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O custo invisível da obsolescência programada
Três anos atrás, durante o Ironman, prova de triatlo realizada em Fortaleza, o organizador do evento olhou para o meu
tênis e perguntou quanto tempo havia que eu o usava. Respondi que era praticamente novo; tinha cerca de um ano. Ele não
hesitou: “Troque. O amortecedor já foi”. Mais tarde, em São Paulo, comprei uma bicicleta elétrica. Em menos de um ano, o
painel queimou e ela parou de funcionar. Perguntei na loja se aquilo era obsolescência programada. O atendente não entendeu
o termo. Traduzi: tempo de vida. O mecânico sorriu.
Um tênis com prazo oculto. Uma bicicleta elétrica, símbolo da modernidade sustentável, interrompida por uma peça
pequena, decisiva e substituível. O futuro, ao que parece, também foi programado para durar pouco — embora às vezes
tenhamos que admitir, como o filósofo francês, nascido na Argélia, Louis Althusser (1918-1990), que “o futuro dura muito tempo”
(título do seu desconcertante relato autobiográfico publicado postumamente, em 1992).
Quando estudei a sociedade industrial na universidade, sobretudo a partir de outro pensador francês, Raymond Aron (1905-1983),
uma questão central era como a indústria superou a produção artesanal. Precisava demonstrar superioridade: era mais rápida, mais
barata, mais durável. Mas quando ela dominou a forma de produzir, precisou também dominar a arte de fazer substituir. A
durabilidade tornou-se obstáculo. O método fashion foi incorporado a quase tudo. Objetos cotidianos passaram a viver sob o império
de uma vida útil cada vez mais curta.
Durante décadas, a obsolescência programada foi tratada como crítica clássica ao capitalismo de consumo. Hoje, porém,
precisa voltar ao centro do debate por outra razão: suas consequências urbanas e climáticas. Tudo desemboca nas cidades. Os
produtos entram, circulam, são consumidos e descartados nelas. A cidade tornou-se o grande território de recepção daquilo
que a economia produz em massa e abandona em velocidade crescente. O problema já não é o consumidor que troca antes do
esperado o que comprou. É o efeito sistêmico de bilhões de trocas aceleradas sobre infraestrutura, aterros, cadeias de
reciclagem, logística reversa e financiamento municipal.
A crise climática e a crise dos resíduos estão mais ligadas do que parece. A produção incessante pressiona recursos e
emissões; a compressão do tempo de vida dos objetos inunda as cidades de rejeitos, plástico, sucata eletrônica e passivos
materiais. A ironia é objetiva: enquanto as cidades enfrentam enchentes e calor extremo, precisam administrar a montanha
crescente de restos da economia contemporânea.
Já nos anos 1970, a equação I = PAT – ou seja, o impacto ambiental está relacionado à população, à afluência (consumo
médio por pessoa) e à tecnologia – acendia um alarme para o tema. O que não se percebeu foi que a variável tecnologia não
atuaria como vetor de eficiência e sim como acelerador do descarte. A inovação que deveria reduzir o impacto por unidade
passou a multiplicar as unidades e a encurtar seu tempo de vida.
Não se trata de denunciar moralmente a obsolescência. Trata-se de perguntar quem paga seus custos urbanos. Taxas de
lixo já recaem sobre cidadãos. No entanto, isso basta? Com eventos extremos mais frequentes e pressão crescente sobre
serviços urbanos, o arranjo é cada vez mais insustentável.
Há uma direção concreta. Se o ciclo de vida dos produtos gera custos que recaem sobre as cidades, a responsabilidade
estendida do produtor precisa alimentar fundos urbanos de adaptação climática. Vincular carga fiscal à vida útil declarada criaria
incentivo real à durabilidade e receita proporcional ao passivo que cada cadeia produtiva transfere ao território. Não é panaceia.
Contudo, é o tipo de mecanismo que nomeia o custo onde ele nasce e o cobra de quem o produz.
A obsolescência programada não produz apenas objetos descartáveis. Produz cidades que pagam com enchentes, aterros
esgotados e orçamentos corroídos ao preço de um modelo que nunca foi desenhado para durar.
(Por: Elcio Batista. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/o-custo-invisivel-da-obsolescencia-programada/. Acesso em: junho de 2026.)
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O custo invisível da obsolescência programada
Três anos atrás, durante o Ironman, prova de triatlo realizada em Fortaleza, o organizador do evento olhou para o meu
tênis e perguntou quanto tempo havia que eu o usava. Respondi que era praticamente novo; tinha cerca de um ano. Ele não
hesitou: “Troque. O amortecedor já foi”. Mais tarde, em São Paulo, comprei uma bicicleta elétrica. Em menos de um ano, o
painel queimou e ela parou de funcionar. Perguntei na loja se aquilo era obsolescência programada. O atendente não entendeu
o termo. Traduzi: tempo de vida. O mecânico sorriu.
Um tênis com prazo oculto. Uma bicicleta elétrica, símbolo da modernidade sustentável, interrompida por uma peça
pequena, decisiva e substituível. O futuro, ao que parece, também foi programado para durar pouco — embora às vezes
tenhamos que admitir, como o filósofo francês, nascido na Argélia, Louis Althusser (1918-1990), que “o futuro dura muito tempo”
(título do seu desconcertante relato autobiográfico publicado postumamente, em 1992).
Quando estudei a sociedade industrial na universidade, sobretudo a partir de outro pensador francês, Raymond Aron (1905-1983),
uma questão central era como a indústria superou a produção artesanal. Precisava demonstrar superioridade: era mais rápida, mais
barata, mais durável. Mas quando ela dominou a forma de produzir, precisou também dominar a arte de fazer substituir. A
durabilidade tornou-se obstáculo. O método fashion foi incorporado a quase tudo. Objetos cotidianos passaram a viver sob o império
de uma vida útil cada vez mais curta.
Durante décadas, a obsolescência programada foi tratada como crítica clássica ao capitalismo de consumo. Hoje, porém,
precisa voltar ao centro do debate por outra razão: suas consequências urbanas e climáticas. Tudo desemboca nas cidades. Os
produtos entram, circulam, são consumidos e descartados nelas. A cidade tornou-se o grande território de recepção daquilo
que a economia produz em massa e abandona em velocidade crescente. O problema já não é o consumidor que troca antes do
esperado o que comprou. É o efeito sistêmico de bilhões de trocas aceleradas sobre infraestrutura, aterros, cadeias de
reciclagem, logística reversa e financiamento municipal.
A crise climática e a crise dos resíduos estão mais ligadas do que parece. A produção incessante pressiona recursos e
emissões; a compressão do tempo de vida dos objetos inunda as cidades de rejeitos, plástico, sucata eletrônica e passivos
materiais. A ironia é objetiva: enquanto as cidades enfrentam enchentes e calor extremo, precisam administrar a montanha
crescente de restos da economia contemporânea.
Já nos anos 1970, a equação I = PAT – ou seja, o impacto ambiental está relacionado à população, à afluência (consumo
médio por pessoa) e à tecnologia – acendia um alarme para o tema. O que não se percebeu foi que a variável tecnologia não
atuaria como vetor de eficiência e sim como acelerador do descarte. A inovação que deveria reduzir o impacto por unidade
passou a multiplicar as unidades e a encurtar seu tempo de vida.
Não se trata de denunciar moralmente a obsolescência. Trata-se de perguntar quem paga seus custos urbanos. Taxas de
lixo já recaem sobre cidadãos. No entanto, isso basta? Com eventos extremos mais frequentes e pressão crescente sobre
serviços urbanos, o arranjo é cada vez mais insustentável.
Há uma direção concreta. Se o ciclo de vida dos produtos gera custos que recaem sobre as cidades, a responsabilidade
estendida do produtor precisa alimentar fundos urbanos de adaptação climática. Vincular carga fiscal à vida útil declarada criaria
incentivo real à durabilidade e receita proporcional ao passivo que cada cadeia produtiva transfere ao território. Não é panaceia.
Contudo, é o tipo de mecanismo que nomeia o custo onde ele nasce e o cobra de quem o produz.
A obsolescência programada não produz apenas objetos descartáveis. Produz cidades que pagam com enchentes, aterros
esgotados e orçamentos corroídos ao preço de um modelo que nunca foi desenhado para durar.
(Por: Elcio Batista. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/o-custo-invisivel-da-obsolescencia-programada/. Acesso em: junho de 2026.)
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O custo invisível da obsolescência programada
Três anos atrás, durante o Ironman, prova de triatlo realizada em Fortaleza, o organizador do evento olhou para o meu
tênis e perguntou quanto tempo havia que eu o usava. Respondi que era praticamente novo; tinha cerca de um ano. Ele não
hesitou: “Troque. O amortecedor já foi”. Mais tarde, em São Paulo, comprei uma bicicleta elétrica. Em menos de um ano, o
painel queimou e ela parou de funcionar. Perguntei na loja se aquilo era obsolescência programada. O atendente não entendeu
o termo. Traduzi: tempo de vida. O mecânico sorriu.
Um tênis com prazo oculto. Uma bicicleta elétrica, símbolo da modernidade sustentável, interrompida por uma peça
pequena, decisiva e substituível. O futuro, ao que parece, também foi programado para durar pouco — embora às vezes
tenhamos que admitir, como o filósofo francês, nascido na Argélia, Louis Althusser (1918-1990), que “o futuro dura muito tempo”
(título do seu desconcertante relato autobiográfico publicado postumamente, em 1992).
Quando estudei a sociedade industrial na universidade, sobretudo a partir de outro pensador francês, Raymond Aron (1905-1983),
uma questão central era como a indústria superou a produção artesanal. Precisava demonstrar superioridade: era mais rápida, mais
barata, mais durável. Mas quando ela dominou a forma de produzir, precisou também dominar a arte de fazer substituir. A
durabilidade tornou-se obstáculo. O método fashion foi incorporado a quase tudo. Objetos cotidianos passaram a viver sob o império
de uma vida útil cada vez mais curta.
Durante décadas, a obsolescência programada foi tratada como crítica clássica ao capitalismo de consumo. Hoje, porém,
precisa voltar ao centro do debate por outra razão: suas consequências urbanas e climáticas. Tudo desemboca nas cidades. Os
produtos entram, circulam, são consumidos e descartados nelas. A cidade tornou-se o grande território de recepção daquilo
que a economia produz em massa e abandona em velocidade crescente. O problema já não é o consumidor que troca antes do
esperado o que comprou. É o efeito sistêmico de bilhões de trocas aceleradas sobre infraestrutura, aterros, cadeias de
reciclagem, logística reversa e financiamento municipal.
A crise climática e a crise dos resíduos estão mais ligadas do que parece. A produção incessante pressiona recursos e
emissões; a compressão do tempo de vida dos objetos inunda as cidades de rejeitos, plástico, sucata eletrônica e passivos
materiais. A ironia é objetiva: enquanto as cidades enfrentam enchentes e calor extremo, precisam administrar a montanha
crescente de restos da economia contemporânea.
Já nos anos 1970, a equação I = PAT – ou seja, o impacto ambiental está relacionado à população, à afluência (consumo
médio por pessoa) e à tecnologia – acendia um alarme para o tema. O que não se percebeu foi que a variável tecnologia não
atuaria como vetor de eficiência e sim como acelerador do descarte. A inovação que deveria reduzir o impacto por unidade
passou a multiplicar as unidades e a encurtar seu tempo de vida.
Não se trata de denunciar moralmente a obsolescência. Trata-se de perguntar quem paga seus custos urbanos. Taxas de
lixo já recaem sobre cidadãos. No entanto, isso basta? Com eventos extremos mais frequentes e pressão crescente sobre
serviços urbanos, o arranjo é cada vez mais insustentável.
Há uma direção concreta. Se o ciclo de vida dos produtos gera custos que recaem sobre as cidades, a responsabilidade
estendida do produtor precisa alimentar fundos urbanos de adaptação climática. Vincular carga fiscal à vida útil declarada criaria
incentivo real à durabilidade e receita proporcional ao passivo que cada cadeia produtiva transfere ao território. Não é panaceia.
Contudo, é o tipo de mecanismo que nomeia o custo onde ele nasce e o cobra de quem o produz.
A obsolescência programada não produz apenas objetos descartáveis. Produz cidades que pagam com enchentes, aterros
esgotados e orçamentos corroídos ao preço de um modelo que nunca foi desenhado para durar.
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Três anos atrás, durante o Ironman, prova de triatlo realizada em Fortaleza, o organizador do evento olhou para o meu
tênis e perguntou quanto tempo havia que eu o usava. Respondi que era praticamente novo; tinha cerca de um ano. Ele não
hesitou: “Troque. O amortecedor já foi”. Mais tarde, em São Paulo, comprei uma bicicleta elétrica. Em menos de um ano, o
painel queimou e ela parou de funcionar. Perguntei na loja se aquilo era obsolescência programada. O atendente não entendeu
o termo. Traduzi: tempo de vida. O mecânico sorriu.
Um tênis com prazo oculto. Uma bicicleta elétrica, símbolo da modernidade sustentável, interrompida por uma peça
pequena, decisiva e substituível. O futuro, ao que parece, também foi programado para durar pouco — embora às vezes
tenhamos que admitir, como o filósofo francês, nascido na Argélia, Louis Althusser (1918-1990), que “o futuro dura muito tempo”
(título do seu desconcertante relato autobiográfico publicado postumamente, em 1992).
Quando estudei a sociedade industrial na universidade, sobretudo a partir de outro pensador francês, Raymond Aron (1905-1983),
uma questão central era como a indústria superou a produção artesanal. Precisava demonstrar superioridade: era mais rápida, mais
barata, mais durável. Mas quando ela dominou a forma de produzir, precisou também dominar a arte de fazer substituir. A
durabilidade tornou-se obstáculo. O método fashion foi incorporado a quase tudo. Objetos cotidianos passaram a viver sob o império
de uma vida útil cada vez mais curta.
Durante décadas, a obsolescência programada foi tratada como crítica clássica ao capitalismo de consumo. Hoje, porém,
precisa voltar ao centro do debate por outra razão: suas consequências urbanas e climáticas. Tudo desemboca nas cidades. Os
produtos entram, circulam, são consumidos e descartados nelas. A cidade tornou-se o grande território de recepção daquilo
que a economia produz em massa e abandona em velocidade crescente. O problema já não é o consumidor que troca antes do
esperado o que comprou. É o efeito sistêmico de bilhões de trocas aceleradas sobre infraestrutura, aterros, cadeias de
reciclagem, logística reversa e financiamento municipal.
A crise climática e a crise dos resíduos estão mais ligadas do que parece. A produção incessante pressiona recursos e
emissões; a compressão do tempo de vida dos objetos inunda as cidades de rejeitos, plástico, sucata eletrônica e passivos
materiais. A ironia é objetiva: enquanto as cidades enfrentam enchentes e calor extremo, precisam administrar a montanha
crescente de restos da economia contemporânea.
Já nos anos 1970, a equação I = PAT – ou seja, o impacto ambiental está relacionado à população, à afluência (consumo
médio por pessoa) e à tecnologia – acendia um alarme para o tema. O que não se percebeu foi que a variável tecnologia não
atuaria como vetor de eficiência e sim como acelerador do descarte. A inovação que deveria reduzir o impacto por unidade
passou a multiplicar as unidades e a encurtar seu tempo de vida.
Não se trata de denunciar moralmente a obsolescência. Trata-se de perguntar quem paga seus custos urbanos. Taxas de
lixo já recaem sobre cidadãos. No entanto, isso basta? Com eventos extremos mais frequentes e pressão crescente sobre
serviços urbanos, o arranjo é cada vez mais insustentável.
Há uma direção concreta. Se o ciclo de vida dos produtos gera custos que recaem sobre as cidades, a responsabilidade
estendida do produtor precisa alimentar fundos urbanos de adaptação climática. Vincular carga fiscal à vida útil declarada criaria
incentivo real à durabilidade e receita proporcional ao passivo que cada cadeia produtiva transfere ao território. Não é panaceia.
Contudo, é o tipo de mecanismo que nomeia o custo onde ele nasce e o cobra de quem o produz.
A obsolescência programada não produz apenas objetos descartáveis. Produz cidades que pagam com enchentes, aterros
esgotados e orçamentos corroídos ao preço de um modelo que nunca foi desenhado para durar.
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Três anos atrás, durante o Ironman, prova de triatlo realizada em Fortaleza, o organizador do evento olhou para o meu
tênis e perguntou quanto tempo havia que eu o usava. Respondi que era praticamente novo; tinha cerca de um ano. Ele não
hesitou: “Troque. O amortecedor já foi”. Mais tarde, em São Paulo, comprei uma bicicleta elétrica. Em menos de um ano, o
painel queimou e ela parou de funcionar. Perguntei na loja se aquilo era obsolescência programada. O atendente não entendeu
o termo. Traduzi: tempo de vida. O mecânico sorriu.
Um tênis com prazo oculto. Uma bicicleta elétrica, símbolo da modernidade sustentável, interrompida por uma peça
pequena, decisiva e substituível. O futuro, ao que parece, também foi programado para durar pouco — embora às vezes
tenhamos que admitir, como o filósofo francês, nascido na Argélia, Louis Althusser (1918-1990), que “o futuro dura muito tempo”
(título do seu desconcertante relato autobiográfico publicado postumamente, em 1992).
Quando estudei a sociedade industrial na universidade, sobretudo a partir de outro pensador francês, Raymond Aron (1905-1983),
uma questão central era como a indústria superou a produção artesanal. Precisava demonstrar superioridade: era mais rápida, mais
barata, mais durável. Mas quando ela dominou a forma de produzir, precisou também dominar a arte de fazer substituir. A
durabilidade tornou-se obstáculo. O método fashion foi incorporado a quase tudo. Objetos cotidianos passaram a viver sob o império
de uma vida útil cada vez mais curta.
Durante décadas, a obsolescência programada foi tratada como crítica clássica ao capitalismo de consumo. Hoje, porém,
precisa voltar ao centro do debate por outra razão: suas consequências urbanas e climáticas. Tudo desemboca nas cidades. Os
produtos entram, circulam, são consumidos e descartados nelas. A cidade tornou-se o grande território de recepção daquilo
que a economia produz em massa e abandona em velocidade crescente. O problema já não é o consumidor que troca antes do
esperado o que comprou. É o efeito sistêmico de bilhões de trocas aceleradas sobre infraestrutura, aterros, cadeias de
reciclagem, logística reversa e financiamento municipal.
A crise climática e a crise dos resíduos estão mais ligadas do que parece. A produção incessante pressiona recursos e
emissões; a compressão do tempo de vida dos objetos inunda as cidades de rejeitos, plástico, sucata eletrônica e passivos
materiais. A ironia é objetiva: enquanto as cidades enfrentam enchentes e calor extremo, precisam administrar a montanha
crescente de restos da economia contemporânea.
Já nos anos 1970, a equação I = PAT – ou seja, o impacto ambiental está relacionado à população, à afluência (consumo
médio por pessoa) e à tecnologia – acendia um alarme para o tema. O que não se percebeu foi que a variável tecnologia não
atuaria como vetor de eficiência e sim como acelerador do descarte. A inovação que deveria reduzir o impacto por unidade
passou a multiplicar as unidades e a encurtar seu tempo de vida.
Não se trata de denunciar moralmente a obsolescência. Trata-se de perguntar quem paga seus custos urbanos. Taxas de
lixo já recaem sobre cidadãos. No entanto, isso basta? Com eventos extremos mais frequentes e pressão crescente sobre
serviços urbanos, o arranjo é cada vez mais insustentável.
Há uma direção concreta. Se o ciclo de vida dos produtos gera custos que recaem sobre as cidades, a responsabilidade
estendida do produtor precisa alimentar fundos urbanos de adaptação climática. Vincular carga fiscal à vida útil declarada criaria
incentivo real à durabilidade e receita proporcional ao passivo que cada cadeia produtiva transfere ao território. Não é panaceia.
Contudo, é o tipo de mecanismo que nomeia o custo onde ele nasce e o cobra de quem o produz.
A obsolescência programada não produz apenas objetos descartáveis. Produz cidades que pagam com enchentes, aterros
esgotados e orçamentos corroídos ao preço de um modelo que nunca foi desenhado para durar.
(Por: Elcio Batista. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/o-custo-invisivel-da-obsolescencia-programada/. Acesso em: junho de 2026.)
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4242673
Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Provas:
Você costuma adiar encontros com as pessoas que importam na sua vida?
Vivemos com a soberba de quem se julga imortal. Consolados pela falsa _ _ _ _ _ _ _ de que o tempo
é um recurso elástico e infinito, desenvolvemos uma assustadora _ _ _ _ _ _ _ _ _ com a ausência.
Protegidos por agendas _ _ _ _ _ _ _ _ _ urgentes, adiamos o café com o amigo de infância, o almoço
de domingo com os pais, a visita ao idoso que nos viu crescer. Ligamos o piloto automático do "depois a gente
se vê", como se a vida aceitasse prorrogações, como se aqueles que amamos estivessem congelados no
tempo, à espera da nossa conveniência.
Foi preciso que um homem imerso na lógica hiper produtiva do Vale do Silício sofresse um choque de
lucidez para nos lembrar do óbvio. Greg McKeown, o autor que transformou o essencialismo em filosofia de
vida, deparou com uma conta matemática devastadora.
Vivendo longe dos pais, percebeu que, ao visitá-los apenas duas vezes por ano, ele os
encontraria menos de 30 vezes durante o tempo de vida que presumivelmente lhes restava. Trinta. Um número
ridiculamente pequeno, que cabe em uma folha de caderno, mas que carrega o peso de uma sentença.
O homem habituado ..... métrica dos algoritmos descobriu de forma dolorosa ..... métrica mais
analógica do mundo: ..... contagem regressiva do afeto.
Logo depois, Rafael Santandreu, um psicólogo espanhol, decidiu materializar esse sobressalto
estatístico em um experimento real. Reuniu as experiências de 40 pares de parentes ou amigos e, cruzando a
frequência de seus encontros com a expectativa de vida de cada um, calculou matematicamente quantos dias
— e, em alguns casos, quantas míseras horas — restavam de convívio real entre eles, antes que um dos dois
morresse.
A tese central que ele defendeu nesse projeto é profundamente humana: o nosso cérebro
é programado para ignorar a finitude da vida, dando-nos a falsa ilusão de que sempre haverá um amanhã para
adiar os encontros com quem realmente importa.
A revelação daqueles números da matemática fria provocou uma comoção avassaladora. Ao verem a
frieza do cálculo estampado numa tela, aquelas pessoas não choraram pelo medo da morte, mas pelo peso
insuportável do desperdício.
Perceberam, num lampejo, que a distância que as separava de quem amavam não era geográfica,
mas cronológica. E que a contabilidade da vida não perdoa os distraídos.
Essa aritmética cruel serve como um severo autopoliciamento para o tempo de convívio que estamos
jogando no lixo diariamente. Trocamos o calor da presença, o olho no olho e o privilégio do silêncio
compartilhado por interações gélidas em telas frias.
Mandamos um emoji de coração vermelho para blindar a nossa ausência e acreditamos, piamente,
que estamos presentes. Não estamos. Gerenciar o tempo não deveria ser sobre produzir mais para o mercado,
mas sobre reservar o melhor de nossa energia para quem dá sentido à nossa vida.
Então, estamos todos convocados: vamos pôr em dia nossa própria contabilidade afetiva. Descubra
quantos almoços restam, quantas conversas na varanda ainda são possíveis, quantos abraços cabem no
horizonte que nos sobra.
Se a vida é mesmo um sopro, que a gente pare de sufocar na solidão a magia dos abraços, sacudidos
ou silenciosos, dos nossos incalculáveis encontros urgentes. Porque a urgência desses encontros tem prazo
de validade. E se esse prazo expirasse no primeiro sábado do mês que vem?
Texto Adaptado.
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4242672
Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Provas:
Você costuma adiar encontros com as pessoas que importam na sua vida?
Vivemos com a soberba de quem se julga imortal. Consolados pela falsa _ _ _ _ _ _ _ de que o tempo
é um recurso elástico e infinito, desenvolvemos uma assustadora _ _ _ _ _ _ _ _ _ com a ausência.
Protegidos por agendas _ _ _ _ _ _ _ _ _ urgentes, adiamos o café com o amigo de infância, o almoço
de domingo com os pais, a visita ao idoso que nos viu crescer. Ligamos o piloto automático do "depois a gente
se vê", como se a vida aceitasse prorrogações, como se aqueles que amamos estivessem congelados no
tempo, à espera da nossa conveniência.
Foi preciso que um homem imerso na lógica hiper produtiva do Vale do Silício sofresse um choque de
lucidez para nos lembrar do óbvio. Greg McKeown, o autor que transformou o essencialismo em filosofia de
vida, deparou com uma conta matemática devastadora.
Vivendo longe dos pais, percebeu que, ao visitá-los apenas duas vezes por ano, ele os
encontraria menos de 30 vezes durante o tempo de vida que presumivelmente lhes restava. Trinta. Um número
ridiculamente pequeno, que cabe em uma folha de caderno, mas que carrega o peso de uma sentença.
O homem habituado ..... métrica dos algoritmos descobriu de forma dolorosa ..... métrica mais
analógica do mundo: ..... contagem regressiva do afeto.
Logo depois, Rafael Santandreu, um psicólogo espanhol, decidiu materializar esse sobressalto
estatístico em um experimento real. Reuniu as experiências de 40 pares de parentes ou amigos e, cruzando a
frequência de seus encontros com a expectativa de vida de cada um, calculou matematicamente quantos dias
— e, em alguns casos, quantas míseras horas — restavam de convívio real entre eles, antes que um dos dois
morresse.
A tese central que ele defendeu nesse projeto é profundamente humana: o nosso cérebro
é programado para ignorar a finitude da vida, dando-nos a falsa ilusão de que sempre haverá um amanhã para
adiar os encontros com quem realmente importa.
A revelação daqueles números da matemática fria provocou uma comoção avassaladora. Ao verem a
frieza do cálculo estampado numa tela, aquelas pessoas não choraram pelo medo da morte, mas pelo peso
insuportável do desperdício.
Perceberam, num lampejo, que a distância que as separava de quem amavam não era geográfica,
mas cronológica. E que a contabilidade da vida não perdoa os distraídos.
Essa aritmética cruel serve como um severo autopoliciamento para o tempo de convívio que estamos
jogando no lixo diariamente. Trocamos o calor da presença, o olho no olho e o privilégio do silêncio
compartilhado por interações gélidas em telas frias.
Mandamos um emoji de coração vermelho para blindar a nossa ausência e acreditamos, piamente,
que estamos presentes. Não estamos. Gerenciar o tempo não deveria ser sobre produzir mais para o mercado,
mas sobre reservar o melhor de nossa energia para quem dá sentido à nossa vida.
Então, estamos todos convocados: vamos pôr em dia nossa própria contabilidade afetiva. Descubra
quantos almoços restam, quantas conversas na varanda ainda são possíveis, quantos abraços cabem no
horizonte que nos sobra.
Se a vida é mesmo um sopro, que a gente pare de sufocar na solidão a magia dos abraços, sacudidos
ou silenciosos, dos nossos incalculáveis encontros urgentes. Porque a urgência desses encontros tem prazo
de validade. E se esse prazo expirasse no primeiro sábado do mês que vem?
Texto Adaptado.
I – Na palavra “pequeno”, há dígrafo vocálico. II – Na palavra “vermelho”, há dígrafo consonantal. III – Na palavra “comoção”, há dígrafo vocálico.
Das afirmativas acima, qual(is) está(ão) correta(s)?
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4242671
Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
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Você costuma adiar encontros com as pessoas que importam na sua vida?
Vivemos com a soberba de quem se julga imortal. Consolados pela falsa _ _ _ _ _ _ _ de que o tempo
é um recurso elástico e infinito, desenvolvemos uma assustadora _ _ _ _ _ _ _ _ _ com a ausência.
Protegidos por agendas _ _ _ _ _ _ _ _ _ urgentes, adiamos o café com o amigo de infância, o almoço
de domingo com os pais, a visita ao idoso que nos viu crescer. Ligamos o piloto automático do "depois a gente
se vê", como se a vida aceitasse prorrogações, como se aqueles que amamos estivessem congelados no
tempo, à espera da nossa conveniência.
Foi preciso que um homem imerso na lógica hiper produtiva do Vale do Silício sofresse um choque de
lucidez para nos lembrar do óbvio. Greg McKeown, o autor que transformou o essencialismo em filosofia de
vida, deparou com uma conta matemática devastadora.
Vivendo longe dos pais, percebeu que, ao visitá-los apenas duas vezes por ano, ele os
encontraria menos de 30 vezes durante o tempo de vida que presumivelmente lhes restava. Trinta. Um número
ridiculamente pequeno, que cabe em uma folha de caderno, mas que carrega o peso de uma sentença.
O homem habituado ..... métrica dos algoritmos descobriu de forma dolorosa ..... métrica mais
analógica do mundo: ..... contagem regressiva do afeto.
Logo depois, Rafael Santandreu, um psicólogo espanhol, decidiu materializar esse sobressalto
estatístico em um experimento real. Reuniu as experiências de 40 pares de parentes ou amigos e, cruzando a
frequência de seus encontros com a expectativa de vida de cada um, calculou matematicamente quantos dias
— e, em alguns casos, quantas míseras horas — restavam de convívio real entre eles, antes que um dos dois
morresse.
A tese central que ele defendeu nesse projeto é profundamente humana: o nosso cérebro
é programado para ignorar a finitude da vida, dando-nos a falsa ilusão de que sempre haverá um amanhã para
adiar os encontros com quem realmente importa.
A revelação daqueles números da matemática fria provocou uma comoção avassaladora. Ao verem a
frieza do cálculo estampado numa tela, aquelas pessoas não choraram pelo medo da morte, mas pelo peso
insuportável do desperdício.
Perceberam, num lampejo, que a distância que as separava de quem amavam não era geográfica,
mas cronológica. E que a contabilidade da vida não perdoa os distraídos.
Essa aritmética cruel serve como um severo autopoliciamento para o tempo de convívio que estamos
jogando no lixo diariamente. Trocamos o calor da presença, o olho no olho e o privilégio do silêncio
compartilhado por interações gélidas em telas frias.
Mandamos um emoji de coração vermelho para blindar a nossa ausência e acreditamos, piamente,
que estamos presentes. Não estamos. Gerenciar o tempo não deveria ser sobre produzir mais para o mercado,
mas sobre reservar o melhor de nossa energia para quem dá sentido à nossa vida.
Então, estamos todos convocados: vamos pôr em dia nossa própria contabilidade afetiva. Descubra
quantos almoços restam, quantas conversas na varanda ainda são possíveis, quantos abraços cabem no
horizonte que nos sobra.
Se a vida é mesmo um sopro, que a gente pare de sufocar na solidão a magia dos abraços, sacudidos
ou silenciosos, dos nossos incalculáveis encontros urgentes. Porque a urgência desses encontros tem prazo
de validade. E se esse prazo expirasse no primeiro sábado do mês que vem?
Texto Adaptado.
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4242670
Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Provas:
Você costuma adiar encontros com as pessoas que importam na sua vida?
Vivemos com a soberba de quem se julga imortal. Consolados pela falsa _ _ _ _ _ _ _ de que o tempo
é um recurso elástico e infinito, desenvolvemos uma assustadora _ _ _ _ _ _ _ _ _ com a ausência.
Protegidos por agendas _ _ _ _ _ _ _ _ _ urgentes, adiamos o café com o amigo de infância, o almoço
de domingo com os pais, a visita ao idoso que nos viu crescer. Ligamos o piloto automático do "depois a gente
se vê", como se a vida aceitasse prorrogações, como se aqueles que amamos estivessem congelados no
tempo, à espera da nossa conveniência.
Foi preciso que um homem imerso na lógica hiper produtiva do Vale do Silício sofresse um choque de
lucidez para nos lembrar do óbvio. Greg McKeown, o autor que transformou o essencialismo em filosofia de
vida, deparou com uma conta matemática devastadora.
Vivendo longe dos pais, percebeu que, ao visitá-los apenas duas vezes por ano, ele os
encontraria menos de 30 vezes durante o tempo de vida que presumivelmente lhes restava. Trinta. Um número
ridiculamente pequeno, que cabe em uma folha de caderno, mas que carrega o peso de uma sentença.
O homem habituado ..... métrica dos algoritmos descobriu de forma dolorosa ..... métrica mais
analógica do mundo: ..... contagem regressiva do afeto.
Logo depois, Rafael Santandreu, um psicólogo espanhol, decidiu materializar esse sobressalto
estatístico em um experimento real. Reuniu as experiências de 40 pares de parentes ou amigos e, cruzando a
frequência de seus encontros com a expectativa de vida de cada um, calculou matematicamente quantos dias
— e, em alguns casos, quantas míseras horas — restavam de convívio real entre eles, antes que um dos dois
morresse.
A tese central que ele defendeu nesse projeto é profundamente humana: o nosso cérebro
é programado para ignorar a finitude da vida, dando-nos a falsa ilusão de que sempre haverá um amanhã para
adiar os encontros com quem realmente importa.
A revelação daqueles números da matemática fria provocou uma comoção avassaladora. Ao verem a
frieza do cálculo estampado numa tela, aquelas pessoas não choraram pelo medo da morte, mas pelo peso
insuportável do desperdício.
Perceberam, num lampejo, que a distância que as separava de quem amavam não era geográfica,
mas cronológica. E que a contabilidade da vida não perdoa os distraídos.
Essa aritmética cruel serve como um severo autopoliciamento para o tempo de convívio que estamos
jogando no lixo diariamente. Trocamos o calor da presença, o olho no olho e o privilégio do silêncio
compartilhado por interações gélidas em telas frias.
Mandamos um emoji de coração vermelho para blindar a nossa ausência e acreditamos, piamente,
que estamos presentes. Não estamos. Gerenciar o tempo não deveria ser sobre produzir mais para o mercado,
mas sobre reservar o melhor de nossa energia para quem dá sentido à nossa vida.
Então, estamos todos convocados: vamos pôr em dia nossa própria contabilidade afetiva. Descubra
quantos almoços restam, quantas conversas na varanda ainda são possíveis, quantos abraços cabem no
horizonte que nos sobra.
Se a vida é mesmo um sopro, que a gente pare de sufocar na solidão a magia dos abraços, sacudidos
ou silenciosos, dos nossos incalculáveis encontros urgentes. Porque a urgência desses encontros tem prazo
de validade. E se esse prazo expirasse no primeiro sábado do mês que vem?
Texto Adaptado.
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4242669
Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Porto Alegre-RS
Provas:
Você costuma adiar encontros com as pessoas que importam na sua vida?
Vivemos com a soberba de quem se julga imortal. Consolados pela falsa _ _ _ _ _ _ _ de que o tempo
é um recurso elástico e infinito, desenvolvemos uma assustadora _ _ _ _ _ _ _ _ _ com a ausência.
Protegidos por agendas _ _ _ _ _ _ _ _ _ urgentes, adiamos o café com o amigo de infância, o almoço
de domingo com os pais, a visita ao idoso que nos viu crescer. Ligamos o piloto automático do "depois a gente
se vê", como se a vida aceitasse prorrogações, como se aqueles que amamos estivessem congelados no
tempo, à espera da nossa conveniência.
Foi preciso que um homem imerso na lógica hiper produtiva do Vale do Silício sofresse um choque de
lucidez para nos lembrar do óbvio. Greg McKeown, o autor que transformou o essencialismo em filosofia de
vida, deparou com uma conta matemática devastadora.
Vivendo longe dos pais, percebeu que, ao visitá-los apenas duas vezes por ano, ele os
encontraria menos de 30 vezes durante o tempo de vida que presumivelmente lhes restava. Trinta. Um número
ridiculamente pequeno, que cabe em uma folha de caderno, mas que carrega o peso de uma sentença.
O homem habituado ..... métrica dos algoritmos descobriu de forma dolorosa ..... métrica mais
analógica do mundo: ..... contagem regressiva do afeto.
Logo depois, Rafael Santandreu, um psicólogo espanhol, decidiu materializar esse sobressalto
estatístico em um experimento real. Reuniu as experiências de 40 pares de parentes ou amigos e, cruzando a
frequência de seus encontros com a expectativa de vida de cada um, calculou matematicamente quantos dias
— e, em alguns casos, quantas míseras horas — restavam de convívio real entre eles, antes que um dos dois
morresse.
A tese central que ele defendeu nesse projeto é profundamente humana: o nosso cérebro
é programado para ignorar a finitude da vida, dando-nos a falsa ilusão de que sempre haverá um amanhã para
adiar os encontros com quem realmente importa.
A revelação daqueles números da matemática fria provocou uma comoção avassaladora. Ao verem a
frieza do cálculo estampado numa tela, aquelas pessoas não choraram pelo medo da morte, mas pelo peso
insuportável do desperdício.
Perceberam, num lampejo, que a distância que as separava de quem amavam não era geográfica,
mas cronológica. E que a contabilidade da vida não perdoa os distraídos.
Essa aritmética cruel serve como um severo autopoliciamento para o tempo de convívio que estamos
jogando no lixo diariamente. Trocamos o calor da presença, o olho no olho e o privilégio do silêncio
compartilhado por interações gélidas em telas frias.
Mandamos um emoji de coração vermelho para blindar a nossa ausência e acreditamos, piamente,
que estamos presentes. Não estamos. Gerenciar o tempo não deveria ser sobre produzir mais para o mercado,
mas sobre reservar o melhor de nossa energia para quem dá sentido à nossa vida.
Então, estamos todos convocados: vamos pôr em dia nossa própria contabilidade afetiva. Descubra
quantos almoços restam, quantas conversas na varanda ainda são possíveis, quantos abraços cabem no
horizonte que nos sobra.
Se a vida é mesmo um sopro, que a gente pare de sufocar na solidão a magia dos abraços, sacudidos
ou silenciosos, dos nossos incalculáveis encontros urgentes. Porque a urgência desses encontros tem prazo
de validade. E se esse prazo expirasse no primeiro sábado do mês que vem?
Texto Adaptado.
“A revelação daqueles números da matemática fria provocou uma comoção avassaladora.”
Em relação ao trecho lido, analise as afirmativas abaixo.
I – Há artigo definido. II – Há adjetivo. III – Há pronome relativo.
Das afirmativas acima, qual(is) está(ão) correta(s)?
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