é preciso saber usá-la sem que nos adoeça.
Quanto mais tempo na internet, menos tempo presencialmente teremos com as pessoas e, automaticamente, mais chances de nos sentirmos solitários. Afinal, existe uma diferença muito grande entre o virtual e o real!
(Aline Rodrigues. Hoje em dia. Em: 16/11/2023. Adaptado.)
Pode-se afirmar que, por meio das informações e ideias apresentadas, o texto provoca reflexão, principalmente, acerca de:
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Disciplina: Português
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Aviãozinho
A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo – literalmente: todas – usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de avião. Para ele aquilo é apenas outro barulho de mãe.
Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da cena – “Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho”?! – isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca, fazendo barulho?
Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível possível consequência da minha distração – ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou, já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta que meu corpo tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado de papinha, para me salvar. Pulseira dourada. Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos... Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los Angeles. Meu pai lecionava na Ucla, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para a menina – e saí correndo.
Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu, obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina – com quem, aliás, nunca troquei nem um tímido “hello”. A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder tempo. Mas às vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer “Há a questão de uma certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Veríssimo...”. Estar assistindo à entrevista de alguma atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida de crimes acabou ali.
Post-scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado. Tinha sido destruída por um terremoto.
Mudança – As seis colunas semanais que publico no Estadão vão ser reduzidas para duas: esta, aos domingos, e uma que sairá às quintas-feiras. A mudança é a meu pedido, por nenhuma outra razão além da mais antiga que existe, a vontade de trabalhar menos. Esta seção continuará igual. Não adianta protestar, continuará.
(As mentiras que as mulheres contam. Luís Fernando Veríssimo. Editora Objetiva.)
No fragmento “Tinha eu meus 7 anos...” (4º§), as reticências têm como finalidade:
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Disciplina: Português
Banca: Consulplan
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Aviãozinho
A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo – literalmente: todas – usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de avião. Para ele aquilo é apenas outro barulho de mãe.
Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da cena – “Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho”?! – isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca, fazendo barulho?
Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível possível consequência da minha distração – ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou, já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta que meu corpo tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado de papinha, para me salvar. Pulseira dourada. Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos... Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los Angeles. Meu pai lecionava na Ucla, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para a menina – e saí correndo.
Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu, obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina – com quem, aliás, nunca troquei nem um tímido “hello”. A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder tempo. Mas às vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer “Há a questão de uma certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Veríssimo...”. Estar assistindo à entrevista de alguma atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida de crimes acabou ali.
Post-scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado. Tinha sido destruída por um terremoto.
Mudança – As seis colunas semanais que publico no Estadão vão ser reduzidas para duas: esta, aos domingos, e uma que sairá às quintas-feiras. A mudança é a meu pedido, por nenhuma outra razão além da mais antiga que existe, a vontade de trabalhar menos. Esta seção continuará igual. Não adianta protestar, continuará.
(As mentiras que as mulheres contam. Luís Fernando Veríssimo. Editora Objetiva.)
No texto, algumas palavras podem ser empregadas para transmitir opinião, intencionalmente ou não. Expressa uma opinião o seguinte fragmento de texto:
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Aviãozinho
A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo – literalmente: todas – usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de avião. Para ele aquilo é apenas outro barulho de mãe.
Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da cena – “Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho”?! – isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca, fazendo barulho?
Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível possível consequência da minha distração – ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou, já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta que meu corpo tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado de papinha, para me salvar. Pulseira dourada. Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos... Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los Angeles. Meu pai lecionava na Ucla, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para a menina – e saí correndo.
Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu, obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina – com quem, aliás, nunca troquei nem um tímido “hello”. A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder tempo. Mas às vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer “Há a questão de uma certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Veríssimo...”. Estar assistindo à entrevista de alguma atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida de crimes acabou ali.
Post-scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado. Tinha sido destruída por um terremoto.
Mudança – As seis colunas semanais que publico no Estadão vão ser reduzidas para duas: esta, aos domingos, e uma que sairá às quintas-feiras. A mudança é a meu pedido, por nenhuma outra razão além da mais antiga que existe, a vontade de trabalhar menos. Esta seção continuará igual. Não adianta protestar, continuará.
(As mentiras que as mulheres contam. Luís Fernando Veríssimo. Editora Objetiva.)
Possui papel adjetivo no fragmento a seguir a expressão em destaque:
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Disciplina: Português
Banca: Consulplan
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- MorfologiaConjunçõesClassificação das ConjunçõesConjunções CoordenativasConjunções coordenativas adversativas
- MorfologiaConjunçõesClassificação das ConjunçõesConjunções Subordinativas
Aviãozinho
A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo – literalmente: todas – usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de avião. Para ele aquilo é apenas outro barulho de mãe.
Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da cena – “Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho”?! – isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca, fazendo barulho?
Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível possível consequência da minha distração – ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou, já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta que meu corpo tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado de papinha, para me salvar. Pulseira dourada. Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos... Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los Angeles. Meu pai lecionava na Ucla, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para a menina – e saí correndo.
Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu, obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina – com quem, aliás, nunca troquei nem um tímido “hello”. A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder tempo. Mas às vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer “Há a questão de uma certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Veríssimo...”. Estar assistindo à entrevista de alguma atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida de crimes acabou ali.
Post-scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado. Tinha sido destruída por um terremoto.
Mudança – As seis colunas semanais que publico no Estadão vão ser reduzidas para duas: esta, aos domingos, e uma que sairá às quintas-feiras. A mudança é a meu pedido, por nenhuma outra razão além da mais antiga que existe, a vontade de trabalhar menos. Esta seção continuará igual. Não adianta protestar, continuará.
(As mentiras que as mulheres contam. Luís Fernando Veríssimo. Editora Objetiva.)
No trecho “Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo.” (3º§), o conector “porque” estabelece entre a oração que introduz e a oração anterior, principal, uma relação de:
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Aviãozinho
A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo – literalmente: todas – usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de avião. Para ele aquilo é apenas outro barulho de mãe.
Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da cena – “Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho”?! – isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca, fazendo barulho?
Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível possível consequência da minha distração – ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou, já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta que meu corpo tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado de papinha, para me salvar. Pulseira dourada. Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos... Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los Angeles. Meu pai lecionava na Ucla, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para a menina – e saí correndo.
Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu, obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina – com quem, aliás, nunca troquei nem um tímido “hello”. A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder tempo. Mas às vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer “Há a questão de uma certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Veríssimo...”. Estar assistindo à entrevista de alguma atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida de crimes acabou ali.
Post-scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado. Tinha sido destruída por um terremoto.
Mudança – As seis colunas semanais que publico no Estadão vão ser reduzidas para duas: esta, aos domingos, e uma que sairá às quintas-feiras. A mudança é a meu pedido, por nenhuma outra razão além da mais antiga que existe, a vontade de trabalhar menos. Esta seção continuará igual. Não adianta protestar, continuará.
(As mentiras que as mulheres contam. Luís Fernando Veríssimo. Editora Objetiva.)
Nesse texto autobiográfico, Veríssimo revela sobre algumas situações curiosas da vida, ocorridas na sua infância. Dessa forma, é possível inferir que:
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Orgão: Pref. Santa Maria Jetibá-ES
Aviãozinho
A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo – literalmente: todas – usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de avião. Para ele aquilo é apenas outro barulho de mãe.
Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da cena – “Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho”?! – isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca, fazendo barulho?
Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível possível consequência da minha distração – ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou, já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta que meu corpo tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado de papinha, para me salvar. Pulseira dourada. Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos... Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los Angeles. Meu pai lecionava na Ucla, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para a menina – e saí correndo.
Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu, obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina – com quem, aliás, nunca troquei nem um tímido “hello”. A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder tempo. Mas às vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer “Há a questão de uma certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Veríssimo...”. Estar assistindo à entrevista de alguma atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida de crimes acabou ali.
Post-scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado. Tinha sido destruída por um terremoto.
Mudança – As seis colunas semanais que publico no Estadão vão ser reduzidas para duas: esta, aos domingos, e uma que sairá às quintas-feiras. A mudança é a meu pedido, por nenhuma outra razão além da mais antiga que existe, a vontade de trabalhar menos. Esta seção continuará igual. Não adianta protestar, continuará.
(As mentiras que as mulheres contam. Luís Fernando Veríssimo. Editora Objetiva.)
Assinale a alternativa em que o sinônimo ou termo equivalente da palavra sublinhada encontra-se inadequado.
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Orgão: Pref. Santa Maria Jetibá-ES
Aviãozinho
A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo – literalmente: todas – usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de avião. Para ele aquilo é apenas outro barulho de mãe.
Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da cena – “Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho”?! – isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca, fazendo barulho?
Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível possível consequência da minha distração – ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou, já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta que meu corpo tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado de papinha, para me salvar. Pulseira dourada. Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos... Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los Angeles. Meu pai lecionava na Ucla, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para a menina – e saí correndo.
Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu, obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina – com quem, aliás, nunca troquei nem um tímido “hello”. A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder tempo. Mas às vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer “Há a questão de uma certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Veríssimo...”. Estar assistindo à entrevista de alguma atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida de crimes acabou ali.
Post-scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado. Tinha sido destruída por um terremoto.
Mudança – As seis colunas semanais que publico no Estadão vão ser reduzidas para duas: esta, aos domingos, e uma que sairá às quintas-feiras. A mudança é a meu pedido, por nenhuma outra razão além da mais antiga que existe, a vontade de trabalhar menos. Esta seção continuará igual. Não adianta protestar, continuará.
(As mentiras que as mulheres contam. Luís Fernando Veríssimo. Editora Objetiva.)
Nota-se uma ironia por parte do autor do texto em, EXCETO:
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Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Santa Maria Jetibá-ES
Aviãozinho
A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo – literalmente: todas – usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de avião. Para ele aquilo é apenas outro barulho de mãe.
Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da cena – “Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho”?! – isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca, fazendo barulho?
Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível possível consequência da minha distração – ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou, já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta que meu corpo tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado de papinha, para me salvar. Pulseira dourada. Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos... Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los Angeles. Meu pai lecionava na Ucla, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para a menina – e saí correndo.
Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu, obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina – com quem, aliás, nunca troquei nem um tímido “hello”. A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder tempo. Mas às vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer “Há a questão de uma certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Veríssimo...”. Estar assistindo à entrevista de alguma atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida de crimes acabou ali.
Post-scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado. Tinha sido destruída por um terremoto.
Mudança – As seis colunas semanais que publico no Estadão vão ser reduzidas para duas: esta, aos domingos, e uma que sairá às quintas-feiras. A mudança é a meu pedido, por nenhuma outra razão além da mais antiga que existe, a vontade de trabalhar menos. Esta seção continuará igual. Não adianta protestar, continuará.
(As mentiras que as mulheres contam. Luís Fernando Veríssimo. Editora Objetiva.)
Assinale, a seguir, o excerto que apresenta o argumento mais contundente a favor da tese defendida pelo autor do texto.
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