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O ordinário do cotidiano
Por Cristina Fontenele
Quem repara no ordinário do cotidiano? Nos diálogos em fila de supermercado, no
guardanapo voando da mesa, em quanta gente usa ecobag, no estranho que lança um “bom dia”
ao cruzar com alguém pelo caminho, no rapaz puxado pelo próprio cão? Onde tudo isso fica
registrado? Talvez na memória de quem o viveu ou no inconsciente de algum observador. Para
o escritor, o rotineiro torna-se material de trabalho.
Por esses dias, participei de uma conversa mediada por um historiador junto a dois
escritores brasileiros. Falamos sobre a poética do cotidiano para além do Atlântico e como essas
percepções transformam-se em crônicas. Esse justo espaço que temos aqui tratando do breve e
vulgar da vida comum.
Refletimos sobre a familiaridade e o estranhamento de alguém que está deslocado de seu
território e contempla a cidade com ressalva e interesse. Um olhar imigrante que escreve sobre
o diverso jeito de estar no mundo. E que, mesmo quando se acostuma com as ruas, com as
pessoas, renova o senso de encantamento para continuar enxergando o simples. A curiosidade
do cronista é uma lupa que extrai da miudeza, do detalhe, a inspiração para palavras que podem
chegar não se sabe onde nem a quem. Mas quando conectam, suspendem o instante.
Cruzamos nossas vivências de Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Lisboa e Porto para
contar o que nossos sentidos percebem como casa, pertencimento e rejeição. Um dos escritores
relatou a frase que ouviu de um desconhecido no metrô, logo no primeiro deslocamento lisboeta:
“Brasileiros, deviam morrer todos”. Entre susto e questionamento, decidiu que a declaração não
definiria seus dias de viagem tampouco generalizaria um povo.
Já o mediador da mesa partilhou o preconceito que experimentou há alguns anos enquanto
recifense participando de um evento sobre História Política no Rio de Janeiro. Na conversa,
emergiram as conhecidas fricções entre Nordeste/Sudeste brasileiros, somaram-se também o
São João do Cariri e do Porto, as periferias cariocas e lisboetas numa linguagem que abordou o
paradoxo das interações.
O renomado geógrafo brasileiro Milton Santos foi citado no debate para lembrar que o lugar
vai muito além do espaço geográfico. É nele onde o ser humano estabelece suas relações e a
dinâmica da vida, a cooperação e o conflito, além de um cotidiano compartido. O lugar implica
as experiências que o sujeito irá acessar ou não ao longo da sua existência. Repercute também
no ”lugar de fala”, conceito tão difundido pela escritora Djamila Ribeiro.
De onde partimos quando falamos? Quais privilégios ou faltas moldam nossas percepções?
Conversamos ainda sobre os possíveis impactos que um texto promove. Sendo o cronista
uma espécie de testemunha vigilante que aponta obviedades: a folha em formato de coração na
beira da calçada, o tipo de lixo descartado por cada um, o desejo pelas comidas da terra. Ou a
redução de abraços desde quando alguém migra, como bem destacou a escritora brasileira
integrante da prosa.
A crônica não se propõe a dar lição de moral, mas não resulta em um texto alienado, embora
tenha “a seriedade das coisas sem etiqueta”, na definição do escritor Ferreira Gullar. É um gênero
que sabe sobre a Copa do Mundo, a onda de calor pela Europa, o endividamento pelos jogos de
aposta, a demissão do primeiro-ministro britânico. Ainda assim, o cronista escolhe também
perguntar se alguém adota o domingo como aquele tempinho para fazer só o que der vontade,
repetir o café da manhã vezes sem conta e se maravilhar com a foto de uma flor enviada por
um amigo numa viagem ao Peru.
(Disponível em: https://dnbrasil.dn.pt/opini%C3%A3o-dn-brasil/o-ordinrio-do-cotidiano – texto adaptado especialmente para esta prova).
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Árvores-Amigas
Por Adriana Antunes
Aos cinco anos de idade, depois de um passeio que eu e meu pai fazíamos pelo interior,
ganhei dele uma muda de cedro, colhida durante o caminhar. Plantamos no pátio de casa, perto
da rua. Cedro é uma árvore nativa de grande porte, tem um perfume marcante. Três anos depois,
o asfalto chegou ___ rua em que morávamos. Lembro das máquinas, do calor do piche e do
barulho. Mais dois anos e o terreno teve de ser cercado. Meu pai dizia que deixar como estava
era muito perigoso, pois se antes só passava tobata e trator, agora passavam carros, caminhões
e todo tipo de gente. Era melhor fechar tudo. Não foi fácil. Meu pé de cedro ficava bem onde um
poste de luz precisava ser posto. Lembro que foi uma briga, a qual perdi. A pequena árvore fora
cortada antes mesmo de ter engrossado o tronco. Para compensar, meu pai me deu uma
araucária. Ela já existia no terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo
minha. Aceitei, meio ___ contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos
ofertava todo ano. Aquela imensa árvore virou minha confidente, no correr dos anos. Sentava
junto dela e lhe contava do meu dia. Você já teve uma árvore-amiga?
O bairro foi crescendo e finalmente meus pais iriam conseguir construir a casa que tanto
tinham sonhado. Lembro do meu pai me chamando para conversar, dizendo que era para ficar
atenta, pois um fiscal viria à nossa casa entregar uma autorização para o corte do pinheiro. A
informação chegou como uma traição. Mas desta vez não briguei, tinha 16 anos e já me sabia
perdedora nesta disputa. Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu quem recebeu o
fiscal.
No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir. Eu saí de casa logo cedo. Me
neguei a ver a árvore tombar. Ela era minha amiga. Só voltei no final do dia. A cena que não me
abandona é de um céu limpo e enlouquecido pelos pássaros que voavam desnorteados com a
ausência da árvore.
Há anos convivo com árvores sendo derrubadas. Tenho uma infinidade de histórias tristes
para contar. Mas encaro ___ tristeza como um ato político. É preciso que consigamos nos
entristecer diante da degradação do mundo, em todos os sentidos. Nós estamos alienados
demais no consumo, anestesiados de tanta medicação, ficando cada vez mais imbecis pelo uso
da tecnologia e da IA.
O mundo é um acontecer junto e o modo como nos relacionamos com ele fala da nossa
(in)capacidade de nos responsabilizarmos. Me questiono sobre o modo como tratamos o meio
ambiente. Estamos demasiadamente iludidos para achar que a fatura do modo como tratamos a
natureza não vai chegar. Ou já chegou e nem nos demos conta?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/um-pe-de-cedro-cmqznhwxg00c2015tlwtwlvqp.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
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Árvores-Amigas
Por Adriana Antunes
Aos cinco anos de idade, depois de um passeio que eu e meu pai fazíamos pelo interior,
ganhei dele uma muda de cedro, colhida durante o caminhar. Plantamos no pátio de casa, perto
da rua. Cedro é uma árvore nativa de grande porte, tem um perfume marcante. Três anos depois,
o asfalto chegou ___ rua em que morávamos. Lembro das máquinas, do calor do piche e do
barulho. Mais dois anos e o terreno teve de ser cercado. Meu pai dizia que deixar como estava
era muito perigoso, pois se antes só passava tobata e trator, agora passavam carros, caminhões
e todo tipo de gente. Era melhor fechar tudo. Não foi fácil. Meu pé de cedro ficava bem onde um
poste de luz precisava ser posto. Lembro que foi uma briga, a qual perdi. A pequena árvore fora
cortada antes mesmo de ter engrossado o tronco. Para compensar, meu pai me deu uma
araucária. Ela já existia no terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo
minha. Aceitei, meio ___ contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos
ofertava todo ano. Aquela imensa árvore virou minha confidente, no correr dos anos. Sentava
junto dela e lhe contava do meu dia. Você já teve uma árvore-amiga?
O bairro foi crescendo e finalmente meus pais iriam conseguir construir a casa que tanto
tinham sonhado. Lembro do meu pai me chamando para conversar, dizendo que era para ficar
atenta, pois um fiscal viria à nossa casa entregar uma autorização para o corte do pinheiro. A
informação chegou como uma traição. Mas desta vez não briguei, tinha 16 anos e já me sabia
perdedora nesta disputa. Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu quem recebeu o
fiscal.
No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir. Eu saí de casa logo cedo. Me
neguei a ver a árvore tombar. Ela era minha amiga. Só voltei no final do dia. A cena que não me
abandona é de um céu limpo e enlouquecido pelos pássaros que voavam desnorteados com a
ausência da árvore.
Há anos convivo com árvores sendo derrubadas. Tenho uma infinidade de histórias tristes
para contar. Mas encaro ___ tristeza como um ato político. É preciso que consigamos nos
entristecer diante da degradação do mundo, em todos os sentidos. Nós estamos alienados
demais no consumo, anestesiados de tanta medicação, ficando cada vez mais imbecis pelo uso
da tecnologia e da IA.
O mundo é um acontecer junto e o modo como nos relacionamos com ele fala da nossa
(in)capacidade de nos responsabilizarmos. Me questiono sobre o modo como tratamos o meio
ambiente. Estamos demasiadamente iludidos para achar que a fatura do modo como tratamos a
natureza não vai chegar. Ou já chegou e nem nos demos conta?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/um-pe-de-cedro-cmqznhwxg00c2015tlwtwlvqp.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
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Árvores-Amigas
Por Adriana Antunes
Aos cinco anos de idade, depois de um passeio que eu e meu pai fazíamos pelo interior,
ganhei dele uma muda de cedro, colhida durante o caminhar. Plantamos no pátio de casa, perto
da rua. Cedro é uma árvore nativa de grande porte, tem um perfume marcante. Três anos depois,
o asfalto chegou ___ rua em que morávamos. Lembro das máquinas, do calor do piche e do
barulho. Mais dois anos e o terreno teve de ser cercado. Meu pai dizia que deixar como estava
era muito perigoso, pois se antes só passava tobata e trator, agora passavam carros, caminhões
e todo tipo de gente. Era melhor fechar tudo. Não foi fácil. Meu pé de cedro ficava bem onde um
poste de luz precisava ser posto. Lembro que foi uma briga, a qual perdi. A pequena árvore fora
cortada antes mesmo de ter engrossado o tronco. Para compensar, meu pai me deu uma
araucária. Ela já existia no terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo
minha. Aceitei, meio ___ contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos
ofertava todo ano. Aquela imensa árvore virou minha confidente, no correr dos anos. Sentava
junto dela e lhe contava do meu dia. Você já teve uma árvore-amiga?
O bairro foi crescendo e finalmente meus pais iriam conseguir construir a casa que tanto
tinham sonhado. Lembro do meu pai me chamando para conversar, dizendo que era para ficar
atenta, pois um fiscal viria à nossa casa entregar uma autorização para o corte do pinheiro. A
informação chegou como uma traição. Mas desta vez não briguei, tinha 16 anos e já me sabia
perdedora nesta disputa. Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu quem recebeu o
fiscal.
No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir. Eu saí de casa logo cedo. Me
neguei a ver a árvore tombar. Ela era minha amiga. Só voltei no final do dia. A cena que não me
abandona é de um céu limpo e enlouquecido pelos pássaros que voavam desnorteados com a
ausência da árvore.
Há anos convivo com árvores sendo derrubadas. Tenho uma infinidade de histórias tristes
para contar. Mas encaro ___ tristeza como um ato político. É preciso que consigamos nos
entristecer diante da degradação do mundo, em todos os sentidos. Nós estamos alienados
demais no consumo, anestesiados de tanta medicação, ficando cada vez mais imbecis pelo uso
da tecnologia e da IA.
O mundo é um acontecer junto e o modo como nos relacionamos com ele fala da nossa
(in)capacidade de nos responsabilizarmos. Me questiono sobre o modo como tratamos o meio
ambiente. Estamos demasiadamente iludidos para achar que a fatura do modo como tratamos a
natureza não vai chegar. Ou já chegou e nem nos demos conta?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/um-pe-de-cedro-cmqznhwxg00c2015tlwtwlvqp.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
• “Três anos depois, o asfalto chegou ___ rua em que morávamos”.
• “Aceitei, meio ___ contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos ofertava todo ano”.
• “Mas encaro ___ tristeza como um ato político”.
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Árvores-Amigas
Por Adriana Antunes
Aos cinco anos de idade, depois de um passeio que eu e meu pai fazíamos pelo interior,
ganhei dele uma muda de cedro, colhida durante o caminhar. Plantamos no pátio de casa, perto
da rua. Cedro é uma árvore nativa de grande porte, tem um perfume marcante. Três anos depois,
o asfalto chegou ___ rua em que morávamos. Lembro das máquinas, do calor do piche e do
barulho. Mais dois anos e o terreno teve de ser cercado. Meu pai dizia que deixar como estava
era muito perigoso, pois se antes só passava tobata e trator, agora passavam carros, caminhões
e todo tipo de gente. Era melhor fechar tudo. Não foi fácil. Meu pé de cedro ficava bem onde um
poste de luz precisava ser posto. Lembro que foi uma briga, a qual perdi. A pequena árvore fora
cortada antes mesmo de ter engrossado o tronco. Para compensar, meu pai me deu uma
araucária. Ela já existia no terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo
minha. Aceitei, meio ___ contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos
ofertava todo ano. Aquela imensa árvore virou minha confidente, no correr dos anos. Sentava
junto dela e lhe contava do meu dia. Você já teve uma árvore-amiga?
O bairro foi crescendo e finalmente meus pais iriam conseguir construir a casa que tanto
tinham sonhado. Lembro do meu pai me chamando para conversar, dizendo que era para ficar
atenta, pois um fiscal viria à nossa casa entregar uma autorização para o corte do pinheiro. A
informação chegou como uma traição. Mas desta vez não briguei, tinha 16 anos e já me sabia
perdedora nesta disputa. Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu quem recebeu o
fiscal.
No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir. Eu saí de casa logo cedo. Me
neguei a ver a árvore tombar. Ela era minha amiga. Só voltei no final do dia. A cena que não me
abandona é de um céu limpo e enlouquecido pelos pássaros que voavam desnorteados com a
ausência da árvore.
Há anos convivo com árvores sendo derrubadas. Tenho uma infinidade de histórias tristes
para contar. Mas encaro ___ tristeza como um ato político. É preciso que consigamos nos
entristecer diante da degradação do mundo, em todos os sentidos. Nós estamos alienados
demais no consumo, anestesiados de tanta medicação, ficando cada vez mais imbecis pelo uso
da tecnologia e da IA.
O mundo é um acontecer junto e o modo como nos relacionamos com ele fala da nossa
(in)capacidade de nos responsabilizarmos. Me questiono sobre o modo como tratamos o meio
ambiente. Estamos demasiadamente iludidos para achar que a fatura do modo como tratamos a
natureza não vai chegar. Ou já chegou e nem nos demos conta?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/um-pe-de-cedro-cmqznhwxg00c2015tlwtwlvqp.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Coluna 1
1. “[...] uma muda de cedro, colhida durante o caminhar”.
2. “Não foi fácil”.
3. “Meu pé de cedro ficava bem onde um poste de luz precisava ser posto”.
4. “Me neguei a ver a árvore tombar”.
Coluna 2
( ) Adjetivo.
( ) Preposição.
( ) Substantivo.
( ) Verbo.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
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Árvores-Amigas
Por Adriana Antunes
Aos cinco anos de idade, depois de um passeio que eu e meu pai fazíamos pelo interior,
ganhei dele uma muda de cedro, colhida durante o caminhar. Plantamos no pátio de casa, perto
da rua. Cedro é uma árvore nativa de grande porte, tem um perfume marcante. Três anos depois,
o asfalto chegou ___ rua em que morávamos. Lembro das máquinas, do calor do piche e do
barulho. Mais dois anos e o terreno teve de ser cercado. Meu pai dizia que deixar como estava
era muito perigoso, pois se antes só passava tobata e trator, agora passavam carros, caminhões
e todo tipo de gente. Era melhor fechar tudo. Não foi fácil. Meu pé de cedro ficava bem onde um
poste de luz precisava ser posto. Lembro que foi uma briga, a qual perdi. A pequena árvore fora
cortada antes mesmo de ter engrossado o tronco. Para compensar, meu pai me deu uma
araucária. Ela já existia no terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo
minha. Aceitei, meio ___ contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos
ofertava todo ano. Aquela imensa árvore virou minha confidente, no correr dos anos. Sentava
junto dela e lhe contava do meu dia. Você já teve uma árvore-amiga?
O bairro foi crescendo e finalmente meus pais iriam conseguir construir a casa que tanto
tinham sonhado. Lembro do meu pai me chamando para conversar, dizendo que era para ficar
atenta, pois um fiscal viria à nossa casa entregar uma autorização para o corte do pinheiro. A
informação chegou como uma traição. Mas desta vez não briguei, tinha 16 anos e já me sabia
perdedora nesta disputa. Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu quem recebeu o
fiscal.
No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir. Eu saí de casa logo cedo. Me
neguei a ver a árvore tombar. Ela era minha amiga. Só voltei no final do dia. A cena que não me
abandona é de um céu limpo e enlouquecido pelos pássaros que voavam desnorteados com a
ausência da árvore.
Há anos convivo com árvores sendo derrubadas. Tenho uma infinidade de histórias tristes
para contar. Mas encaro ___ tristeza como um ato político. É preciso que consigamos nos
entristecer diante da degradação do mundo, em todos os sentidos. Nós estamos alienados
demais no consumo, anestesiados de tanta medicação, ficando cada vez mais imbecis pelo uso
da tecnologia e da IA.
O mundo é um acontecer junto e o modo como nos relacionamos com ele fala da nossa
(in)capacidade de nos responsabilizarmos. Me questiono sobre o modo como tratamos o meio
ambiente. Estamos demasiadamente iludidos para achar que a fatura do modo como tratamos a
natureza não vai chegar. Ou já chegou e nem nos demos conta?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/um-pe-de-cedro-cmqznhwxg00c2015tlwtwlvqp.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
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Árvores-Amigas
Por Adriana Antunes
Aos cinco anos de idade, depois de um passeio que eu e meu pai fazíamos pelo interior,
ganhei dele uma muda de cedro, colhida durante o caminhar. Plantamos no pátio de casa, perto
da rua. Cedro é uma árvore nativa de grande porte, tem um perfume marcante. Três anos depois,
o asfalto chegou ___ rua em que morávamos. Lembro das máquinas, do calor do piche e do
barulho. Mais dois anos e o terreno teve de ser cercado. Meu pai dizia que deixar como estava
era muito perigoso, pois se antes só passava tobata e trator, agora passavam carros, caminhões
e todo tipo de gente. Era melhor fechar tudo. Não foi fácil. Meu pé de cedro ficava bem onde um
poste de luz precisava ser posto. Lembro que foi uma briga, a qual perdi. A pequena árvore fora
cortada antes mesmo de ter engrossado o tronco. Para compensar, meu pai me deu uma
araucária. Ela já existia no terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo
minha. Aceitei, meio ___ contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos
ofertava todo ano. Aquela imensa árvore virou minha confidente, no correr dos anos. Sentava
junto dela e lhe contava do meu dia. Você já teve uma árvore-amiga?
O bairro foi crescendo e finalmente meus pais iriam conseguir construir a casa que tanto
tinham sonhado. Lembro do meu pai me chamando para conversar, dizendo que era para ficar
atenta, pois um fiscal viria à nossa casa entregar uma autorização para o corte do pinheiro. A
informação chegou como uma traição. Mas desta vez não briguei, tinha 16 anos e já me sabia
perdedora nesta disputa. Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu quem recebeu o
fiscal.
No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir. Eu saí de casa logo cedo. Me
neguei a ver a árvore tombar. Ela era minha amiga. Só voltei no final do dia. A cena que não me
abandona é de um céu limpo e enlouquecido pelos pássaros que voavam desnorteados com a
ausência da árvore.
Há anos convivo com árvores sendo derrubadas. Tenho uma infinidade de histórias tristes
para contar. Mas encaro ___ tristeza como um ato político. É preciso que consigamos nos
entristecer diante da degradação do mundo, em todos os sentidos. Nós estamos alienados
demais no consumo, anestesiados de tanta medicação, ficando cada vez mais imbecis pelo uso
da tecnologia e da IA.
O mundo é um acontecer junto e o modo como nos relacionamos com ele fala da nossa
(in)capacidade de nos responsabilizarmos. Me questiono sobre o modo como tratamos o meio
ambiente. Estamos demasiadamente iludidos para achar que a fatura do modo como tratamos a
natureza não vai chegar. Ou já chegou e nem nos demos conta?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/um-pe-de-cedro-cmqznhwxg00c2015tlwtwlvqp.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
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Por Adriana Antunes
Aos cinco anos de idade, depois de um passeio que eu e meu pai fazíamos pelo interior,
ganhei dele uma muda de cedro, colhida durante o caminhar. Plantamos no pátio de casa, perto
da rua. Cedro é uma árvore nativa de grande porte, tem um perfume marcante. Três anos depois,
o asfalto chegou ___ rua em que morávamos. Lembro das máquinas, do calor do piche e do
barulho. Mais dois anos e o terreno teve de ser cercado. Meu pai dizia que deixar como estava
era muito perigoso, pois se antes só passava tobata e trator, agora passavam carros, caminhões
e todo tipo de gente. Era melhor fechar tudo. Não foi fácil. Meu pé de cedro ficava bem onde um
poste de luz precisava ser posto. Lembro que foi uma briga, a qual perdi. A pequena árvore fora
cortada antes mesmo de ter engrossado o tronco. Para compensar, meu pai me deu uma
araucária. Ela já existia no terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo
minha. Aceitei, meio ___ contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos
ofertava todo ano. Aquela imensa árvore virou minha confidente, no correr dos anos. Sentava
junto dela e lhe contava do meu dia. Você já teve uma árvore-amiga?
O bairro foi crescendo e finalmente meus pais iriam conseguir construir a casa que tanto
tinham sonhado. Lembro do meu pai me chamando para conversar, dizendo que era para ficar
atenta, pois um fiscal viria à nossa casa entregar uma autorização para o corte do pinheiro. A
informação chegou como uma traição. Mas desta vez não briguei, tinha 16 anos e já me sabia
perdedora nesta disputa. Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu quem recebeu o
fiscal.
No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir. Eu saí de casa logo cedo. Me
neguei a ver a árvore tombar. Ela era minha amiga. Só voltei no final do dia. A cena que não me
abandona é de um céu limpo e enlouquecido pelos pássaros que voavam desnorteados com a
ausência da árvore.
Há anos convivo com árvores sendo derrubadas. Tenho uma infinidade de histórias tristes
para contar. Mas encaro ___ tristeza como um ato político. É preciso que consigamos nos
entristecer diante da degradação do mundo, em todos os sentidos. Nós estamos alienados
demais no consumo, anestesiados de tanta medicação, ficando cada vez mais imbecis pelo uso
da tecnologia e da IA.
O mundo é um acontecer junto e o modo como nos relacionamos com ele fala da nossa
(in)capacidade de nos responsabilizarmos. Me questiono sobre o modo como tratamos o meio
ambiente. Estamos demasiadamente iludidos para achar que a fatura do modo como tratamos a
natureza não vai chegar. Ou já chegou e nem nos demos conta?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/um-pe-de-cedro-cmqznhwxg00c2015tlwtwlvqp.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
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- MorfologiaPronomesPronomes PessoaisPronomes Pessoais Retos
- MorfologiaPronomesPronomes PessoaisPronomes Pessoais Oblíquos
- Interpretação de TextosCoesão e Coerência
Árvores-Amigas
Por Adriana Antunes
Aos cinco anos de idade, depois de um passeio que eu e meu pai fazíamos pelo interior,
ganhei dele uma muda de cedro, colhida durante o caminhar. Plantamos no pátio de casa, perto
da rua. Cedro é uma árvore nativa de grande porte, tem um perfume marcante. Três anos depois,
o asfalto chegou ___ rua em que morávamos. Lembro das máquinas, do calor do piche e do
barulho. Mais dois anos e o terreno teve de ser cercado. Meu pai dizia que deixar como estava
era muito perigoso, pois se antes só passava tobata e trator, agora passavam carros, caminhões
e todo tipo de gente. Era melhor fechar tudo. Não foi fácil. Meu pé de cedro ficava bem onde um
poste de luz precisava ser posto. Lembro que foi uma briga, a qual perdi. A pequena árvore fora
cortada antes mesmo de ter engrossado o tronco. Para compensar, meu pai me deu uma
araucária. Ela já existia no terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo
minha. Aceitei, meio ___ contragosto, embora gostasse muito dos pinhões tardios que ela nos
ofertava todo ano. Aquela imensa árvore virou minha confidente, no correr dos anos. Sentava
junto dela e lhe contava do meu dia. Você já teve uma árvore-amiga?
O bairro foi crescendo e finalmente meus pais iriam conseguir construir a casa que tanto
tinham sonhado. Lembro do meu pai me chamando para conversar, dizendo que era para ficar
atenta, pois um fiscal viria à nossa casa entregar uma autorização para o corte do pinheiro. A
informação chegou como uma traição. Mas desta vez não briguei, tinha 16 anos e já me sabia
perdedora nesta disputa. Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu quem recebeu o
fiscal.
No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir. Eu saí de casa logo cedo. Me
neguei a ver a árvore tombar. Ela era minha amiga. Só voltei no final do dia. A cena que não me
abandona é de um céu limpo e enlouquecido pelos pássaros que voavam desnorteados com a
ausência da árvore.
Há anos convivo com árvores sendo derrubadas. Tenho uma infinidade de histórias tristes
para contar. Mas encaro ___ tristeza como um ato político. É preciso que consigamos nos
entristecer diante da degradação do mundo, em todos os sentidos. Nós estamos alienados
demais no consumo, anestesiados de tanta medicação, ficando cada vez mais imbecis pelo uso
da tecnologia e da IA.
O mundo é um acontecer junto e o modo como nos relacionamos com ele fala da nossa
(in)capacidade de nos responsabilizarmos. Me questiono sobre o modo como tratamos o meio
ambiente. Estamos demasiadamente iludidos para achar que a fatura do modo como tratamos a
natureza não vai chegar. Ou já chegou e nem nos demos conta?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/um-pe-de-cedro-cmqznhwxg00c2015tlwtwlvqp.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
( ) Em “Para compensar, meu pai me deu uma araucária. Ela já existia no terreno, mas ele disse que eu poderia considerar a árvore como sendo minha”, o pronome “ela” retoma o termo “árvore”.
( ) No trecho “Conversei longamente com a araucária e, sim, fui eu quem recebeu o fiscal. No dia em que a derrubaram, o bairro parou para assistir”, o pronome oblíquo sublinhado se refere a “araucária”.
( ) Conectivos como “mas” e “embora” são empregados no texto para estabelecer relações de contraste entre as ideias.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:
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Caderno Container