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Certos medos e angústias não têm relação com a idade e são universais
Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas achava que estaria
livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
(Por: Drauzio Varella. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
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livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
(Por: Drauzio Varella. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
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livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
(Por: Drauzio Varella. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
( ) No trecho “‘Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa’.” (10º§), as vírgulas foram utilizadas apenas para isolar o vocativo, que é um termo acessório da oração.
( ) Em “[...] penso com frequência na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia.” (6º§), pode-se observar a utilização de sinais que marcam pausas e sinais que marcam melodia.
( ) No 5º§, as aspas acentuam o valor significativo de uma expressão.
( ) Empregou-se vírgula de maneira equivocada em “A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais.” (3º§).
A sequência está correta em
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Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas achava que estaria
livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
(Por: Drauzio Varella. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
I. “A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, [...]” (3º§).
II. “Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de ‘fazer repouso’, o desafio agora é envelhecer com sabedoria, [...]” (8º§).
III. “Embora sempre tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis [...]” (3º§).
De acordo com a norma-culta da Língua Portuguesa, a concordância está correta em
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Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas achava que estaria
livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
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Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
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livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
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Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas achava que estaria
livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
(Por: Drauzio Varella. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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Questão presente nas seguintes provas
Certos medos e angústias não têm relação com a idade e são universais
Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas achava que estaria
livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
(Por: Drauzio Varella. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
I. Pessoas que não acreditam em algum tipo de “força espiritual”, de forma geral, têm mais facilidade para aceitar o fato de que a vida física não dura para sempre.
II. Ao dizer “‘Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa’.” (10º§), o carcereiro se refere à morte de maneira metafórica, fazendo uma analogia entre vida e festa.
III. O autor afirma, de maneira tranquila, que aguarda o dia da morte.
Está correto o que se afirma em
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Certos medos e angústias não têm relação com a idade e são universais
Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas achava que estaria
livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
(Por: Drauzio Varella. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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Certos medos e angústias não têm relação com a idade e são universais
Anos atrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Claro que não tinha a pretensão
de resolver as contradições do mundo, muito menos a de decifrar os mistérios da condição humana, mas achava que estaria
livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.
Eu estava enganado. Os medos, a ansiedade, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não
importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos: “Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e
frutos do amor se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.
A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o homem moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da velhice não fazia o menor sentido. Assolados por
doenças graves, guerras, fome e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas. Embora sempre
tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se
referiam à velhice como fonte inesgotável de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.
Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida
pela idade avançada... Uma vez que essa é a mais rara das mortes... Nós a chamamos de natural, como se fosse contrário à
natureza ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia... Morrer em idade avançada é um evento raro, singular e extraordinário, portanto menos natural do que os outros”.
Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou devagar. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho
gaiteiro de 50 anos”. Anos atrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da carreira, ao ouvir uma paciente dizer
que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.
Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência
na morte... Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ranger nos ossos da bacia. Outras
vezes penso no desejo de mais tempo: para terminar outro livro, o fim de outro tirano para ser celebrado. As pessoas se iludem
supondo que a fome de viver tenha alguma validade objetiva”. Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que
farei com este absurdo/ Oh coração, Oh coração atormentado – esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/
Como a cauda num cachorro?”.
Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a faixa etária
que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.
Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o
desafio agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em aceitar as limitações impostas pelo corpo, sem abandonar a atividade física e o desejo de experimentar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de achar que não vale a pena
viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.
É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos
infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Como
você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?
Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a impressão de que quem passou a existência sem fé religiosa, como eu, aceita
com mais naturalidade a ideia do eterno não ser. Enquanto não recebo a visita da indesejável senhora, procuro conduzir a minha
vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de acordo
com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do antigo Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma festa”.
(Por: Drauzio Varella. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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