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A erupção vulcânica que produziu o som mais
alto registrado na história
No começo de julho de 2026, um vulcão na
Indonésia entrou em erupção e lançou colunas de
cinzas de até 250 metros de altura, segundo a
imprensa local.
O vulcão Anak Krakatau entrou em
erupção duas vezes: uma em 2 de julho e outra
em 3 de julho, segundo reportagens que citam a
agência geológica da Indonésia. Um grupo
responsável pelo monitoramento da atividade
vulcânica na região informou que não havia
ameaça imediata às comunidades próximas.
O Anak Krakatau surgiu em 1927 a partir
de uma grande cratera submarina, conhecida
como caldeira, deixada pela erupção do vulcão
Krakatoa, a segunda mais letal já registrada na
história. Em indonésio, Anak Krakatau significa
“Filho do Krakatoa”.
A erupção de 1883 matou mais de 36 mil
pessoas e destruiu 165 vilarejos em menos de 48
horas.
Também produziu o que é considerado o
som mais alto já registrado. A explosão pôde ser
ouvida a milhares de quilômetros de distância e
lançou tanta cinza na atmosfera que reduziu as
temperaturas em todo o planeta por anos.
Os primeiros sinais da tragédia foram
observados em maio de 1883, segundo os
Centros Nacionais de Informação Ambiental dos
Estados Unidos (NCEI, na sigla em inglês). O
comandante de um navio de guerra alemão
passava pela região quando viu nuvens de cinzas
e poeira saindo do Krakatoa. Até então, o vulcão
permanecia inativo havia cerca de 200 anos.
Então, em 26 de agosto daquele ano,
começaram as erupções. A primeira grande
explosão do Krakatoa lançou fluxos de lava,
pedra-pomes e cinzas em direção ao mar. O
material provocou uma onda gigante que avançou
para o norte, matando milhares de pessoas.
No auge da erupção, a coluna de cinzas
atingiu 80 quilômetros de altura, cobriu uma área de cerca de 777 mil quilômetros quadrados e
mergulhou a região na escuridão por mais de dois
dias, segundo o NCEI.
Fonte: BBC News Brasil. Disponível em: bbc.com/portuguese.
Acesso em: 21 jul. 2026. [trecho adaptado]
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Leia a tirinha da Mafalda a seguir e,
posteriormente, analise afirmativas apresentadas.
I. A pragmática foca no significado codificado, literal e proposicional das sentenças, independentemente do contexto de uso;
II. A semântica estuda o sentido da linguagem em uso, considerando as intenções dos falantes, o contexto social e as implicaturas (o que é dito nas entrelinhas);
III. No último quadrinho, quando Mafalda diz "Não vamos fazer absolutamente nada", o significado semântico refere-se à ausência total de ação ou atividade por parte do grupo.
IV. Quando Mafalda afirma que não farão "absolutamente nada", pragmaticamente, ela não está apenas descrevendo uma falta de atividade; ela está realizando a brincadeira. O "não fazer nada" é, ironicamente, a própria ação de governar dentro do jogo proposto.
Após analisar as afirmativas, conclui-se que:
I. A pragmática foca no significado codificado, literal e proposicional das sentenças, independentemente do contexto de uso;
II. A semântica estuda o sentido da linguagem em uso, considerando as intenções dos falantes, o contexto social e as implicaturas (o que é dito nas entrelinhas);
III. No último quadrinho, quando Mafalda diz "Não vamos fazer absolutamente nada", o significado semântico refere-se à ausência total de ação ou atividade por parte do grupo.
IV. Quando Mafalda afirma que não farão "absolutamente nada", pragmaticamente, ela não está apenas descrevendo uma falta de atividade; ela está realizando a brincadeira. O "não fazer nada" é, ironicamente, a própria ação de governar dentro do jogo proposto.
Após analisar as afirmativas, conclui-se que:
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Leia o texto a seguir e responda a questão.
Além do tempo de tela: o que os mais jovens
têm feito no celular?
Qualidade da interação e dos conteúdos acessados
precisa estar no centro do debate sobre saúde mental
entre crianças e adolescentes
Por Luiz Zoldan*
Reduzir a crise de saúde mental entre
jovens ao “tempo de tela” é uma explicação
confortável – e perigosamente insuficiente. O
debate público precisa de um ajuste urgente: mais
do que contar horas, é preciso entender a
qualidade da interação desses adolescentes com
os dispositivos digitais.
Em consultórios, escolas e ambientes de
trabalho, a constatação é recorrente: a forma
como os jovens se relacionam consigo mesmos,
com os outros e com o mundo mudou
profundamente. E as telas ocupam um papel
central nessa transformação.
Vivemos em uma realidade na qual nunca
estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão
expostos a fatores que afetam a saúde mental,
especialmente entre crianças e adolescentes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
estima que mais de um em cada dez adolescentes
já manifesta um uso problemático de redes
sociais, com perda de controle e consequências
negativas no dia a dia.
Estudos consistentes associam o uso
excessivo de telas à piora nos indicadores de
saúde mental. Cerca de 25% dos adolescentes
que passam mais de 4 horas diárias em frente a
telas apresentam sintomas recentes de ansiedade
ou depressão. Evidências longitudinais também
confirmam que o aumento do tempo de exposição
está ligado a um maior risco de sofrimento
emocional a longo prazo.
O Brasil figura entre os países com maior
tempo de tela no mundo, ultrapassando 5 horas
diárias apenas em smartphones. Entre os
adolescentes brasileiros, os números são ainda
mais alarmantes, chegando a quase 6 horas em dias de semana e ultrapassando 8 horas nos fins
de semana.
O cenário nacional é marcado por três
desafios: o acesso a smartphones em idades cada
vez mais precoces, a desigualdade no acesso à
educação digital e a fragilidade na mediação por
parte de famílias e escolas. Diante disso, cresce a
percepção entre os próprios jovens de que algo
não vai bem: quase metade deles já considera que
as redes sociais impactam negativamente
pessoas da sua idade.
Ainda assim, é crucial qualificar a leitura
desses dados. A própria ciência mostra que o
impacto não é uniforme. O uso
passivo, caracterizado pela rolagem infinita e pela
comparação social, está mais associado ao malestar. Por outro lado, usos mais ativos e focados
na conexão podem ter um efeito protetor. O
problema central, portanto, não é apenas o tempo,
mas o padrão de uso. Comportamentos
compulsivos e de dependência estão mais ligados
a desfechos negativos do que o número absoluto
de horas.
Nesse contexto, avanços como a
atualização do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) e a aplicação da Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD) ao ambiente digital
são essenciais, pois reconhecem a
vulnerabilidade de crianças e adolescentes nesse
ecossistema. Essas iniciativas buscam
responsabilizar as plataformas, proteger dados e
reduzir a exposição a conteúdos nocivos.
Contudo, a regulação, sozinha, não resolve. Ela
cria um ambiente mais seguro, mas não substitui
a educação, o vínculo afetivo e o desenvolvimento
de repertório emocional.
Durante anos, a principal recomendação
foi limitar o tempo de tela. Embora essa
abordagem continue relevante, especialmente
para crianças mais novas, hoje sabemos que é
insuficiente. O verdadeiro problema não é apenas
o que acontece nas telas, mas o que deixa de
acontecer fora delas: sono de qualidade, atividade
física, convivência e a própria construção da
identidade são processos insubstituíveis para o
desenvolvimento psíquico.
O uso excessivo de telas, por exemplo,
está diretamente ligado a um sono mais curto e de
pior qualidade – um dos principais gatilhos para o sofrimento mental. Idealmente, um uso de
qualidade envolve interações sociais reais,
consumo de conteúdos educativos ou criativos e
intencionalidade, sem prejudicar o sono. Em
contrapartida, a utilização de risco é aquela em
que há comportamento compulsivo, comparação
social constante, exposição a conteúdos negativos
e a substituição de experiências presenciais por
virtuais.
Com base em evidências científicas e na
prática clínica, algumas medidas são
fundamentais. Para as famílias, é preciso
estabelecer acordos claros, evitar o uso de
aparelhos antes de dormir (especialmente porque
um terço dos adolescentes os utiliza depois da
meia-noite), acompanhar os
conteúdos acessados e, acima de tudo, dar o
exemplo. Isso implica reconhecer que muitos
adultos também mantêm uma relação excessiva,
distraída e pouco saudável com as telas, o
que compromete o ensino da autorregulação.
Nas escolas, o desafio vai além da simples
restrição: passa pela promoção da alfabetização
digital e midiática, pelo desenvolvimento de
competências socioemocionais e pela criação de
espaços de convivência offline que favoreçam o
pertencimento, o diálogo e a construção da
identidade. Isso inclui a promoção de conversas
qualificadas sobre corpo, gênero, autoestima e
relações sociais, temas profundamente
atravessados pela lógica das redes.
Para os profissionais de saúde, investigar
o padrão de uso digital tornou-se parte
indispensável da avaliação clínica, assim como
sono, alimentação e atividade física. Ainda assim,
o enfrentamento desse problema não é
responsabilidade somente de indivíduos, famílias
e consultórios. O desafio exige que empresas de
tecnologia e políticas públicas atuem de forma
mais firme na limitação de mecanismos de design
viciantes e persuasivos e na implementação de
estratégias integradas entre saúde, educação e
regulação digital.
A relação entre os jovens e a tecnologia
não é um “problema” a ser eliminado, mas uma
realidade a ser gerenciada com inteligência. É
preciso superar a lógica simplista de “mais ou
menos tempo de tela” e adotar uma
abordagem mais sistêmica e que considere o contexto, o conteúdo e a intenção de cada
interação. No fim das contas, o maior indicador de
sucesso não é quantas horas um jovem passa
conectado, mas sua capacidade de se
desconectar com liberdade, propósito e, acima de
tudo, saúde mental.
*Luiz Zoldan é psiquiatra e gerente médico do Espaço
Einstein Bem-Estar e Saúde Mental
Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/letra-de-medico/alem-dotempo-de-tela-o-que-os-mais-jovens-tem-feito-no-celular/.
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- SintaxeFrase, Oração e PeríodoOração SubordinadaSubordinada Adjetiva
- SintaxeConectivos
- MorfologiaPronomesPronomes Relativos
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Além do tempo de tela: o que os mais jovens
têm feito no celular?
Qualidade da interação e dos conteúdos acessados
precisa estar no centro do debate sobre saúde mental
entre crianças e adolescentes
Por Luiz Zoldan*
Reduzir a crise de saúde mental entre
jovens ao “tempo de tela” é uma explicação
confortável – e perigosamente insuficiente. O
debate público precisa de um ajuste urgente: mais
do que contar horas, é preciso entender a
qualidade da interação desses adolescentes com
os dispositivos digitais.
Em consultórios, escolas e ambientes de
trabalho, a constatação é recorrente: a forma
como os jovens se relacionam consigo mesmos,
com os outros e com o mundo mudou
profundamente. E as telas ocupam um papel
central nessa transformação.
Vivemos em uma realidade na qual nunca
estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão
expostos a fatores que afetam a saúde mental,
especialmente entre crianças e adolescentes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
estima que mais de um em cada dez adolescentes
já manifesta um uso problemático de redes
sociais, com perda de controle e consequências
negativas no dia a dia.
Estudos consistentes associam o uso
excessivo de telas à piora nos indicadores de
saúde mental. Cerca de 25% dos adolescentes
que passam mais de 4 horas diárias em frente a
telas apresentam sintomas recentes de ansiedade
ou depressão. Evidências longitudinais também
confirmam que o aumento do tempo de exposição
está ligado a um maior risco de sofrimento
emocional a longo prazo.
O Brasil figura entre os países com maior
tempo de tela no mundo, ultrapassando 5 horas
diárias apenas em smartphones. Entre os
adolescentes brasileiros, os números são ainda
mais alarmantes, chegando a quase 6 horas em dias de semana e ultrapassando 8 horas nos fins
de semana.
O cenário nacional é marcado por três
desafios: o acesso a smartphones em idades cada
vez mais precoces, a desigualdade no acesso à
educação digital e a fragilidade na mediação por
parte de famílias e escolas. Diante disso, cresce a
percepção entre os próprios jovens de que algo
não vai bem: quase metade deles já considera que
as redes sociais impactam negativamente
pessoas da sua idade.
Ainda assim, é crucial qualificar a leitura
desses dados. A própria ciência mostra que o
impacto não é uniforme. O uso
passivo, caracterizado pela rolagem infinita e pela
comparação social, está mais associado ao malestar. Por outro lado, usos mais ativos e focados
na conexão podem ter um efeito protetor. O
problema central, portanto, não é apenas o tempo,
mas o padrão de uso. Comportamentos
compulsivos e de dependência estão mais ligados
a desfechos negativos do que o número absoluto
de horas.
Nesse contexto, avanços como a
atualização do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) e a aplicação da Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD) ao ambiente digital
são essenciais, pois reconhecem a
vulnerabilidade de crianças e adolescentes nesse
ecossistema. Essas iniciativas buscam
responsabilizar as plataformas, proteger dados e
reduzir a exposição a conteúdos nocivos.
Contudo, a regulação, sozinha, não resolve. Ela
cria um ambiente mais seguro, mas não substitui
a educação, o vínculo afetivo e o desenvolvimento
de repertório emocional.
Durante anos, a principal recomendação
foi limitar o tempo de tela. Embora essa
abordagem continue relevante, especialmente
para crianças mais novas, hoje sabemos que é
insuficiente. O verdadeiro problema não é apenas
o que acontece nas telas, mas o que deixa de
acontecer fora delas: sono de qualidade, atividade
física, convivência e a própria construção da
identidade são processos insubstituíveis para o
desenvolvimento psíquico.
O uso excessivo de telas, por exemplo,
está diretamente ligado a um sono mais curto e de
pior qualidade – um dos principais gatilhos para o sofrimento mental. Idealmente, um uso de
qualidade envolve interações sociais reais,
consumo de conteúdos educativos ou criativos e
intencionalidade, sem prejudicar o sono. Em
contrapartida, a utilização de risco é aquela em
que há comportamento compulsivo, comparação
social constante, exposição a conteúdos negativos
e a substituição de experiências presenciais por
virtuais.
Com base em evidências científicas e na
prática clínica, algumas medidas são
fundamentais. Para as famílias, é preciso
estabelecer acordos claros, evitar o uso de
aparelhos antes de dormir (especialmente porque
um terço dos adolescentes os utiliza depois da
meia-noite), acompanhar os
conteúdos acessados e, acima de tudo, dar o
exemplo. Isso implica reconhecer que muitos
adultos também mantêm uma relação excessiva,
distraída e pouco saudável com as telas, o
que compromete o ensino da autorregulação.
Nas escolas, o desafio vai além da simples
restrição: passa pela promoção da alfabetização
digital e midiática, pelo desenvolvimento de
competências socioemocionais e pela criação de
espaços de convivência offline que favoreçam o
pertencimento, o diálogo e a construção da
identidade. Isso inclui a promoção de conversas
qualificadas sobre corpo, gênero, autoestima e
relações sociais, temas profundamente
atravessados pela lógica das redes.
Para os profissionais de saúde, investigar
o padrão de uso digital tornou-se parte
indispensável da avaliação clínica, assim como
sono, alimentação e atividade física. Ainda assim,
o enfrentamento desse problema não é
responsabilidade somente de indivíduos, famílias
e consultórios. O desafio exige que empresas de
tecnologia e políticas públicas atuem de forma
mais firme na limitação de mecanismos de design
viciantes e persuasivos e na implementação de
estratégias integradas entre saúde, educação e
regulação digital.
A relação entre os jovens e a tecnologia
não é um “problema” a ser eliminado, mas uma
realidade a ser gerenciada com inteligência. É
preciso superar a lógica simplista de “mais ou
menos tempo de tela” e adotar uma
abordagem mais sistêmica e que considere o contexto, o conteúdo e a intenção de cada
interação. No fim das contas, o maior indicador de
sucesso não é quantas horas um jovem passa
conectado, mas sua capacidade de se
desconectar com liberdade, propósito e, acima de
tudo, saúde mental.
*Luiz Zoldan é psiquiatra e gerente médico do Espaço
Einstein Bem-Estar e Saúde Mental
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Qualidade da interação e dos conteúdos acessados
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entre crianças e adolescentes
Por Luiz Zoldan*
Reduzir a crise de saúde mental entre
jovens ao “tempo de tela” é uma explicação
confortável – e perigosamente insuficiente. O
debate público precisa de um ajuste urgente: mais
do que contar horas, é preciso entender a
qualidade da interação desses adolescentes com
os dispositivos digitais.
Em consultórios, escolas e ambientes de
trabalho, a constatação é recorrente: a forma
como os jovens se relacionam consigo mesmos,
com os outros e com o mundo mudou
profundamente. E as telas ocupam um papel
central nessa transformação.
Vivemos em uma realidade na qual nunca
estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão
expostos a fatores que afetam a saúde mental,
especialmente entre crianças e adolescentes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
estima que mais de um em cada dez adolescentes
já manifesta um uso problemático de redes
sociais, com perda de controle e consequências
negativas no dia a dia.
Estudos consistentes associam o uso
excessivo de telas à piora nos indicadores de
saúde mental. Cerca de 25% dos adolescentes
que passam mais de 4 horas diárias em frente a
telas apresentam sintomas recentes de ansiedade
ou depressão. Evidências longitudinais também
confirmam que o aumento do tempo de exposição
está ligado a um maior risco de sofrimento
emocional a longo prazo.
O Brasil figura entre os países com maior
tempo de tela no mundo, ultrapassando 5 horas
diárias apenas em smartphones. Entre os
adolescentes brasileiros, os números são ainda
mais alarmantes, chegando a quase 6 horas em dias de semana e ultrapassando 8 horas nos fins
de semana.
O cenário nacional é marcado por três
desafios: o acesso a smartphones em idades cada
vez mais precoces, a desigualdade no acesso à
educação digital e a fragilidade na mediação por
parte de famílias e escolas. Diante disso, cresce a
percepção entre os próprios jovens de que algo
não vai bem: quase metade deles já considera que
as redes sociais impactam negativamente
pessoas da sua idade.
Ainda assim, é crucial qualificar a leitura
desses dados. A própria ciência mostra que o
impacto não é uniforme. O uso
passivo, caracterizado pela rolagem infinita e pela
comparação social, está mais associado ao malestar. Por outro lado, usos mais ativos e focados
na conexão podem ter um efeito protetor. O
problema central, portanto, não é apenas o tempo,
mas o padrão de uso. Comportamentos
compulsivos e de dependência estão mais ligados
a desfechos negativos do que o número absoluto
de horas.
Nesse contexto, avanços como a
atualização do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) e a aplicação da Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD) ao ambiente digital
são essenciais, pois reconhecem a
vulnerabilidade de crianças e adolescentes nesse
ecossistema. Essas iniciativas buscam
responsabilizar as plataformas, proteger dados e
reduzir a exposição a conteúdos nocivos.
Contudo, a regulação, sozinha, não resolve. Ela
cria um ambiente mais seguro, mas não substitui
a educação, o vínculo afetivo e o desenvolvimento
de repertório emocional.
Durante anos, a principal recomendação
foi limitar o tempo de tela. Embora essa
abordagem continue relevante, especialmente
para crianças mais novas, hoje sabemos que é
insuficiente. O verdadeiro problema não é apenas
o que acontece nas telas, mas o que deixa de
acontecer fora delas: sono de qualidade, atividade
física, convivência e a própria construção da
identidade são processos insubstituíveis para o
desenvolvimento psíquico.
O uso excessivo de telas, por exemplo,
está diretamente ligado a um sono mais curto e de
pior qualidade – um dos principais gatilhos para o sofrimento mental. Idealmente, um uso de
qualidade envolve interações sociais reais,
consumo de conteúdos educativos ou criativos e
intencionalidade, sem prejudicar o sono. Em
contrapartida, a utilização de risco é aquela em
que há comportamento compulsivo, comparação
social constante, exposição a conteúdos negativos
e a substituição de experiências presenciais por
virtuais.
Com base em evidências científicas e na
prática clínica, algumas medidas são
fundamentais. Para as famílias, é preciso
estabelecer acordos claros, evitar o uso de
aparelhos antes de dormir (especialmente porque
um terço dos adolescentes os utiliza depois da
meia-noite), acompanhar os
conteúdos acessados e, acima de tudo, dar o
exemplo. Isso implica reconhecer que muitos
adultos também mantêm uma relação excessiva,
distraída e pouco saudável com as telas, o
que compromete o ensino da autorregulação.
Nas escolas, o desafio vai além da simples
restrição: passa pela promoção da alfabetização
digital e midiática, pelo desenvolvimento de
competências socioemocionais e pela criação de
espaços de convivência offline que favoreçam o
pertencimento, o diálogo e a construção da
identidade. Isso inclui a promoção de conversas
qualificadas sobre corpo, gênero, autoestima e
relações sociais, temas profundamente
atravessados pela lógica das redes.
Para os profissionais de saúde, investigar
o padrão de uso digital tornou-se parte
indispensável da avaliação clínica, assim como
sono, alimentação e atividade física. Ainda assim,
o enfrentamento desse problema não é
responsabilidade somente de indivíduos, famílias
e consultórios. O desafio exige que empresas de
tecnologia e políticas públicas atuem de forma
mais firme na limitação de mecanismos de design
viciantes e persuasivos e na implementação de
estratégias integradas entre saúde, educação e
regulação digital.
A relação entre os jovens e a tecnologia
não é um “problema” a ser eliminado, mas uma
realidade a ser gerenciada com inteligência. É
preciso superar a lógica simplista de “mais ou
menos tempo de tela” e adotar uma
abordagem mais sistêmica e que considere o contexto, o conteúdo e a intenção de cada
interação. No fim das contas, o maior indicador de
sucesso não é quantas horas um jovem passa
conectado, mas sua capacidade de se
desconectar com liberdade, propósito e, acima de
tudo, saúde mental.
*Luiz Zoldan é psiquiatra e gerente médico do Espaço
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Além do tempo de tela: o que os mais jovens
têm feito no celular?
Qualidade da interação e dos conteúdos acessados
precisa estar no centro do debate sobre saúde mental
entre crianças e adolescentes
Por Luiz Zoldan*
Reduzir a crise de saúde mental entre
jovens ao “tempo de tela” é uma explicação
confortável – e perigosamente insuficiente. O
debate público precisa de um ajuste urgente: mais
do que contar horas, é preciso entender a
qualidade da interação desses adolescentes com
os dispositivos digitais.
Em consultórios, escolas e ambientes de
trabalho, a constatação é recorrente: a forma
como os jovens se relacionam consigo mesmos,
com os outros e com o mundo mudou
profundamente. E as telas ocupam um papel
central nessa transformação.
Vivemos em uma realidade na qual nunca
estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão
expostos a fatores que afetam a saúde mental,
especialmente entre crianças e adolescentes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
estima que mais de um em cada dez adolescentes
já manifesta um uso problemático de redes
sociais, com perda de controle e consequências
negativas no dia a dia.
Estudos consistentes associam o uso
excessivo de telas à piora nos indicadores de
saúde mental. Cerca de 25% dos adolescentes
que passam mais de 4 horas diárias em frente a
telas apresentam sintomas recentes de ansiedade
ou depressão. Evidências longitudinais também
confirmam que o aumento do tempo de exposição
está ligado a um maior risco de sofrimento
emocional a longo prazo.
O Brasil figura entre os países com maior
tempo de tela no mundo, ultrapassando 5 horas
diárias apenas em smartphones. Entre os
adolescentes brasileiros, os números são ainda
mais alarmantes, chegando a quase 6 horas em dias de semana e ultrapassando 8 horas nos fins
de semana.
O cenário nacional é marcado por três
desafios: o acesso a smartphones em idades cada
vez mais precoces, a desigualdade no acesso à
educação digital e a fragilidade na mediação por
parte de famílias e escolas. Diante disso, cresce a
percepção entre os próprios jovens de que algo
não vai bem: quase metade deles já considera que
as redes sociais impactam negativamente
pessoas da sua idade.
Ainda assim, é crucial qualificar a leitura
desses dados. A própria ciência mostra que o
impacto não é uniforme. O uso
passivo, caracterizado pela rolagem infinita e pela
comparação social, está mais associado ao malestar. Por outro lado, usos mais ativos e focados
na conexão podem ter um efeito protetor. O
problema central, portanto, não é apenas o tempo,
mas o padrão de uso. Comportamentos
compulsivos e de dependência estão mais ligados
a desfechos negativos do que o número absoluto
de horas.
Nesse contexto, avanços como a
atualização do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) e a aplicação da Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD) ao ambiente digital
são essenciais, pois reconhecem a
vulnerabilidade de crianças e adolescentes nesse
ecossistema. Essas iniciativas buscam
responsabilizar as plataformas, proteger dados e
reduzir a exposição a conteúdos nocivos.
Contudo, a regulação, sozinha, não resolve. Ela
cria um ambiente mais seguro, mas não substitui
a educação, o vínculo afetivo e o desenvolvimento
de repertório emocional.
Durante anos, a principal recomendação
foi limitar o tempo de tela. Embora essa
abordagem continue relevante, especialmente
para crianças mais novas, hoje sabemos que é
insuficiente. O verdadeiro problema não é apenas
o que acontece nas telas, mas o que deixa de
acontecer fora delas: sono de qualidade, atividade
física, convivência e a própria construção da
identidade são processos insubstituíveis para o
desenvolvimento psíquico.
O uso excessivo de telas, por exemplo,
está diretamente ligado a um sono mais curto e de
pior qualidade – um dos principais gatilhos para o sofrimento mental. Idealmente, um uso de
qualidade envolve interações sociais reais,
consumo de conteúdos educativos ou criativos e
intencionalidade, sem prejudicar o sono. Em
contrapartida, a utilização de risco é aquela em
que há comportamento compulsivo, comparação
social constante, exposição a conteúdos negativos
e a substituição de experiências presenciais por
virtuais.
Com base em evidências científicas e na
prática clínica, algumas medidas são
fundamentais. Para as famílias, é preciso
estabelecer acordos claros, evitar o uso de
aparelhos antes de dormir (especialmente porque
um terço dos adolescentes os utiliza depois da
meia-noite), acompanhar os
conteúdos acessados e, acima de tudo, dar o
exemplo. Isso implica reconhecer que muitos
adultos também mantêm uma relação excessiva,
distraída e pouco saudável com as telas, o
que compromete o ensino da autorregulação.
Nas escolas, o desafio vai além da simples
restrição: passa pela promoção da alfabetização
digital e midiática, pelo desenvolvimento de
competências socioemocionais e pela criação de
espaços de convivência offline que favoreçam o
pertencimento, o diálogo e a construção da
identidade. Isso inclui a promoção de conversas
qualificadas sobre corpo, gênero, autoestima e
relações sociais, temas profundamente
atravessados pela lógica das redes.
Para os profissionais de saúde, investigar
o padrão de uso digital tornou-se parte
indispensável da avaliação clínica, assim como
sono, alimentação e atividade física. Ainda assim,
o enfrentamento desse problema não é
responsabilidade somente de indivíduos, famílias
e consultórios. O desafio exige que empresas de
tecnologia e políticas públicas atuem de forma
mais firme na limitação de mecanismos de design
viciantes e persuasivos e na implementação de
estratégias integradas entre saúde, educação e
regulação digital.
A relação entre os jovens e a tecnologia
não é um “problema” a ser eliminado, mas uma
realidade a ser gerenciada com inteligência. É
preciso superar a lógica simplista de “mais ou
menos tempo de tela” e adotar uma
abordagem mais sistêmica e que considere o contexto, o conteúdo e a intenção de cada
interação. No fim das contas, o maior indicador de
sucesso não é quantas horas um jovem passa
conectado, mas sua capacidade de se
desconectar com liberdade, propósito e, acima de
tudo, saúde mental.
*Luiz Zoldan é psiquiatra e gerente médico do Espaço
Einstein Bem-Estar e Saúde Mental
Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/letra-de-medico/alem-dotempo-de-tela-o-que-os-mais-jovens-tem-feito-no-celular/.
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Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto a seguir e responda a questão.
Além do tempo de tela: o que os mais jovens
têm feito no celular?
Qualidade da interação e dos conteúdos acessados
precisa estar no centro do debate sobre saúde mental
entre crianças e adolescentes
Por Luiz Zoldan*
Reduzir a crise de saúde mental entre
jovens ao “tempo de tela” é uma explicação
confortável – e perigosamente insuficiente. O
debate público precisa de um ajuste urgente: mais
do que contar horas, é preciso entender a
qualidade da interação desses adolescentes com
os dispositivos digitais.
Em consultórios, escolas e ambientes de
trabalho, a constatação é recorrente: a forma
como os jovens se relacionam consigo mesmos,
com os outros e com o mundo mudou
profundamente. E as telas ocupam um papel
central nessa transformação.
Vivemos em uma realidade na qual nunca
estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão
expostos a fatores que afetam a saúde mental,
especialmente entre crianças e adolescentes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
estima que mais de um em cada dez adolescentes
já manifesta um uso problemático de redes
sociais, com perda de controle e consequências
negativas no dia a dia.
Estudos consistentes associam o uso
excessivo de telas à piora nos indicadores de
saúde mental. Cerca de 25% dos adolescentes
que passam mais de 4 horas diárias em frente a
telas apresentam sintomas recentes de ansiedade
ou depressão. Evidências longitudinais também
confirmam que o aumento do tempo de exposição
está ligado a um maior risco de sofrimento
emocional a longo prazo.
O Brasil figura entre os países com maior
tempo de tela no mundo, ultrapassando 5 horas
diárias apenas em smartphones. Entre os
adolescentes brasileiros, os números são ainda
mais alarmantes, chegando a quase 6 horas em dias de semana e ultrapassando 8 horas nos fins
de semana.
O cenário nacional é marcado por três
desafios: o acesso a smartphones em idades cada
vez mais precoces, a desigualdade no acesso à
educação digital e a fragilidade na mediação por
parte de famílias e escolas. Diante disso, cresce a
percepção entre os próprios jovens de que algo
não vai bem: quase metade deles já considera que
as redes sociais impactam negativamente
pessoas da sua idade.
Ainda assim, é crucial qualificar a leitura
desses dados. A própria ciência mostra que o
impacto não é uniforme. O uso
passivo, caracterizado pela rolagem infinita e pela
comparação social, está mais associado ao malestar. Por outro lado, usos mais ativos e focados
na conexão podem ter um efeito protetor. O
problema central, portanto, não é apenas o tempo,
mas o padrão de uso. Comportamentos
compulsivos e de dependência estão mais ligados
a desfechos negativos do que o número absoluto
de horas.
Nesse contexto, avanços como a
atualização do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) e a aplicação da Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD) ao ambiente digital
são essenciais, pois reconhecem a
vulnerabilidade de crianças e adolescentes nesse
ecossistema. Essas iniciativas buscam
responsabilizar as plataformas, proteger dados e
reduzir a exposição a conteúdos nocivos.
Contudo, a regulação, sozinha, não resolve. Ela
cria um ambiente mais seguro, mas não substitui
a educação, o vínculo afetivo e o desenvolvimento
de repertório emocional.
Durante anos, a principal recomendação
foi limitar o tempo de tela. Embora essa
abordagem continue relevante, especialmente
para crianças mais novas, hoje sabemos que é
insuficiente. O verdadeiro problema não é apenas
o que acontece nas telas, mas o que deixa de
acontecer fora delas: sono de qualidade, atividade
física, convivência e a própria construção da
identidade são processos insubstituíveis para o
desenvolvimento psíquico.
O uso excessivo de telas, por exemplo,
está diretamente ligado a um sono mais curto e de
pior qualidade – um dos principais gatilhos para o sofrimento mental. Idealmente, um uso de
qualidade envolve interações sociais reais,
consumo de conteúdos educativos ou criativos e
intencionalidade, sem prejudicar o sono. Em
contrapartida, a utilização de risco é aquela em
que há comportamento compulsivo, comparação
social constante, exposição a conteúdos negativos
e a substituição de experiências presenciais por
virtuais.
Com base em evidências científicas e na
prática clínica, algumas medidas são
fundamentais. Para as famílias, é preciso
estabelecer acordos claros, evitar o uso de
aparelhos antes de dormir (especialmente porque
um terço dos adolescentes os utiliza depois da
meia-noite), acompanhar os
conteúdos acessados e, acima de tudo, dar o
exemplo. Isso implica reconhecer que muitos
adultos também mantêm uma relação excessiva,
distraída e pouco saudável com as telas, o
que compromete o ensino da autorregulação.
Nas escolas, o desafio vai além da simples
restrição: passa pela promoção da alfabetização
digital e midiática, pelo desenvolvimento de
competências socioemocionais e pela criação de
espaços de convivência offline que favoreçam o
pertencimento, o diálogo e a construção da
identidade. Isso inclui a promoção de conversas
qualificadas sobre corpo, gênero, autoestima e
relações sociais, temas profundamente
atravessados pela lógica das redes.
Para os profissionais de saúde, investigar
o padrão de uso digital tornou-se parte
indispensável da avaliação clínica, assim como
sono, alimentação e atividade física. Ainda assim,
o enfrentamento desse problema não é
responsabilidade somente de indivíduos, famílias
e consultórios. O desafio exige que empresas de
tecnologia e políticas públicas atuem de forma
mais firme na limitação de mecanismos de design
viciantes e persuasivos e na implementação de
estratégias integradas entre saúde, educação e
regulação digital.
A relação entre os jovens e a tecnologia
não é um “problema” a ser eliminado, mas uma
realidade a ser gerenciada com inteligência. É
preciso superar a lógica simplista de “mais ou
menos tempo de tela” e adotar uma
abordagem mais sistêmica e que considere o contexto, o conteúdo e a intenção de cada
interação. No fim das contas, o maior indicador de
sucesso não é quantas horas um jovem passa
conectado, mas sua capacidade de se
desconectar com liberdade, propósito e, acima de
tudo, saúde mental.
*Luiz Zoldan é psiquiatra e gerente médico do Espaço
Einstein Bem-Estar e Saúde Mental
Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/letra-de-medico/alem-dotempo-de-tela-o-que-os-mais-jovens-tem-feito-no-celular/.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto a seguir e responda a questão.
Além do tempo de tela: o que os mais jovens
têm feito no celular?
Qualidade da interação e dos conteúdos acessados
precisa estar no centro do debate sobre saúde mental
entre crianças e adolescentes
Por Luiz Zoldan*
Reduzir a crise de saúde mental entre
jovens ao “tempo de tela” é uma explicação
confortável – e perigosamente insuficiente. O
debate público precisa de um ajuste urgente: mais
do que contar horas, é preciso entender a
qualidade da interação desses adolescentes com
os dispositivos digitais.
Em consultórios, escolas e ambientes de
trabalho, a constatação é recorrente: a forma
como os jovens se relacionam consigo mesmos,
com os outros e com o mundo mudou
profundamente. E as telas ocupam um papel
central nessa transformação.
Vivemos em uma realidade na qual nunca
estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão
expostos a fatores que afetam a saúde mental,
especialmente entre crianças e adolescentes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
estima que mais de um em cada dez adolescentes
já manifesta um uso problemático de redes
sociais, com perda de controle e consequências
negativas no dia a dia.
Estudos consistentes associam o uso
excessivo de telas à piora nos indicadores de
saúde mental. Cerca de 25% dos adolescentes
que passam mais de 4 horas diárias em frente a
telas apresentam sintomas recentes de ansiedade
ou depressão. Evidências longitudinais também
confirmam que o aumento do tempo de exposição
está ligado a um maior risco de sofrimento
emocional a longo prazo.
O Brasil figura entre os países com maior
tempo de tela no mundo, ultrapassando 5 horas
diárias apenas em smartphones. Entre os
adolescentes brasileiros, os números são ainda
mais alarmantes, chegando a quase 6 horas em dias de semana e ultrapassando 8 horas nos fins
de semana.
O cenário nacional é marcado por três
desafios: o acesso a smartphones em idades cada
vez mais precoces, a desigualdade no acesso à
educação digital e a fragilidade na mediação por
parte de famílias e escolas. Diante disso, cresce a
percepção entre os próprios jovens de que algo
não vai bem: quase metade deles já considera que
as redes sociais impactam negativamente
pessoas da sua idade.
Ainda assim, é crucial qualificar a leitura
desses dados. A própria ciência mostra que o
impacto não é uniforme. O uso
passivo, caracterizado pela rolagem infinita e pela
comparação social, está mais associado ao malestar. Por outro lado, usos mais ativos e focados
na conexão podem ter um efeito protetor. O
problema central, portanto, não é apenas o tempo,
mas o padrão de uso. Comportamentos
compulsivos e de dependência estão mais ligados
a desfechos negativos do que o número absoluto
de horas.
Nesse contexto, avanços como a
atualização do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) e a aplicação da Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD) ao ambiente digital
são essenciais, pois reconhecem a
vulnerabilidade de crianças e adolescentes nesse
ecossistema. Essas iniciativas buscam
responsabilizar as plataformas, proteger dados e
reduzir a exposição a conteúdos nocivos.
Contudo, a regulação, sozinha, não resolve. Ela
cria um ambiente mais seguro, mas não substitui
a educação, o vínculo afetivo e o desenvolvimento
de repertório emocional.
Durante anos, a principal recomendação
foi limitar o tempo de tela. Embora essa
abordagem continue relevante, especialmente
para crianças mais novas, hoje sabemos que é
insuficiente. O verdadeiro problema não é apenas
o que acontece nas telas, mas o que deixa de
acontecer fora delas: sono de qualidade, atividade
física, convivência e a própria construção da
identidade são processos insubstituíveis para o
desenvolvimento psíquico.
O uso excessivo de telas, por exemplo,
está diretamente ligado a um sono mais curto e de
pior qualidade – um dos principais gatilhos para o sofrimento mental. Idealmente, um uso de
qualidade envolve interações sociais reais,
consumo de conteúdos educativos ou criativos e
intencionalidade, sem prejudicar o sono. Em
contrapartida, a utilização de risco é aquela em
que há comportamento compulsivo, comparação
social constante, exposição a conteúdos negativos
e a substituição de experiências presenciais por
virtuais.
Com base em evidências científicas e na
prática clínica, algumas medidas são
fundamentais. Para as famílias, é preciso
estabelecer acordos claros, evitar o uso de
aparelhos antes de dormir (especialmente porque
um terço dos adolescentes os utiliza depois da
meia-noite), acompanhar os
conteúdos acessados e, acima de tudo, dar o
exemplo. Isso implica reconhecer que muitos
adultos também mantêm uma relação excessiva,
distraída e pouco saudável com as telas, o
que compromete o ensino da autorregulação.
Nas escolas, o desafio vai além da simples
restrição: passa pela promoção da alfabetização
digital e midiática, pelo desenvolvimento de
competências socioemocionais e pela criação de
espaços de convivência offline que favoreçam o
pertencimento, o diálogo e a construção da
identidade. Isso inclui a promoção de conversas
qualificadas sobre corpo, gênero, autoestima e
relações sociais, temas profundamente
atravessados pela lógica das redes.
Para os profissionais de saúde, investigar
o padrão de uso digital tornou-se parte
indispensável da avaliação clínica, assim como
sono, alimentação e atividade física. Ainda assim,
o enfrentamento desse problema não é
responsabilidade somente de indivíduos, famílias
e consultórios. O desafio exige que empresas de
tecnologia e políticas públicas atuem de forma
mais firme na limitação de mecanismos de design
viciantes e persuasivos e na implementação de
estratégias integradas entre saúde, educação e
regulação digital.
A relação entre os jovens e a tecnologia
não é um “problema” a ser eliminado, mas uma
realidade a ser gerenciada com inteligência. É
preciso superar a lógica simplista de “mais ou
menos tempo de tela” e adotar uma
abordagem mais sistêmica e que considere o contexto, o conteúdo e a intenção de cada
interação. No fim das contas, o maior indicador de
sucesso não é quantas horas um jovem passa
conectado, mas sua capacidade de se
desconectar com liberdade, propósito e, acima de
tudo, saúde mental.
*Luiz Zoldan é psiquiatra e gerente médico do Espaço
Einstein Bem-Estar e Saúde Mental
Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/letra-de-medico/alem-dotempo-de-tela-o-que-os-mais-jovens-tem-feito-no-celular/.
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Além do tempo de tela: o que os mais jovens
têm feito no celular?
Qualidade da interação e dos conteúdos acessados
precisa estar no centro do debate sobre saúde mental
entre crianças e adolescentes
Por Luiz Zoldan*
Reduzir a crise de saúde mental entre
jovens ao “tempo de tela” é uma explicação
confortável – e perigosamente insuficiente. O
debate público precisa de um ajuste urgente: mais
do que contar horas, é preciso entender a
qualidade da interação desses adolescentes com
os dispositivos digitais.
Em consultórios, escolas e ambientes de
trabalho, a constatação é recorrente: a forma
como os jovens se relacionam consigo mesmos,
com os outros e com o mundo mudou
profundamente. E as telas ocupam um papel
central nessa transformação.
Vivemos em uma realidade na qual nunca
estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão
expostos a fatores que afetam a saúde mental,
especialmente entre crianças e adolescentes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
estima que mais de um em cada dez adolescentes
já manifesta um uso problemático de redes
sociais, com perda de controle e consequências
negativas no dia a dia.
Estudos consistentes associam o uso
excessivo de telas à piora nos indicadores de
saúde mental. Cerca de 25% dos adolescentes
que passam mais de 4 horas diárias em frente a
telas apresentam sintomas recentes de ansiedade
ou depressão. Evidências longitudinais também
confirmam que o aumento do tempo de exposição
está ligado a um maior risco de sofrimento
emocional a longo prazo.
O Brasil figura entre os países com maior
tempo de tela no mundo, ultrapassando 5 horas
diárias apenas em smartphones. Entre os
adolescentes brasileiros, os números são ainda
mais alarmantes, chegando a quase 6 horas em dias de semana e ultrapassando 8 horas nos fins
de semana.
O cenário nacional é marcado por três
desafios: o acesso a smartphones em idades cada
vez mais precoces, a desigualdade no acesso à
educação digital e a fragilidade na mediação por
parte de famílias e escolas. Diante disso, cresce a
percepção entre os próprios jovens de que algo
não vai bem: quase metade deles já considera que
as redes sociais impactam negativamente
pessoas da sua idade.
Ainda assim, é crucial qualificar a leitura
desses dados. A própria ciência mostra que o
impacto não é uniforme. O uso
passivo, caracterizado pela rolagem infinita e pela
comparação social, está mais associado ao malestar. Por outro lado, usos mais ativos e focados
na conexão podem ter um efeito protetor. O
problema central, portanto, não é apenas o tempo,
mas o padrão de uso. Comportamentos
compulsivos e de dependência estão mais ligados
a desfechos negativos do que o número absoluto
de horas.
Nesse contexto, avanços como a
atualização do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) e a aplicação da Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD) ao ambiente digital
são essenciais, pois reconhecem a
vulnerabilidade de crianças e adolescentes nesse
ecossistema. Essas iniciativas buscam
responsabilizar as plataformas, proteger dados e
reduzir a exposição a conteúdos nocivos.
Contudo, a regulação, sozinha, não resolve. Ela
cria um ambiente mais seguro, mas não substitui
a educação, o vínculo afetivo e o desenvolvimento
de repertório emocional.
Durante anos, a principal recomendação
foi limitar o tempo de tela. Embora essa
abordagem continue relevante, especialmente
para crianças mais novas, hoje sabemos que é
insuficiente. O verdadeiro problema não é apenas
o que acontece nas telas, mas o que deixa de
acontecer fora delas: sono de qualidade, atividade
física, convivência e a própria construção da
identidade são processos insubstituíveis para o
desenvolvimento psíquico.
O uso excessivo de telas, por exemplo,
está diretamente ligado a um sono mais curto e de
pior qualidade – um dos principais gatilhos para o sofrimento mental. Idealmente, um uso de
qualidade envolve interações sociais reais,
consumo de conteúdos educativos ou criativos e
intencionalidade, sem prejudicar o sono. Em
contrapartida, a utilização de risco é aquela em
que há comportamento compulsivo, comparação
social constante, exposição a conteúdos negativos
e a substituição de experiências presenciais por
virtuais.
Com base em evidências científicas e na
prática clínica, algumas medidas são
fundamentais. Para as famílias, é preciso
estabelecer acordos claros, evitar o uso de
aparelhos antes de dormir (especialmente porque
um terço dos adolescentes os utiliza depois da
meia-noite), acompanhar os
conteúdos acessados e, acima de tudo, dar o
exemplo. Isso implica reconhecer que muitos
adultos também mantêm uma relação excessiva,
distraída e pouco saudável com as telas, o
que compromete o ensino da autorregulação.
Nas escolas, o desafio vai além da simples
restrição: passa pela promoção da alfabetização
digital e midiática, pelo desenvolvimento de
competências socioemocionais e pela criação de
espaços de convivência offline que favoreçam o
pertencimento, o diálogo e a construção da
identidade. Isso inclui a promoção de conversas
qualificadas sobre corpo, gênero, autoestima e
relações sociais, temas profundamente
atravessados pela lógica das redes.
Para os profissionais de saúde, investigar
o padrão de uso digital tornou-se parte
indispensável da avaliação clínica, assim como
sono, alimentação e atividade física. Ainda assim,
o enfrentamento desse problema não é
responsabilidade somente de indivíduos, famílias
e consultórios. O desafio exige que empresas de
tecnologia e políticas públicas atuem de forma
mais firme na limitação de mecanismos de design
viciantes e persuasivos e na implementação de
estratégias integradas entre saúde, educação e
regulação digital.
A relação entre os jovens e a tecnologia
não é um “problema” a ser eliminado, mas uma
realidade a ser gerenciada com inteligência. É
preciso superar a lógica simplista de “mais ou
menos tempo de tela” e adotar uma
abordagem mais sistêmica e que considere o contexto, o conteúdo e a intenção de cada
interação. No fim das contas, o maior indicador de
sucesso não é quantas horas um jovem passa
conectado, mas sua capacidade de se
desconectar com liberdade, propósito e, acima de
tudo, saúde mental.
*Luiz Zoldan é psiquiatra e gerente médico do Espaço
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Além do tempo de tela: o que os mais jovens
têm feito no celular?
Qualidade da interação e dos conteúdos acessados
precisa estar no centro do debate sobre saúde mental
entre crianças e adolescentes
Por Luiz Zoldan*
Reduzir a crise de saúde mental entre
jovens ao “tempo de tela” é uma explicação
confortável – e perigosamente insuficiente. O
debate público precisa de um ajuste urgente: mais
do que contar horas, é preciso entender a
qualidade da interação desses adolescentes com
os dispositivos digitais.
Em consultórios, escolas e ambientes de
trabalho, a constatação é recorrente: a forma
como os jovens se relacionam consigo mesmos,
com os outros e com o mundo mudou
profundamente. E as telas ocupam um papel
central nessa transformação.
Vivemos em uma realidade na qual nunca
estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão
expostos a fatores que afetam a saúde mental,
especialmente entre crianças e adolescentes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
estima que mais de um em cada dez adolescentes
já manifesta um uso problemático de redes
sociais, com perda de controle e consequências
negativas no dia a dia.
Estudos consistentes associam o uso
excessivo de telas à piora nos indicadores de
saúde mental. Cerca de 25% dos adolescentes
que passam mais de 4 horas diárias em frente a
telas apresentam sintomas recentes de ansiedade
ou depressão. Evidências longitudinais também
confirmam que o aumento do tempo de exposição
está ligado a um maior risco de sofrimento
emocional a longo prazo.
O Brasil figura entre os países com maior
tempo de tela no mundo, ultrapassando 5 horas
diárias apenas em smartphones. Entre os
adolescentes brasileiros, os números são ainda
mais alarmantes, chegando a quase 6 horas em dias de semana e ultrapassando 8 horas nos fins
de semana.
O cenário nacional é marcado por três
desafios: o acesso a smartphones em idades cada
vez mais precoces, a desigualdade no acesso à
educação digital e a fragilidade na mediação por
parte de famílias e escolas. Diante disso, cresce a
percepção entre os próprios jovens de que algo
não vai bem: quase metade deles já considera que
as redes sociais impactam negativamente
pessoas da sua idade.
Ainda assim, é crucial qualificar a leitura
desses dados. A própria ciência mostra que o
impacto não é uniforme. O uso
passivo, caracterizado pela rolagem infinita e pela
comparação social, está mais associado ao malestar. Por outro lado, usos mais ativos e focados
na conexão podem ter um efeito protetor. O
problema central, portanto, não é apenas o tempo,
mas o padrão de uso. Comportamentos
compulsivos e de dependência estão mais ligados
a desfechos negativos do que o número absoluto
de horas.
Nesse contexto, avanços como a
atualização do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) e a aplicação da Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD) ao ambiente digital
são essenciais, pois reconhecem a
vulnerabilidade de crianças e adolescentes nesse
ecossistema. Essas iniciativas buscam
responsabilizar as plataformas, proteger dados e
reduzir a exposição a conteúdos nocivos.
Contudo, a regulação, sozinha, não resolve. Ela
cria um ambiente mais seguro, mas não substitui
a educação, o vínculo afetivo e o desenvolvimento
de repertório emocional.
Durante anos, a principal recomendação
foi limitar o tempo de tela. Embora essa
abordagem continue relevante, especialmente
para crianças mais novas, hoje sabemos que é
insuficiente. O verdadeiro problema não é apenas
o que acontece nas telas, mas o que deixa de
acontecer fora delas: sono de qualidade, atividade
física, convivência e a própria construção da
identidade são processos insubstituíveis para o
desenvolvimento psíquico.
O uso excessivo de telas, por exemplo,
está diretamente ligado a um sono mais curto e de
pior qualidade – um dos principais gatilhos para o sofrimento mental. Idealmente, um uso de
qualidade envolve interações sociais reais,
consumo de conteúdos educativos ou criativos e
intencionalidade, sem prejudicar o sono. Em
contrapartida, a utilização de risco é aquela em
que há comportamento compulsivo, comparação
social constante, exposição a conteúdos negativos
e a substituição de experiências presenciais por
virtuais.
Com base em evidências científicas e na
prática clínica, algumas medidas são
fundamentais. Para as famílias, é preciso
estabelecer acordos claros, evitar o uso de
aparelhos antes de dormir (especialmente porque
um terço dos adolescentes os utiliza depois da
meia-noite), acompanhar os
conteúdos acessados e, acima de tudo, dar o
exemplo. Isso implica reconhecer que muitos
adultos também mantêm uma relação excessiva,
distraída e pouco saudável com as telas, o
que compromete o ensino da autorregulação.
Nas escolas, o desafio vai além da simples
restrição: passa pela promoção da alfabetização
digital e midiática, pelo desenvolvimento de
competências socioemocionais e pela criação de
espaços de convivência offline que favoreçam o
pertencimento, o diálogo e a construção da
identidade. Isso inclui a promoção de conversas
qualificadas sobre corpo, gênero, autoestima e
relações sociais, temas profundamente
atravessados pela lógica das redes.
Para os profissionais de saúde, investigar
o padrão de uso digital tornou-se parte
indispensável da avaliação clínica, assim como
sono, alimentação e atividade física. Ainda assim,
o enfrentamento desse problema não é
responsabilidade somente de indivíduos, famílias
e consultórios. O desafio exige que empresas de
tecnologia e políticas públicas atuem de forma
mais firme na limitação de mecanismos de design
viciantes e persuasivos e na implementação de
estratégias integradas entre saúde, educação e
regulação digital.
A relação entre os jovens e a tecnologia
não é um “problema” a ser eliminado, mas uma
realidade a ser gerenciada com inteligência. É
preciso superar a lógica simplista de “mais ou
menos tempo de tela” e adotar uma
abordagem mais sistêmica e que considere o contexto, o conteúdo e a intenção de cada
interação. No fim das contas, o maior indicador de
sucesso não é quantas horas um jovem passa
conectado, mas sua capacidade de se
desconectar com liberdade, propósito e, acima de
tudo, saúde mental.
*Luiz Zoldan é psiquiatra e gerente médico do Espaço
Einstein Bem-Estar e Saúde Mental
Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/letra-de-medico/alem-dotempo-de-tela-o-que-os-mais-jovens-tem-feito-no-celular/.
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