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Texto II
O Natal e o Ano Novo que a mídia vende
Todos os anos, entre novembro e janeiro, o mesmo ritual se repete: vitrines decoradas com neve
artificial em um país tropical, trilhas sonoras natalinas ecoando em shopping centers, seguidas por
contagens regressivas e promessas de recomeço. Uma avalanche de campanhas publicitárias promete
transformar a compra do presente perfeito em prova irrefutável de amor, enquanto o réveillon surge
como palco obrigatório para demonstrar sucesso, alegria e otimismo. A imprensa, entrelaçada a
esse mecanismo, atua simultaneamente como vitrine, termômetro e promotora de um fenômeno que
movimenta bilhões de reais e, paradoxalmente, endivida milhões de famílias. O Natal e o Ano Novo
contemporâneos, tais como nos são apresentados pelos meios de comunicação, revelam menos sobre
a celebração de valores transcendentes ou sobre renovação genuína do que sobre as contradições de
uma sociedade que aprendeu a confundir afeto com capacidade de consumo e esperança com poder
de compra.
A questão não é recente, mas merece ser revisitada a cada ciclo, sobretudo quando se observa
o papel central que a mídia desempenha na construção e manutenção desse modelo. Não se trata
apenas de publicidade explícita, aquela que reconhecemos como tal e da qual podemos, ao menos
teoricamente, manter distância crítica. O incentivo ao consumo nessa temporada opera em planos mais
sutis e, por isso mesmo, mais eficazes: matérias jornalísticas sobre tendências de presentes, pesquisas
que revelam quanto os brasileiros pretendem gastar (criando um parâmetro de normalidade), guias de
compras apresentados como serviço ao leitor, reportagens sobre destinos de réveillon e o que vestir na
virada do ano, coberturas sobre a movimentação do comércio que naturalizam a equação festividades-igual-consumo. A fronteira entre conteúdo editorial e publicitário se dilui estrategicamente, e o resultado
é uma narrativa coesa que transforma o ato de comprar em imperativo moral e social.
Problematizar essa dinâmica não significa demonizar o comércio, condenar quem compra presentes ou vai à praia na virada do ano, ou propor a extinção dessas datas como celebrações coletivas. Significa,
isto sim, criar espaço para que a sociedade possa refletir criticamente sobre os significados e as práticas
que construiu em torno delas. Significa reconhecer que o modelo atual serve a determinados interesses
econômicos, mas não necessariamente ao bem-estar coletivo ou individual. E significa, para a imprensa
em particular, assumir que seu papel não pode se limitar a ser correia de transmissão de uma lógica
econômica que ela mesma, em momentos de autocrítica episódica, reconhece como problemática.
Uma imprensa que naturaliza a mercantilização de todas as dimensões da vida, inclusive as mais
íntimas, afetivas e relacionadas à esperança e ao futuro, contribui para a perpetuação de um modelo
insustentável em múltiplas dimensões.
ALBERTONI, Ramsés. O Natal e o Ano Novo que a mídia vende. In: Observatório da Imprensa, edição 1369, 18 de
dezembro de 2025. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/consumo/o-natal-e-o-ano-novo-que-a-midiavende/. Acesso em: 28 dez. 2025. (Fragmento)
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Texto I
Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
( ) Quanto mais socialmente autônomo for o indivíduo, menor será sua dependência da esfera mercantil para suprir suas necessidades.
( ) A dissolução das normas coletivas e a valorização do individualismo resultaram em um indivíduo isolado, hedonista e vulnerável, frequentemente incapaz de lidar com pressões externas e impulsos internos.
( ) Observa-se uma disseminação de comportamentos desestruturados e consumos compulsivos, uma vez que a tendência ao desregramento acompanha a cultura contemporânea, marcada pela livre escolha individual nos diversos estilos de vida.
( ) Se o indivíduo possui o controle sobre a própria vida, ele não convive com as sensações de dependência e de impotência pessoal.
A sequência correta é:
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Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes, podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo.
Assinale a alternativa cuja reescrita mantém o mesmo sentido do trecho destacado.
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Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
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Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
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Texto I
Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
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Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
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Em relação às escolhas linguísticas do texto III, assinale (V) verdadeiro ou (F) falso antes de cada afirmativa a seguir.
( ) O título da tirinha, “Como receber a morte”, sugere que seus quadrinhos apresentam instruções para a execução de um propósito.
( ) As formas verbais “Pega”, “Senta” e “Tem” pertencem ao modo imperativo.
( ) As flexões “Pega” e “Senta” estão de acordo com a conjugação prevista pela norma-padrão para a 3ª pessoa do singular (você/ele).
( ) A parte verbal da tirinha contempla as seguintes classes de palavras: verbo, substantivo, adjetivo, artigo e advérbio.
A sequência correta é:
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Assinale o verso do texto II em que não há linguagem conotativa.
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TEXTO I
Certos medos e angústias não têm relação com a idade e são universais
Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que
não tinha a pretensão de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios
da condição humana, mas achava que estaria livre das angústias e dos desacertos existenciais que me
atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas aoenvelhecimentosão
universais, não importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus
dias estão nas folhas amarelas/ As flores e frutos do amor se foram/ O verme, a doença e o luto/ São
somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que
inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da
velhice não fazia o menor sentido. Assolados por doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar
30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas.
Embora sempre tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir
essa idade em condições tão deploráveis que se referiam à velhice como fonte inesgotável de dores,
limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montaigne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda
dos poderes trazida pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a
chamamos de natural, como se fosse contrário à natureza ver um homem quebrar o pescoço numa
queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um
evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros.”
Desde Montaigne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis
se refere a um “velho gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No
início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei
que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos,
penso com frequência na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada
no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar
outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem supondo que a fome de viver
tenha alguma validade objetiva”.
Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que farei com este absurdo/ Ó, coração,
ó, coração atormentado — esta caricatura/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/ Como a cauda num
cachorro?”
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos
constituiriam a faixa etária que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje,
teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas
de “fazer repouso”, o desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica aceitar as limitações
impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater
a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena viver, de se queixar de tudo e de todos,
o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade
e idoso, palavras que nos infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda
quando dizem que temos cabeça de jovem. Como você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua
cabeça é de 15?
Bernard Shaw escreveu aos 92 anos: “É mais difícil lidar com o envelhecimento do que com a
morte... Acreditar na imortalidade genuína é acreditar no horror inimaginável”.
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé
religiosa, como eu, aceita com mais naturalidade a ideia do eterno não-ser. Enquanto não recebo a
visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não
seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo com a linguagem
simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
Feliz Ano-Novo.
VARELLA, Drauzio. Folha de S. Paulo. 31 dez. 2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/
drauziovarella/2025/12/certos-medos-e-angustias-nao-tem-relacao-com-a-idade-e-sao-universais.shtml. Acesso em: 21 jan. 2026. (Adaptado)
TEXTO II
CONSOADA
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
BANDEIRA, Manuel. In: Estrela da vida inteira. 20ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p. 223.

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