Foram encontradas 364.900 questões.
- OrtografiaPontuaçãoPonto de Exclamação e Interrogação
- Interpretação de TextosFiguras e Vícios de LinguagemFiguras de Linguagem
- Interpretação de TextosFunções da Linguagem
A digital da solidão
A polpa digital mudou de função. Além da digital tradicional que nos identifica, deixa rastros eletrônicos que revelam
confidências e inconfidências. Dizem que o homem moderno não está mais sozinho. Carrega no bolso um aparelho que o
conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que
compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas.
Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já
suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão – apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica
na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas
passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que
está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se
sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que
expressam sentimentos que ele nem sabe se realmente sente. É uma solidão acompanhada, se é que isso faz algum sentido. E
não faz. No fundo, é apenas mais uma tentativa de fugir do tédio – aquele vazio que surge quando a vontade não está ocupada
com desejos imediatos.
O curioso é que ninguém admite. Pergunte a qualquer pessoa se ela se sente solitária e ela dirá que não, que tem centenas
de amigos (no Facebook), milhares de seguidores (no Instagram), conexões profissionais (no LinkedIn), e está sempre em
contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.
A Organização Mundial da Saúde declarou que temos um problema de saúde pública mundial nas mãos. Desde 2014,
quando as redes sociais se expandiram e se tornaram onipresentes como o ar que respiramos (só que bem menos saudáveis),
os índices de depressão e suicídio dispararam, especialmente entre os jovens.
O celular nos roubou algo precioso: o direito ao ócio, à contemplação, ao devaneio. Não somos ingênuos. Sabemos que o
celular está nos tornando mais solitários, mais ansiosos, mais distraídos. Sabemos que as redes sociais foram desenhadas para
viciar, que cada curtida libera uma “dosezinha” de dopamina. Sabemos tudo isso e continuamos, dedo no scroll, olho na tela,
alma no limbo.
O que fazer, então? Jogar o celular pela janela e voltar para a idade do telefone de discar? Claro que não. O celular é uma
ferramenta maravilhosa, revolucionária, indispensável. O problema não é o aparelho, é o que fizemos dele.
Talvez a solução seja simples, embora difícil: aprender a estar só de verdade. Desligar o celular de vez em quando. Sentar
numa cadeira e olhar pela janela. Deixar o tédio vir, a inquietação, o silêncio. Descobrir que a solidão não é tão terrível assim –
e que é justamente na solidão que o indivíduo pode se libertar da influência constante dos outros e se aproximar de si mesmo.
Porque no fim das contas, a solidão é inevitável. É a condição humana. Aceitá-la como companheira é condição básica para
nossa sanidade mental.
(Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlos-starling/. Acesso em: maio de 2026. Fragmento.)
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A digital da solidão
A polpa digital mudou de função. Além da digital tradicional que nos identifica, deixa rastros eletrônicos que revelam
confidências e inconfidências. Dizem que o homem moderno não está mais sozinho. Carrega no bolso um aparelho que o
conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que
compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas.
Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já
suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão – apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica
na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas
passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que
está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se
sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que
expressam sentimentos que ele nem sabe se realmente sente. É uma solidão acompanhada, se é que isso faz algum sentido. E
não faz. No fundo, é apenas mais uma tentativa de fugir do tédio – aquele vazio que surge quando a vontade não está ocupada
com desejos imediatos.
O curioso é que ninguém admite. Pergunte a qualquer pessoa se ela se sente solitária e ela dirá que não, que tem centenas
de amigos (no Facebook), milhares de seguidores (no Instagram), conexões profissionais (no LinkedIn), e está sempre em
contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.
A Organização Mundial da Saúde declarou que temos um problema de saúde pública mundial nas mãos. Desde 2014,
quando as redes sociais se expandiram e se tornaram onipresentes como o ar que respiramos (só que bem menos saudáveis),
os índices de depressão e suicídio dispararam, especialmente entre os jovens.
O celular nos roubou algo precioso: o direito ao ócio, à contemplação, ao devaneio. Não somos ingênuos. Sabemos que o
celular está nos tornando mais solitários, mais ansiosos, mais distraídos. Sabemos que as redes sociais foram desenhadas para
viciar, que cada curtida libera uma “dosezinha” de dopamina. Sabemos tudo isso e continuamos, dedo no scroll, olho na tela,
alma no limbo.
O que fazer, então? Jogar o celular pela janela e voltar para a idade do telefone de discar? Claro que não. O celular é uma
ferramenta maravilhosa, revolucionária, indispensável. O problema não é o aparelho, é o que fizemos dele.
Talvez a solução seja simples, embora difícil: aprender a estar só de verdade. Desligar o celular de vez em quando. Sentar
numa cadeira e olhar pela janela. Deixar o tédio vir, a inquietação, o silêncio. Descobrir que a solidão não é tão terrível assim –
e que é justamente na solidão que o indivíduo pode se libertar da influência constante dos outros e se aproximar de si mesmo.
Porque no fim das contas, a solidão é inevitável. É a condição humana. Aceitá-la como companheira é condição básica para
nossa sanidade mental.
(Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlos-starling/. Acesso em: maio de 2026. Fragmento.)
Considerando o funcionamento desses recursos na dinâmica do texto, assinale a afirmativa correta.
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A polpa digital mudou de função. Além da digital tradicional que nos identifica, deixa rastros eletrônicos que revelam
confidências e inconfidências. Dizem que o homem moderno não está mais sozinho. Carrega no bolso um aparelho que o
conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que
compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas.
Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já
suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão – apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica
na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas
passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que
está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se
sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que
expressam sentimentos que ele nem sabe se realmente sente. É uma solidão acompanhada, se é que isso faz algum sentido. E
não faz. No fundo, é apenas mais uma tentativa de fugir do tédio – aquele vazio que surge quando a vontade não está ocupada
com desejos imediatos.
O curioso é que ninguém admite. Pergunte a qualquer pessoa se ela se sente solitária e ela dirá que não, que tem centenas
de amigos (no Facebook), milhares de seguidores (no Instagram), conexões profissionais (no LinkedIn), e está sempre em
contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.
A Organização Mundial da Saúde declarou que temos um problema de saúde pública mundial nas mãos. Desde 2014,
quando as redes sociais se expandiram e se tornaram onipresentes como o ar que respiramos (só que bem menos saudáveis),
os índices de depressão e suicídio dispararam, especialmente entre os jovens.
O celular nos roubou algo precioso: o direito ao ócio, à contemplação, ao devaneio. Não somos ingênuos. Sabemos que o
celular está nos tornando mais solitários, mais ansiosos, mais distraídos. Sabemos que as redes sociais foram desenhadas para
viciar, que cada curtida libera uma “dosezinha” de dopamina. Sabemos tudo isso e continuamos, dedo no scroll, olho na tela,
alma no limbo.
O que fazer, então? Jogar o celular pela janela e voltar para a idade do telefone de discar? Claro que não. O celular é uma
ferramenta maravilhosa, revolucionária, indispensável. O problema não é o aparelho, é o que fizemos dele.
Talvez a solução seja simples, embora difícil: aprender a estar só de verdade. Desligar o celular de vez em quando. Sentar
numa cadeira e olhar pela janela. Deixar o tédio vir, a inquietação, o silêncio. Descobrir que a solidão não é tão terrível assim –
e que é justamente na solidão que o indivíduo pode se libertar da influência constante dos outros e se aproximar de si mesmo.
Porque no fim das contas, a solidão é inevitável. É a condição humana. Aceitá-la como companheira é condição básica para
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conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que
compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas.
Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já
suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão – apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica
na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas
passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que
está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se
sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que
expressam sentimentos que ele nem sabe se realmente sente. É uma solidão acompanhada, se é que isso faz algum sentido. E
não faz. No fundo, é apenas mais uma tentativa de fugir do tédio – aquele vazio que surge quando a vontade não está ocupada
com desejos imediatos.
O curioso é que ninguém admite. Pergunte a qualquer pessoa se ela se sente solitária e ela dirá que não, que tem centenas
de amigos (no Facebook), milhares de seguidores (no Instagram), conexões profissionais (no LinkedIn), e está sempre em
contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.
A Organização Mundial da Saúde declarou que temos um problema de saúde pública mundial nas mãos. Desde 2014,
quando as redes sociais se expandiram e se tornaram onipresentes como o ar que respiramos (só que bem menos saudáveis),
os índices de depressão e suicídio dispararam, especialmente entre os jovens.
O celular nos roubou algo precioso: o direito ao ócio, à contemplação, ao devaneio. Não somos ingênuos. Sabemos que o
celular está nos tornando mais solitários, mais ansiosos, mais distraídos. Sabemos que as redes sociais foram desenhadas para
viciar, que cada curtida libera uma “dosezinha” de dopamina. Sabemos tudo isso e continuamos, dedo no scroll, olho na tela,
alma no limbo.
O que fazer, então? Jogar o celular pela janela e voltar para a idade do telefone de discar? Claro que não. O celular é uma
ferramenta maravilhosa, revolucionária, indispensável. O problema não é o aparelho, é o que fizemos dele.
Talvez a solução seja simples, embora difícil: aprender a estar só de verdade. Desligar o celular de vez em quando. Sentar
numa cadeira e olhar pela janela. Deixar o tédio vir, a inquietação, o silêncio. Descobrir que a solidão não é tão terrível assim –
e que é justamente na solidão que o indivíduo pode se libertar da influência constante dos outros e se aproximar de si mesmo.
Porque no fim das contas, a solidão é inevitável. É a condição humana. Aceitá-la como companheira é condição básica para
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conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que
compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas.
Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já
suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão – apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica
na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas
passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que
está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se
sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que
expressam sentimentos que ele nem sabe se realmente sente. É uma solidão acompanhada, se é que isso faz algum sentido. E
não faz. No fundo, é apenas mais uma tentativa de fugir do tédio – aquele vazio que surge quando a vontade não está ocupada
com desejos imediatos.
O curioso é que ninguém admite. Pergunte a qualquer pessoa se ela se sente solitária e ela dirá que não, que tem centenas
de amigos (no Facebook), milhares de seguidores (no Instagram), conexões profissionais (no LinkedIn), e está sempre em
contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.
A Organização Mundial da Saúde declarou que temos um problema de saúde pública mundial nas mãos. Desde 2014,
quando as redes sociais se expandiram e se tornaram onipresentes como o ar que respiramos (só que bem menos saudáveis),
os índices de depressão e suicídio dispararam, especialmente entre os jovens.
O celular nos roubou algo precioso: o direito ao ócio, à contemplação, ao devaneio. Não somos ingênuos. Sabemos que o
celular está nos tornando mais solitários, mais ansiosos, mais distraídos. Sabemos que as redes sociais foram desenhadas para
viciar, que cada curtida libera uma “dosezinha” de dopamina. Sabemos tudo isso e continuamos, dedo no scroll, olho na tela,
alma no limbo.
O que fazer, então? Jogar o celular pela janela e voltar para a idade do telefone de discar? Claro que não. O celular é uma
ferramenta maravilhosa, revolucionária, indispensável. O problema não é o aparelho, é o que fizemos dele.
Talvez a solução seja simples, embora difícil: aprender a estar só de verdade. Desligar o celular de vez em quando. Sentar
numa cadeira e olhar pela janela. Deixar o tédio vir, a inquietação, o silêncio. Descobrir que a solidão não é tão terrível assim –
e que é justamente na solidão que o indivíduo pode se libertar da influência constante dos outros e se aproximar de si mesmo.
Porque no fim das contas, a solidão é inevitável. É a condição humana. Aceitá-la como companheira é condição básica para
nossa sanidade mental.
(Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlos-starling/. Acesso em: maio de 2026. Fragmento.)
I. Um recurso polissêmico, no qual a palavra “digital” evoca simultaneamente a ação do toque físico na tela e a própria era tecnológica, simbolizando que o instrumento de conexão virtual tornou-se a marca identitária do isolamento contemporâneo.
II. Um pleonasmo estilístico, dado que a noção de “solidão” pressupõe, na sociedade moderna descrita pelos ufanistas, a necessidade do uso de plataformas eletrônicas e redes sociais.
III. Uma contradição lógica, visto que o termo “digital” refere-se ao universo tecnológico e virtual, o que impede sua associação mecânica com um sentimento subjetivo e abstrato como a “solidão”.
Está correto o que se afirma em
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A digital da solidão
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confidências e inconfidências. Dizem que o homem moderno não está mais sozinho. Carrega no bolso um aparelho que o
conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que
compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas.
Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já
suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão – apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica
na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas
passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que
está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se
sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que
expressam sentimentos que ele nem sabe se realmente sente. É uma solidão acompanhada, se é que isso faz algum sentido. E
não faz. No fundo, é apenas mais uma tentativa de fugir do tédio – aquele vazio que surge quando a vontade não está ocupada
com desejos imediatos.
O curioso é que ninguém admite. Pergunte a qualquer pessoa se ela se sente solitária e ela dirá que não, que tem centenas
de amigos (no Facebook), milhares de seguidores (no Instagram), conexões profissionais (no LinkedIn), e está sempre em
contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.
A Organização Mundial da Saúde declarou que temos um problema de saúde pública mundial nas mãos. Desde 2014,
quando as redes sociais se expandiram e se tornaram onipresentes como o ar que respiramos (só que bem menos saudáveis),
os índices de depressão e suicídio dispararam, especialmente entre os jovens.
O celular nos roubou algo precioso: o direito ao ócio, à contemplação, ao devaneio. Não somos ingênuos. Sabemos que o
celular está nos tornando mais solitários, mais ansiosos, mais distraídos. Sabemos que as redes sociais foram desenhadas para
viciar, que cada curtida libera uma “dosezinha” de dopamina. Sabemos tudo isso e continuamos, dedo no scroll, olho na tela,
alma no limbo.
O que fazer, então? Jogar o celular pela janela e voltar para a idade do telefone de discar? Claro que não. O celular é uma
ferramenta maravilhosa, revolucionária, indispensável. O problema não é o aparelho, é o que fizemos dele.
Talvez a solução seja simples, embora difícil: aprender a estar só de verdade. Desligar o celular de vez em quando. Sentar
numa cadeira e olhar pela janela. Deixar o tédio vir, a inquietação, o silêncio. Descobrir que a solidão não é tão terrível assim –
e que é justamente na solidão que o indivíduo pode se libertar da influência constante dos outros e se aproximar de si mesmo.
Porque no fim das contas, a solidão é inevitável. É a condição humana. Aceitá-la como companheira é condição básica para
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confidências e inconfidências. Dizem que o homem moderno não está mais sozinho. Carrega no bolso um aparelho que o
conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que
compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas.
Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já
suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão – apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica
na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas
passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que
está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se
sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que
expressam sentimentos que ele nem sabe se realmente sente. É uma solidão acompanhada, se é que isso faz algum sentido. E
não faz. No fundo, é apenas mais uma tentativa de fugir do tédio – aquele vazio que surge quando a vontade não está ocupada
com desejos imediatos.
O curioso é que ninguém admite. Pergunte a qualquer pessoa se ela se sente solitária e ela dirá que não, que tem centenas
de amigos (no Facebook), milhares de seguidores (no Instagram), conexões profissionais (no LinkedIn), e está sempre em
contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.
A Organização Mundial da Saúde declarou que temos um problema de saúde pública mundial nas mãos. Desde 2014,
quando as redes sociais se expandiram e se tornaram onipresentes como o ar que respiramos (só que bem menos saudáveis),
os índices de depressão e suicídio dispararam, especialmente entre os jovens.
O celular nos roubou algo precioso: o direito ao ócio, à contemplação, ao devaneio. Não somos ingênuos. Sabemos que o
celular está nos tornando mais solitários, mais ansiosos, mais distraídos. Sabemos que as redes sociais foram desenhadas para
viciar, que cada curtida libera uma “dosezinha” de dopamina. Sabemos tudo isso e continuamos, dedo no scroll, olho na tela,
alma no limbo.
O que fazer, então? Jogar o celular pela janela e voltar para a idade do telefone de discar? Claro que não. O celular é uma
ferramenta maravilhosa, revolucionária, indispensável. O problema não é o aparelho, é o que fizemos dele.
Talvez a solução seja simples, embora difícil: aprender a estar só de verdade. Desligar o celular de vez em quando. Sentar
numa cadeira e olhar pela janela. Deixar o tédio vir, a inquietação, o silêncio. Descobrir que a solidão não é tão terrível assim –
e que é justamente na solidão que o indivíduo pode se libertar da influência constante dos outros e se aproximar de si mesmo.
Porque no fim das contas, a solidão é inevitável. É a condição humana. Aceitá-la como companheira é condição básica para
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- OrtografiaAcentuação GráficaProparoxítonas, Paraxítonas, Oxítonas e Hiatos
- FonologiaAgrupamento FonológicoDivisão Silábica
- FonologiaEncontros Vocálicos: Ditongo, Tritongo, Hiato
A terceira idade encontrou um novo companheiro de conversa
Durante séculos, a velhice foi tratada como uma espécie de exílio silencioso. A sociedade recorria aos idosos quando precisava de memória, mas raramente quando precisava decidir o futuro. O avanço da idade costumava vir acompanhado da
redução dos espaços de influência, da perda gradual de autonomia e da sensação de que o mundo seguia adiante sem consultar
aqueles que ajudaram a construí-lo. Agora, uma transformação inesperada começa a alterar esse cenário: a inteligência artificial
está devolvendo voz, capacidade de ação e protagonismo a milhões de pessoas na terceira idade.
Não se trata de uma revolução feita por robôs humanoides nem de cenários futuristas inspirados pelo cinema. O que está
acontecendo é muito mais simples e, justamente por isso, mais relevante. Durante muito tempo, a revolução digital foi como
uma festa realizada atrás de uma porta fechada. Os idosos ouviam a música, percebiam a movimentação, mas raramente recebiam um convite para entrar. A inteligência artificial começa a mudar essa cena ao transformar códigos, comandos e interfaces
em linguagem humana.
A população mundial está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo estimativas das Nações Unidas, o número de pessoas com mais de 65 anos deverá ultrapassar 1,6 bilhão até meados deste século. Paralelamente, a solidão tornou-se um dos
grandes desafios sociais contemporâneos. Pesquisas realizadas em diversos países associam o isolamento prolongado ao aumento de casos de depressão, declínio cognitivo, doenças cardiovasculares e redução da qualidade de vida.
É nesse contexto que a inteligência artificial começa a ocupar um espaço inesperado.
Para uma parcela crescente da terceira idade, ela se transformou numa assistente disponível vinte e quatro horas por dia.
Ajuda a organizar medicamentos, agenda compromissos, esclarece dúvidas sobre benefícios previdenciários, traduz documentos, explica notícias complexas e orienta o uso de serviços digitais que antes pareciam reservados a especialistas.
Mas seus efeitos mais profundos não aparecem nas estatísticas.
Muitos idosos descobriram que podem dialogar com sistemas de inteligência artificial sem receio de julgamento. Diferentemente de ambientes onde perguntas básicas costumam ser recebidas com impaciência ou ironia, a interação ocorre em ritmo
próprio. A tecnologia não demonstra pressa nem constrangimento. Para quem passou anos ouvindo que não acompanhava as
mudanças do mundo, essa experiência produz um efeito frequentemente subestimado: a recuperação da confiança intelectual.
Os benefícios alcançam também a área da saúde. Ferramentas baseadas em inteligência artificial auxiliam no monitoramento de doenças crônicas, identificam sinais de risco, analisam grandes volumes de dados clínicos e apoiam decisões médicas.
Em regiões onde especialistas são escassos, essas soluções ampliam o acesso a cuidados que antes exigiam longos deslocamentos ou meses de espera.
A educação constitui outra fronteira em rápida transformação. Nunca foi tão simples estudar um novo idioma, aprofundar
conhecimentos em História, Filosofia, Literatura ou explorar temas que permaneceram adormecidos durante décadas de trabalho e responsabilidades familiares. O conhecimento deixou de depender exclusivamente de instituições formais e passou a
responder diretamente à curiosidade individual.
Os efeitos começam a aparecer também no campo da cidadania. Tarefas que antes exigiam auxílio constante de parentes
ou conhecidos – preencher formulários, compreender documentos públicos, acessar serviços governamentais ou comparar
informações contraditórias – tornam-se mais acessíveis. A consequência não é apenas praticidade. É independência. E independência continua sendo uma das expressões mais concretas da dignidade humana em qualquer idade.
Isso não significa ignorar riscos. Questões relacionadas à privacidade, fraudes digitais e uso indevido de dados exigem
vigilância permanente. Também existe o desafio de evitar que interações artificiais substituam vínculos humanos reais.
Nenhuma tecnologia merece adesão automática apenas por ser nova.
Ainda assim, algo historicamente significativo está acontecendo.
Talvez estejamos diante de uma das inversões mais surpreendentes produzidas pela revolução digital. A tecnologia que
muitos acreditavam destinada exclusivamente aos jovens está se revelando uma poderosa aliada de quem acumulou décadas
de experiência humana. Num planeta que frequentemente mede valor pela velocidade, pela produtividade e pela capacidade
de adaptação permanente, a inteligência artificial oferece aos idosos algo mais importante do que conveniência tecnológica:
devolve presença. Presença na circulação do conhecimento, nas decisões cotidianas, no acesso a oportunidades e na compreensão das transformações que moldam o século XXI. Não se trata apenas de inovação. Trata-se de garantir que milhões de
pessoas continuem ocupando o lugar que lhes pertence na vida pública, cultural e intelectual das sociedades.
Em uma época saturada pela novidade, talvez a maior contribuição da inteligência artificial seja lembrar que experiência
continua sendo uma das formas mais valiosas de inteligência já produzidas pela humanidade.
(Disponível em: https://revistaforum.com.br/opiniao. Acesso em: junho de 2026.)
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A terceira idade encontrou um novo companheiro de conversa
Durante séculos, a velhice foi tratada como uma espécie de exílio silencioso. A sociedade recorria aos idosos quando precisava de memória, mas raramente quando precisava decidir o futuro. O avanço da idade costumava vir acompanhado da
redução dos espaços de influência, da perda gradual de autonomia e da sensação de que o mundo seguia adiante sem consultar
aqueles que ajudaram a construí-lo. Agora, uma transformação inesperada começa a alterar esse cenário: a inteligência artificial
está devolvendo voz, capacidade de ação e protagonismo a milhões de pessoas na terceira idade.
Não se trata de uma revolução feita por robôs humanoides nem de cenários futuristas inspirados pelo cinema. O que está
acontecendo é muito mais simples e, justamente por isso, mais relevante. Durante muito tempo, a revolução digital foi como
uma festa realizada atrás de uma porta fechada. Os idosos ouviam a música, percebiam a movimentação, mas raramente recebiam um convite para entrar. A inteligência artificial começa a mudar essa cena ao transformar códigos, comandos e interfaces
em linguagem humana.
A população mundial está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo estimativas das Nações Unidas, o número de pessoas com mais de 65 anos deverá ultrapassar 1,6 bilhão até meados deste século. Paralelamente, a solidão tornou-se um dos
grandes desafios sociais contemporâneos. Pesquisas realizadas em diversos países associam o isolamento prolongado ao aumento de casos de depressão, declínio cognitivo, doenças cardiovasculares e redução da qualidade de vida.
É nesse contexto que a inteligência artificial começa a ocupar um espaço inesperado.
Para uma parcela crescente da terceira idade, ela se transformou numa assistente disponível vinte e quatro horas por dia.
Ajuda a organizar medicamentos, agenda compromissos, esclarece dúvidas sobre benefícios previdenciários, traduz documentos, explica notícias complexas e orienta o uso de serviços digitais que antes pareciam reservados a especialistas.
Mas seus efeitos mais profundos não aparecem nas estatísticas.
Muitos idosos descobriram que podem dialogar com sistemas de inteligência artificial sem receio de julgamento. Diferentemente de ambientes onde perguntas básicas costumam ser recebidas com impaciência ou ironia, a interação ocorre em ritmo
próprio. A tecnologia não demonstra pressa nem constrangimento. Para quem passou anos ouvindo que não acompanhava as
mudanças do mundo, essa experiência produz um efeito frequentemente subestimado: a recuperação da confiança intelectual.
Os benefícios alcançam também a área da saúde. Ferramentas baseadas em inteligência artificial auxiliam no monitoramento de doenças crônicas, identificam sinais de risco, analisam grandes volumes de dados clínicos e apoiam decisões médicas.
Em regiões onde especialistas são escassos, essas soluções ampliam o acesso a cuidados que antes exigiam longos deslocamentos ou meses de espera.
A educação constitui outra fronteira em rápida transformação. Nunca foi tão simples estudar um novo idioma, aprofundar
conhecimentos em História, Filosofia, Literatura ou explorar temas que permaneceram adormecidos durante décadas de trabalho e responsabilidades familiares. O conhecimento deixou de depender exclusivamente de instituições formais e passou a
responder diretamente à curiosidade individual.
Os efeitos começam a aparecer também no campo da cidadania. Tarefas que antes exigiam auxílio constante de parentes
ou conhecidos – preencher formulários, compreender documentos públicos, acessar serviços governamentais ou comparar
informações contraditórias – tornam-se mais acessíveis. A consequência não é apenas praticidade. É independência. E independência continua sendo uma das expressões mais concretas da dignidade humana em qualquer idade.
Isso não significa ignorar riscos. Questões relacionadas à privacidade, fraudes digitais e uso indevido de dados exigem
vigilância permanente. Também existe o desafio de evitar que interações artificiais substituam vínculos humanos reais.
Nenhuma tecnologia merece adesão automática apenas por ser nova.
Ainda assim, algo historicamente significativo está acontecendo.
Talvez estejamos diante de uma das inversões mais surpreendentes produzidas pela revolução digital. A tecnologia que
muitos acreditavam destinada exclusivamente aos jovens está se revelando uma poderosa aliada de quem acumulou décadas
de experiência humana. Num planeta que frequentemente mede valor pela velocidade, pela produtividade e pela capacidade
de adaptação permanente, a inteligência artificial oferece aos idosos algo mais importante do que conveniência tecnológica:
devolve presença. Presença na circulação do conhecimento, nas decisões cotidianas, no acesso a oportunidades e na compreensão das transformações que moldam o século XXI. Não se trata apenas de inovação. Trata-se de garantir que milhões de
pessoas continuem ocupando o lugar que lhes pertence na vida pública, cultural e intelectual das sociedades.
Em uma época saturada pela novidade, talvez a maior contribuição da inteligência artificial seja lembrar que experiência
continua sendo uma das formas mais valiosas de inteligência já produzidas pela humanidade.
(Disponível em: https://revistaforum.com.br/opiniao. Acesso em: junho de 2026.)
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A terceira idade encontrou um novo companheiro de conversa
Durante séculos, a velhice foi tratada como uma espécie de exílio silencioso. A sociedade recorria aos idosos quando precisava de memória, mas raramente quando precisava decidir o futuro. O avanço da idade costumava vir acompanhado da
redução dos espaços de influência, da perda gradual de autonomia e da sensação de que o mundo seguia adiante sem consultar
aqueles que ajudaram a construí-lo. Agora, uma transformação inesperada começa a alterar esse cenário: a inteligência artificial
está devolvendo voz, capacidade de ação e protagonismo a milhões de pessoas na terceira idade.
Não se trata de uma revolução feita por robôs humanoides nem de cenários futuristas inspirados pelo cinema. O que está
acontecendo é muito mais simples e, justamente por isso, mais relevante. Durante muito tempo, a revolução digital foi como
uma festa realizada atrás de uma porta fechada. Os idosos ouviam a música, percebiam a movimentação, mas raramente recebiam um convite para entrar. A inteligência artificial começa a mudar essa cena ao transformar códigos, comandos e interfaces
em linguagem humana.
A população mundial está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo estimativas das Nações Unidas, o número de pessoas com mais de 65 anos deverá ultrapassar 1,6 bilhão até meados deste século. Paralelamente, a solidão tornou-se um dos
grandes desafios sociais contemporâneos. Pesquisas realizadas em diversos países associam o isolamento prolongado ao aumento de casos de depressão, declínio cognitivo, doenças cardiovasculares e redução da qualidade de vida.
É nesse contexto que a inteligência artificial começa a ocupar um espaço inesperado.
Para uma parcela crescente da terceira idade, ela se transformou numa assistente disponível vinte e quatro horas por dia.
Ajuda a organizar medicamentos, agenda compromissos, esclarece dúvidas sobre benefícios previdenciários, traduz documentos, explica notícias complexas e orienta o uso de serviços digitais que antes pareciam reservados a especialistas.
Mas seus efeitos mais profundos não aparecem nas estatísticas.
Muitos idosos descobriram que podem dialogar com sistemas de inteligência artificial sem receio de julgamento. Diferentemente de ambientes onde perguntas básicas costumam ser recebidas com impaciência ou ironia, a interação ocorre em ritmo
próprio. A tecnologia não demonstra pressa nem constrangimento. Para quem passou anos ouvindo que não acompanhava as
mudanças do mundo, essa experiência produz um efeito frequentemente subestimado: a recuperação da confiança intelectual.
Os benefícios alcançam também a área da saúde. Ferramentas baseadas em inteligência artificial auxiliam no monitoramento de doenças crônicas, identificam sinais de risco, analisam grandes volumes de dados clínicos e apoiam decisões médicas.
Em regiões onde especialistas são escassos, essas soluções ampliam o acesso a cuidados que antes exigiam longos deslocamentos ou meses de espera.
A educação constitui outra fronteira em rápida transformação. Nunca foi tão simples estudar um novo idioma, aprofundar
conhecimentos em História, Filosofia, Literatura ou explorar temas que permaneceram adormecidos durante décadas de trabalho e responsabilidades familiares. O conhecimento deixou de depender exclusivamente de instituições formais e passou a
responder diretamente à curiosidade individual.
Os efeitos começam a aparecer também no campo da cidadania. Tarefas que antes exigiam auxílio constante de parentes
ou conhecidos – preencher formulários, compreender documentos públicos, acessar serviços governamentais ou comparar
informações contraditórias – tornam-se mais acessíveis. A consequência não é apenas praticidade. É independência. E independência continua sendo uma das expressões mais concretas da dignidade humana em qualquer idade.
Isso não significa ignorar riscos. Questões relacionadas à privacidade, fraudes digitais e uso indevido de dados exigem
vigilância permanente. Também existe o desafio de evitar que interações artificiais substituam vínculos humanos reais.
Nenhuma tecnologia merece adesão automática apenas por ser nova.
Ainda assim, algo historicamente significativo está acontecendo.
Talvez estejamos diante de uma das inversões mais surpreendentes produzidas pela revolução digital. A tecnologia que
muitos acreditavam destinada exclusivamente aos jovens está se revelando uma poderosa aliada de quem acumulou décadas
de experiência humana. Num planeta que frequentemente mede valor pela velocidade, pela produtividade e pela capacidade
de adaptação permanente, a inteligência artificial oferece aos idosos algo mais importante do que conveniência tecnológica:
devolve presença. Presença na circulação do conhecimento, nas decisões cotidianas, no acesso a oportunidades e na compreensão das transformações que moldam o século XXI. Não se trata apenas de inovação. Trata-se de garantir que milhões de
pessoas continuem ocupando o lugar que lhes pertence na vida pública, cultural e intelectual das sociedades.
Em uma época saturada pela novidade, talvez a maior contribuição da inteligência artificial seja lembrar que experiência
continua sendo uma das formas mais valiosas de inteligência já produzidas pela humanidade.
(Disponível em: https://revistaforum.com.br/opiniao. Acesso em: junho de 2026.)
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