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Texto I
Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes, podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo.
Assinale a alternativa cuja reescrita mantém o mesmo sentido do trecho destacado.
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Texto I
Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
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Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
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Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Texto I
Rumo a um turboconsumidor
Desde o fim dos anos 1970, enquanto a tecnologização moderna dos lares é quase generalizada,
desenvolve-se seu pluriequipamento, que significa a passagem de um consumo ordenado pela família a
um consumo centrado no indivíduo. Os efeitos dessa multiplicação dos objetos pessoais são importantes,
podendo cada um, dessa maneira, organizar sua vida privada em seu próprio ritmo. Recursos de telefonia
e de multimídia provocaram a hiperindividualização da utilização dos bens de consumo, das defasagens
dos ritmos no interior da família, da dessincronização das atividades cotidianas e dos empregos do
tempo. Em suas bandeiras, a sociedade de hiperconsumo pode escrever em letras triunfantes: “Cada
um com seus objetos, cada um com seu uso, cada um com seu ritmo de vida”.
A sociedade de hiperconsumo, longe de arruinar o sistema do desejo e do consumo, empenha-se,
não sem sucesso, em mantê-lo cada vez mais desperto, ampliando seu regime temporal. A lógica do
turboconsumismo encontra sua realização nas redes eletrônicas, graças às compras pela internet. O
ciberconsumidor liberta-se de todos os entraves espaço-temporais. Há supressão das barreiras ligadas
não apenas ao espaço, mas também ao acesso à informação: graças aos sites de comparação de
preços, o internauta pode informar-se em tempo real sobre os produtos e serviços, compará-los a
qualquer hora antes de fazer sua escolha. É um sistema de informação sem limite, sem coerção de
tempo e de lugar que especifica a época do turboconsumismo.
O turboconsumidor tornou-se, portanto, um doente da urgência, prisioneiro da ditadura do “tempo real”?
É verdade que o hiperconsumidor expõe uma evidente preocupação em fazer mais e mais depressa, não
suporta perder tempo, quer a acessibilidade dos produtos, das imagens e da comunicação a toda hora
do dia e da noite. Mas, ao mesmo tempo, assiste-se à proliferação de desejos e de comportamentos cuja
orientação para os prazeres sensoriais e estéticos, para o maior bem-estar, para as sensações corporais
exprimem a valorização de uma temporalidade lenta, qualitativa e sensualista. Slow food¹, escutas
musicais, passeios a pé, excursões, spas e banhos turcos, meditações e relaxamentos: contra a “vida
corrida”, os lazeres lentos encontram amplo eco. Assim, somos testemunhas do gosto pelo flanar, pelas
idas ao restaurante à noite, pela ociosidade na praia ou nos terraços dos cafés. Nada de temporalidade
uniformemente urgencial, mas um sistema composto de temporalidades profundamente heterogêneas:
ao tempo operacional opõe-se o tempo hedonista, ao tempo do trabalho, o tempo recreativo, ao tempo
precipitado, o tempo descontraído. O regime do tempo na sociedade de hiperconsumo não tem nada
de unidimensional; é, ao contrário, paradoxal, dessincronizado, heteróclito (desregrado), polirrítmico.
Os consumidores atentos às causas humanitárias, preocupados com selos verdes e produtos éticos,
mostram-se mais solidários? Mas, se a tendência ao consumo “cidadão” é inegável, em que ela faz
sair da constelação do indivíduo, em outras palavras, dos engajamentos de tipo opcional, mínimo e
indolor? Ela significa sobretudo que o individualismo não é sinônimo de egoísmo absoluto: este pode
ser compatível com o espírito de responsabilidade, com a preocupação com certos valores, ainda que
fosse segundo um regime de geometria variável, “sem obrigação nem sanção”.
A multiplicação das informações e a elevação do nível de instrução da população favoreceram,
sem nenhuma dúvida, a “profissionalização” das atividades consumidoras. Mas, do outro lado,
observa-se uma infinidade de fenômenos sinônimos, ao contrário, de excesso e de descontrole de
si: vítimas da moda, compras compulsivas, superendividamento das famílias, “fanáticos” por jogos de
1. Slow food: movimento global que nasceu na Itália, em 1986, como resposta ao fast-food, promovendo uma alimentação que valoriza
o prazer de comer, a sustentabilidade ambiental, a cultura local, a biodiversidade e o apoio a pequenos produtores, além de incentivar o
consumo consciente e o resgate de tradições gastronômicas regionais.
vídeo, ciberdependentes, toxicomanias, práticas viciosas de todo tipo, anarquia dos comportamentos
alimentares, bulimias e obesidades. O que se anuncia é tanto um individualismo desenfreado e caótico
quanto um consumidor expert que se encarrega de si de maneira responsável.
O relaxamento dos controles coletivos, as normas hedonistas, a escolha da primeira qualidade,
a educação liberal, tudo isso contribuiu para compor um indivíduo desligado dos fins comuns e que,
reduzido tão-só às suas forças, se mostra, muitas vezes, incapaz de resistir tanto às solicitações externas
quanto aos impulsos internos. Assim, somos testemunhas de todo um conjunto de comportamentos
desestruturados, de consumos patológicos e compulsivos. Por toda parte, a tendência ao desregramento
de si acompanha a cultura de livre disposição dos indivíduos entregues à vertigem de si próprios no
supermercado contemporâneo dos modos de vida. À medida que se amplia o princípio de pleno poder
sobre a direção da própria vida, as manifestações de dependência e de impotência subjetivas se
desenvolvem num ritmo crescente. Se o indivíduo é socialmente autônomo, ei-lo mais do que nunca
dependente da forma mercantil para a satisfação de suas necessidades.
LIPOVETSKY, Gilles. Rumo a um turboconsumidor. In: A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de
hiperconsumo. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Fragmento adaptado)
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