Foram encontradas 355.605 questões.
Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?
- Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.
- Não posso não, a madame não leu o aviso - olha ele ali - que o troco máximo é de 200 cruzeiros?
- Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?
- Quem sabe se procurando de novo na bolsa...
Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação,
oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.
- Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.
- Pera aí. Vou ver se posso trocar.
Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.
– Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem?
Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as
mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?
Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!
Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.
– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
Encostou o veículo e, num gesto solene: - Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os
seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.
- Deixa que eu vou! - disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.
Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa,
tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito?
Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.
- Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. - disse em tom frio, sem revolta,
como simples remate. E tocou.
Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: - Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.
O motorista respondeu-lhe baixinho: - Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo
me mata.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2. São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?
- Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.
- Não posso não, a madame não leu o aviso - olha ele ali - que o troco máximo é de 200 cruzeiros?
- Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?
- Quem sabe se procurando de novo na bolsa...
Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação,
oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.
- Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.
- Pera aí. Vou ver se posso trocar.
Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.
– Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem?
Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as
mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?
Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!
Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.
– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
Encostou o veículo e, num gesto solene: - Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os
seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.
- Deixa que eu vou! - disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.
Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa,
tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito?
Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.
- Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. - disse em tom frio, sem revolta,
como simples remate. E tocou.
Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: - Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.
O motorista respondeu-lhe baixinho: - Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo
me mata.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2. São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?
- Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.
- Não posso não, a madame não leu o aviso - olha ele ali - que o troco máximo é de 200 cruzeiros?
- Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?
- Quem sabe se procurando de novo na bolsa...
Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação,
oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.
- Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.
- Pera aí. Vou ver se posso trocar.
Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.
– Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem?
Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as
mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?
Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!
Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.
– Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
Encostou o veículo e, num gesto solene: - Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os
seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.
- Deixa que eu vou! - disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.
Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa,
tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito?
Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.
- Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. - disse em tom frio, sem revolta,
como simples remate. E tocou.
Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: - Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.
O motorista respondeu-lhe baixinho: - Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo
me mata.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2. São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
A frase que está em conformidade com a norma-padrão
de concordância verbal é:
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Considere as seguintes frases:
________ consequência da violência sofrida por Maria da Penha, o Brasil atribuiu a criação de legislação específica.
As instituições produziram discursos adequados ________ luta contra a violência de gênero.
O feminicídio exige prioridade política real______ todas proteções possíveis das vítimas.
A Lei Maria da Penha trouxe avanços imprescindíveis ______ esta nação.
Atendendo à norma-padrão de emprego do sinal indicativo de crase, as lacunas devem ser preenchidas, respectivamente, por:
________ consequência da violência sofrida por Maria da Penha, o Brasil atribuiu a criação de legislação específica.
As instituições produziram discursos adequados ________ luta contra a violência de gênero.
O feminicídio exige prioridade política real______ todas proteções possíveis das vítimas.
A Lei Maria da Penha trouxe avanços imprescindíveis ______ esta nação.
Atendendo à norma-padrão de emprego do sinal indicativo de crase, as lacunas devem ser preenchidas, respectivamente, por:
Provas
Questão presente nas seguintes provas
A colocação pronominal está em conformidade com a
norma-padrão em:
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Os muitos obstáculos da proteção à mulher
A advertência feita por Maria da Penha, em recente entrevista ao Estadão, é tão simples quanto incômoda: o Brasil
aprendeu a produzir discursos corretos sobre o combate à violência contra a mulher, mas ainda não construiu um compromisso efetivo com as ações necessárias para enfrentá-la. “Discurso bonito se tem, mas discurso comprometido não tem”,
resumiu ela. Nesse diagnóstico incluem-se, claro, tanto os
governos em todos os níveis quanto o Congresso Nacional e
todos os agentes do Estado envolvidos na segurança pública.
Maria da Penha Maia Fernandes fala com a autoridade
de quem transformou uma tragédia pessoal em avanço institucional. Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio que a
deixou paraplégica, foi sua denúncia internacional que levou
o Brasil a reconhecer sua omissão histórica e a criar a Lei
Maria da Penha, em 2006. Ao afirmar que há discurso bonito,
mas não compromisso efetivo, aponta um padrão persistente
de negligência estatal, e não falhas episódicas.
Essa dissonância entre retórica e prática se reflete nos
números persistentes de feminicídio, na lentidão da Justiça
e no atendimento frequentemente inadequado às vítimas –
um conjunto de falhas que expõe a insuficiência do Estado
diante de um problema estrutural que é a violência do homem
sobre a mulher. Isso ajuda a explicar por que o feminicídio
ainda é tratado como exceção pelo Estado, quando é, na verdade, o desfecho previsível de uma sequência conhecida de
omissões. Segundo o Código Penal, feminicídio é o assassinato de mulher cometido “por razões da condição de sexo
feminino”. Em outras palavras, é feminicídio quando o crime
envolve violência doméstica e familiar ou discriminação de
alguém pela condição de mulher da vítima. Essa relação entre
gênero e motivação torna a tipificação do crime um desafio
investigativo recorrente, mas o histórico demonstra que, em
geral, esse tipo de crime é precedido por uma escalada de
agressões físicas, psicológicas e simbólicas, no contexto de
relações de poder desiguais.
A Justiça é lenta e, quando chega, frequentemente chega
tarde demais. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que processos de violência doméstica levam, em média,
mais de um ano para julgamento, período em que a mulher
permanece exposta, vulnerável e desprotegida. Há, porém,
um terceiro elemento ainda mais estrutural: o cuidado qualificado no primeiro contato da vítima com o Estado, sobretudo
pelas forças policiais. Falta preparo institucional para acolher,
orientar e proteger mulheres em situação de violência – e é
preciso ser claro: a responsabilidade não recai sobre os policiais individualmente, mas sobre a ausência de programas
permanentes de formação e capacitação.
O machismo e a violência contra a mulher são males
antigos; o reconhecimento de sua gravidade como problema
público é recente. É compreensível, portanto, que o tema
ainda ocupe espaço marginal nas academias de polícia e
nos currículos de formação. O que não é aceitável é a permanência dessa marginalidade diante do acúmulo de dados,
evidências e diagnósticos.
Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do
Instituto Sou da Paz convergem ao apontar que a violência
institucional e a revitimização afastam mulheres do sistema
de proteção, minando a confiança nas instituições. Não se
trata de acusar a ponta do sistema, mas de reconhecer que o
Estado falhou em criar as condições para uma atuação qualificada e sensível à complexidade da violência de gênero.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o
Brasil registrou ao menos 1.350 feminicídios entre janeiro e
novembro de 2025. Convém cautela na leitura desses dados:
parte da variação reflete melhora na notificação e na tipificação de crimes historicamente invisíveis. Maior registro não
significa, automaticamente, maior incidência, mas também
não pode servir de álibi para a inação.
O discurso bonito não salva vidas. O enfrentamento do
feminicídio exige prioridade política real, qualificação institucional das forças de segurança, resposta judicial tempestiva
e a construção deliberada de uma nova cultura no Estado e
na sociedade. Enquanto o compromisso permanecer restrito
à retórica, o País seguirá reagindo às tragédias quando elas
já se consumaram – quase sempre tarde demais.
(Editorial. O Estado de São Paulo. Disponível em:
https://www.estadao.com.br/opiniao/os-muitos-obstaculos-daprotecao-a-mulher/?srsltid=AfmBOooFk4-smbNVNbSjruBDrqvu12ov_4wtlCg
A6ePcn4jz4nZuqZdI . 16 de janeiro de 2026. Acesso em: 25 jan. 2026)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Os muitos obstáculos da proteção à mulher
A advertência feita por Maria da Penha, em recente entrevista ao Estadão, é tão simples quanto incômoda: o Brasil
aprendeu a produzir discursos corretos sobre o combate à violência contra a mulher, mas ainda não construiu um compromisso efetivo com as ações necessárias para enfrentá-la. “Discurso bonito se tem, mas discurso comprometido não tem”,
resumiu ela. Nesse diagnóstico incluem-se, claro, tanto os
governos em todos os níveis quanto o Congresso Nacional e
todos os agentes do Estado envolvidos na segurança pública.
Maria da Penha Maia Fernandes fala com a autoridade
de quem transformou uma tragédia pessoal em avanço institucional. Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio que a
deixou paraplégica, foi sua denúncia internacional que levou
o Brasil a reconhecer sua omissão histórica e a criar a Lei
Maria da Penha, em 2006. Ao afirmar que há discurso bonito,
mas não compromisso efetivo, aponta um padrão persistente
de negligência estatal, e não falhas episódicas.
Essa dissonância entre retórica e prática se reflete nos
números persistentes de feminicídio, na lentidão da Justiça
e no atendimento frequentemente inadequado às vítimas –
um conjunto de falhas que expõe a insuficiência do Estado
diante de um problema estrutural que é a violência do homem
sobre a mulher. Isso ajuda a explicar por que o feminicídio
ainda é tratado como exceção pelo Estado, quando é, na verdade, o desfecho previsível de uma sequência conhecida de
omissões. Segundo o Código Penal, feminicídio é o assassinato de mulher cometido “por razões da condição de sexo
feminino”. Em outras palavras, é feminicídio quando o crime
envolve violência doméstica e familiar ou discriminação de
alguém pela condição de mulher da vítima. Essa relação entre
gênero e motivação torna a tipificação do crime um desafio
investigativo recorrente, mas o histórico demonstra que, em
geral, esse tipo de crime é precedido por uma escalada de
agressões físicas, psicológicas e simbólicas, no contexto de
relações de poder desiguais.
A Justiça é lenta e, quando chega, frequentemente chega
tarde demais. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que processos de violência doméstica levam, em média,
mais de um ano para julgamento, período em que a mulher
permanece exposta, vulnerável e desprotegida. Há, porém,
um terceiro elemento ainda mais estrutural: o cuidado qualificado no primeiro contato da vítima com o Estado, sobretudo
pelas forças policiais. Falta preparo institucional para acolher,
orientar e proteger mulheres em situação de violência – e é
preciso ser claro: a responsabilidade não recai sobre os policiais individualmente, mas sobre a ausência de programas
permanentes de formação e capacitação.
O machismo e a violência contra a mulher são males
antigos; o reconhecimento de sua gravidade como problema
público é recente. É compreensível, portanto, que o tema
ainda ocupe espaço marginal nas academias de polícia e
nos currículos de formação. O que não é aceitável é a permanência dessa marginalidade diante do acúmulo de dados,
evidências e diagnósticos.
Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do
Instituto Sou da Paz convergem ao apontar que a violência
institucional e a revitimização afastam mulheres do sistema
de proteção, minando a confiança nas instituições. Não se
trata de acusar a ponta do sistema, mas de reconhecer que o
Estado falhou em criar as condições para uma atuação qualificada e sensível à complexidade da violência de gênero.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o
Brasil registrou ao menos 1.350 feminicídios entre janeiro e
novembro de 2025. Convém cautela na leitura desses dados:
parte da variação reflete melhora na notificação e na tipificação de crimes historicamente invisíveis. Maior registro não
significa, automaticamente, maior incidência, mas também
não pode servir de álibi para a inação.
O discurso bonito não salva vidas. O enfrentamento do
feminicídio exige prioridade política real, qualificação institucional das forças de segurança, resposta judicial tempestiva
e a construção deliberada de uma nova cultura no Estado e
na sociedade. Enquanto o compromisso permanecer restrito
à retórica, o País seguirá reagindo às tragédias quando elas
já se consumaram – quase sempre tarde demais.
(Editorial. O Estado de São Paulo. Disponível em:
https://www.estadao.com.br/opiniao/os-muitos-obstaculos-daprotecao-a-mulher/?srsltid=AfmBOooFk4-smbNVNbSjruBDrqvu12ov_4wtlCg
A6ePcn4jz4nZuqZdI . 16 de janeiro de 2026. Acesso em: 25 jan. 2026)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Os muitos obstáculos da proteção à mulher
A advertência feita por Maria da Penha, em recente entrevista ao Estadão, é tão simples quanto incômoda: o Brasil
aprendeu a produzir discursos corretos sobre o combate à violência contra a mulher, mas ainda não construiu um compromisso efetivo com as ações necessárias para enfrentá-la. “Discurso bonito se tem, mas discurso comprometido não tem”,
resumiu ela. Nesse diagnóstico incluem-se, claro, tanto os
governos em todos os níveis quanto o Congresso Nacional e
todos os agentes do Estado envolvidos na segurança pública.
Maria da Penha Maia Fernandes fala com a autoridade
de quem transformou uma tragédia pessoal em avanço institucional. Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio que a
deixou paraplégica, foi sua denúncia internacional que levou
o Brasil a reconhecer sua omissão histórica e a criar a Lei
Maria da Penha, em 2006. Ao afirmar que há discurso bonito,
mas não compromisso efetivo, aponta um padrão persistente
de negligência estatal, e não falhas episódicas.
Essa dissonância entre retórica e prática se reflete nos
números persistentes de feminicídio, na lentidão da Justiça
e no atendimento frequentemente inadequado às vítimas –
um conjunto de falhas que expõe a insuficiência do Estado
diante de um problema estrutural que é a violência do homem
sobre a mulher. Isso ajuda a explicar por que o feminicídio
ainda é tratado como exceção pelo Estado, quando é, na verdade, o desfecho previsível de uma sequência conhecida de
omissões. Segundo o Código Penal, feminicídio é o assassinato de mulher cometido “por razões da condição de sexo
feminino”. Em outras palavras, é feminicídio quando o crime
envolve violência doméstica e familiar ou discriminação de
alguém pela condição de mulher da vítima. Essa relação entre
gênero e motivação torna a tipificação do crime um desafio
investigativo recorrente, mas o histórico demonstra que, em
geral, esse tipo de crime é precedido por uma escalada de
agressões físicas, psicológicas e simbólicas, no contexto de
relações de poder desiguais.
A Justiça é lenta e, quando chega, frequentemente chega
tarde demais. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que processos de violência doméstica levam, em média,
mais de um ano para julgamento, período em que a mulher
permanece exposta, vulnerável e desprotegida. Há, porém,
um terceiro elemento ainda mais estrutural: o cuidado qualificado no primeiro contato da vítima com o Estado, sobretudo
pelas forças policiais. Falta preparo institucional para acolher,
orientar e proteger mulheres em situação de violência – e é
preciso ser claro: a responsabilidade não recai sobre os policiais individualmente, mas sobre a ausência de programas
permanentes de formação e capacitação.
O machismo e a violência contra a mulher são males
antigos; o reconhecimento de sua gravidade como problema
público é recente. É compreensível, portanto, que o tema
ainda ocupe espaço marginal nas academias de polícia e
nos currículos de formação. O que não é aceitável é a permanência dessa marginalidade diante do acúmulo de dados,
evidências e diagnósticos.
Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do
Instituto Sou da Paz convergem ao apontar que a violência
institucional e a revitimização afastam mulheres do sistema
de proteção, minando a confiança nas instituições. Não se
trata de acusar a ponta do sistema, mas de reconhecer que o
Estado falhou em criar as condições para uma atuação qualificada e sensível à complexidade da violência de gênero.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o
Brasil registrou ao menos 1.350 feminicídios entre janeiro e
novembro de 2025. Convém cautela na leitura desses dados:
parte da variação reflete melhora na notificação e na tipificação de crimes historicamente invisíveis. Maior registro não
significa, automaticamente, maior incidência, mas também
não pode servir de álibi para a inação.
O discurso bonito não salva vidas. O enfrentamento do
feminicídio exige prioridade política real, qualificação institucional das forças de segurança, resposta judicial tempestiva
e a construção deliberada de uma nova cultura no Estado e
na sociedade. Enquanto o compromisso permanecer restrito
à retórica, o País seguirá reagindo às tragédias quando elas
já se consumaram – quase sempre tarde demais.
(Editorial. O Estado de São Paulo. Disponível em:
https://www.estadao.com.br/opiniao/os-muitos-obstaculos-daprotecao-a-mulher/?srsltid=AfmBOooFk4-smbNVNbSjruBDrqvu12ov_4wtlCg
A6ePcn4jz4nZuqZdI . 16 de janeiro de 2026. Acesso em: 25 jan. 2026)
Segundo o Código Penal, feminicídio é o assassinato de mulher cometido “por razões da condição de sexo feminino”. Em outras palavras, é feminicídio quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou discriminação de alguém pela condição de mulher da vítima. (4º parágrafo).
Os vocábulos destacados estabelecem, respectivamente, relação de sentido de
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Os muitos obstáculos da proteção à mulher
A advertência feita por Maria da Penha, em recente entrevista ao Estadão, é tão simples quanto incômoda: o Brasil
aprendeu a produzir discursos corretos sobre o combate à violência contra a mulher, mas ainda não construiu um compromisso efetivo com as ações necessárias para enfrentá-la. “Discurso bonito se tem, mas discurso comprometido não tem”,
resumiu ela. Nesse diagnóstico incluem-se, claro, tanto os
governos em todos os níveis quanto o Congresso Nacional e
todos os agentes do Estado envolvidos na segurança pública.
Maria da Penha Maia Fernandes fala com a autoridade
de quem transformou uma tragédia pessoal em avanço institucional. Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio que a
deixou paraplégica, foi sua denúncia internacional que levou
o Brasil a reconhecer sua omissão histórica e a criar a Lei
Maria da Penha, em 2006. Ao afirmar que há discurso bonito,
mas não compromisso efetivo, aponta um padrão persistente
de negligência estatal, e não falhas episódicas.
Essa dissonância entre retórica e prática se reflete nos
números persistentes de feminicídio, na lentidão da Justiça
e no atendimento frequentemente inadequado às vítimas –
um conjunto de falhas que expõe a insuficiência do Estado
diante de um problema estrutural que é a violência do homem
sobre a mulher. Isso ajuda a explicar por que o feminicídio
ainda é tratado como exceção pelo Estado, quando é, na verdade, o desfecho previsível de uma sequência conhecida de
omissões. Segundo o Código Penal, feminicídio é o assassinato de mulher cometido “por razões da condição de sexo
feminino”. Em outras palavras, é feminicídio quando o crime
envolve violência doméstica e familiar ou discriminação de
alguém pela condição de mulher da vítima. Essa relação entre
gênero e motivação torna a tipificação do crime um desafio
investigativo recorrente, mas o histórico demonstra que, em
geral, esse tipo de crime é precedido por uma escalada de
agressões físicas, psicológicas e simbólicas, no contexto de
relações de poder desiguais.
A Justiça é lenta e, quando chega, frequentemente chega
tarde demais. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que processos de violência doméstica levam, em média,
mais de um ano para julgamento, período em que a mulher
permanece exposta, vulnerável e desprotegida. Há, porém,
um terceiro elemento ainda mais estrutural: o cuidado qualificado no primeiro contato da vítima com o Estado, sobretudo
pelas forças policiais. Falta preparo institucional para acolher,
orientar e proteger mulheres em situação de violência – e é
preciso ser claro: a responsabilidade não recai sobre os policiais individualmente, mas sobre a ausência de programas
permanentes de formação e capacitação.
O machismo e a violência contra a mulher são males
antigos; o reconhecimento de sua gravidade como problema
público é recente. É compreensível, portanto, que o tema
ainda ocupe espaço marginal nas academias de polícia e
nos currículos de formação. O que não é aceitável é a permanência dessa marginalidade diante do acúmulo de dados,
evidências e diagnósticos.
Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do
Instituto Sou da Paz convergem ao apontar que a violência
institucional e a revitimização afastam mulheres do sistema
de proteção, minando a confiança nas instituições. Não se
trata de acusar a ponta do sistema, mas de reconhecer que o
Estado falhou em criar as condições para uma atuação qualificada e sensível à complexidade da violência de gênero.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o
Brasil registrou ao menos 1.350 feminicídios entre janeiro e
novembro de 2025. Convém cautela na leitura desses dados:
parte da variação reflete melhora na notificação e na tipificação de crimes historicamente invisíveis. Maior registro não
significa, automaticamente, maior incidência, mas também
não pode servir de álibi para a inação.
O discurso bonito não salva vidas. O enfrentamento do
feminicídio exige prioridade política real, qualificação institucional das forças de segurança, resposta judicial tempestiva
e a construção deliberada de uma nova cultura no Estado e
na sociedade. Enquanto o compromisso permanecer restrito
à retórica, o País seguirá reagindo às tragédias quando elas
já se consumaram – quase sempre tarde demais.
(Editorial. O Estado de São Paulo. Disponível em:
https://www.estadao.com.br/opiniao/os-muitos-obstaculos-daprotecao-a-mulher/?srsltid=AfmBOooFk4-smbNVNbSjruBDrqvu12ov_4wtlCg
A6ePcn4jz4nZuqZdI . 16 de janeiro de 2026. Acesso em: 25 jan. 2026)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Cadernos
Caderno Container