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TEXTO IV
Idioma e identidade nacional
Na era contemporânea adotamos do francês milhares – sim, milhares – de termos consagrados do dia-a- dia, como paletó, boné, telefone. Do chinês, nanquim, chá, tufão. Do malaio, bule, junco, orangotango. Do persa, azul, berinjela, caravana, divã, chalé, gaze, laranja, paraíso, quiosque, taça. Do espanhol, entre muitas, aficionado, avançar, amolar. Do italiano usamos afresco, agüentar, baronesa, boletim, canalha, empresa, gazeta, soneto. Do japonês, a quem demos também nossa contribuição, registrada aqui pelo nosso ministro Rafael Greca, herdamos biombo, gueixa, leque, samurai, quimono e tatame – muitos vocábulos da culinária. Do inglês, principalmente via Estados Unidos, têm vindo contribuições que nos enriquecem o vocabulário e empobrecem o patrimônio: debênture, dumping, cheque, truste, warrant (temos até o verbo warrantar...), royalty (esta compreensivamente mais usada no plural, royalties) etc.
O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa recém-incorporou a palavra manager, aqui traduzida como empresário, administrador, gerente. No caso particular desta expressão, é bom lembrar que os colonizadores sempre introduzem no vernáculo palavras definidoras da hierarquia. Os tupis, que falavam tuxaua e morubixaba, aprenderam, com os portugueses, a dizer senhor, dom, capitão-mor, registrando a nova hierarquia que se impunha. Quem sabe a substituição da palavra gerente ou administrador também seja um sinal dos tempos, da nova hierarquia que a globalização estabelece?
A língua também se renova em virtude de alterações na estrutura econômica e organização social, assim como por influência das novas gerações. Já não usamos desquecido por aborrecido, delirar por afastar-se, desviver por morrer, nem dizemos chofer (e muito menos o alternativo cinesíforo), mas motorista; usamos segurança e não guarda-costa ou capanga ou jagunço; táxi em vez de carro de praça; avião em lugar de aeroplano; pose e não mais chapa; filme, não fita. Mais um pouco e estas e outras expressões ou palavras como televisor, aparelho de som (que as lojas chamam de system), serão vetustos arcaicos. Garagem perdeu o sentido de oficina mecânica para ser, exclusivamente, o lugar onde se guardam carros e, pelo andar da carruagem, será substituída por vaga. "As palavras aposentam-se", disse Machado de Assis. A língua é, portanto, viva e mudável. Os grandes escritores que lustraram o português acolheram e difundiram novidades. Graciliano Ramos, um mestre do vernáculo, usa, no romance Angústia, as palavras bureau, smoking, limousine, todas sublinhadas para demonstrar o estrangeirismo. Mesmo Castro Alves, na minha modesta opinião o maior poeta do Brasil, rei das epígrafes em francês e latim, utiliza, em Espumas Flutuantes, embora excepcionalmente, hatchiz — talvez uma forma de haxixe importada do francês haschisch.
Mas é hora de retomar antigas cruzadas e pelejar num movimento nacional para exaltação e defesa da língua portuguesa.
(REBELO, Aldo. www2.camara.gov.br - fragmento)
A principal estratégia argumentativa de que o autor do texto IV lança mão para defender sua tese é:
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TEXTO I
Despetalando a flor do Lácio
“Despetalando” está correto, tenho praticamente certeza. Não acredito que um filólogo desalmado tenha resolvido que aí vai um hífen. Não, não vai, não é despetalar. “Flor” e “Lácio” continuam, uma sem acento, outro com acento. Portanto, cem por cento em meu primeiro título na ortografia nova, brilhei mais uma vez. Isso, contudo, não me aplaca o nervosismo. Deve ser a idade, porque já encarei algumas reformas ortográficas nesta curta existência e me saí satisfatoriamente, mesmo no tempo em que a gente tinha que grafar “tôda” com circunflexo, para distinguir de “toda”, que ninguém sabia o que era, embora, no ver de alguns, fosse uma ave amazônica pouco sociável, ou, segundo outros, uma exortação obscena de origem xavante. Acho que esse ponto nunca será esclarecido (de qualquer forma, cartas de esclarecimento para o editor, por caridade) e constituirá mais uma das graves interrogações sem cujas respostas minha geração deixará este mundo.
Quando me peguei lendo, a maior parte da livrama de meu pai era na orthographia antiga e havia livros portugueses com suas próprias normas. Apesar de leitor fominha que, mesmo sem entender nada, traçava o que aparecesse, levei semanas para compreender que “augmentar” era “aumentar”. Mas me acostumei e sempre transitei bem nessa área, para alguma coisa eu tinha que levar jeito. Chefiei redação no tempo da abolição do acento diferencial e dedicava grande parte do meu tempo a explicar que, de então em diante, não se escreveria “voce”, mas “você” mesmo, como sempre. Foi difícil, muito mais difícil do que qualquer um imaginaria, tratando-se de gente instruída e, em muitos casos, talentosa.
Uma amiga minha sustenta que tudo vem de trauma da infância e eu tendo a concordar com ela. Sei de traumas profundos, carregados por amigos meus sob o jugo – o que, graças a Deus, não foi meu caso – de professores de português dogmáticos e caturras, que entupiam todos de regras quase impenetráveis e só podiam com isso instilar ódio e temor pela língua e pelo que nela é escrito. Para muitos, livros são dolorosas memórias de torturas.
E as reformas sempre levam alguma coisa com elas. Já haviam feito isso com o K, o W e o Y, agora reabilitados, se bem que nunca de fato o povo os haja banido, aí estando o Kílo, o Waldir e o Ruy, que não me deixam mentir e nem ao menos caíram na clandestinidade, mas continuaram a circular com grande liberdade. Levaram a indicação da subtônica também, aquela que, por exemplo, marcava com acento grave palavras como “precàriamente” e mostrava a existência subtônica (“cà”). Mas, segundo eu soube, nem precisamos (precisamos, sim), nem temos condição de exigir que as subtônicas se pronunciem, tudo bem, não estamos à altura.
Por mim, tenho trauma do trema. Ontem me disseram que fui visto com o olhar distante, em frente a este monitor, sacudindo lentamente a cabeça e murmurando “não me conformo, não me conformo”. Não me recordo disso, pode perfeitamente ser uma invencionice, mais uma das anedotas apócrifas que contam sobre nós, celebridades internacionais. Mas a verdade é que não me conformo não somente com a saída do trema e suas temíveis consequências (em breve alguém lerá aí “consekências”, assim como chegará o dia em que um simpático alemão que veio morar no Brasil nos perguntará, com sotaque ainda carregado, onde poderá comprar “linghiças”, raio de língua difícil, depois reclamam do alemão). Não posso igualmente aceitar a maneira sem-cerimoniosa com que ele foi humilhantemente defenestrado, depois de tanto tempo de serviços prestados. Expulso sem nem um relógio folheado a ouro de lembrança, uma plaquinha sequer.
(RIBEIRO, João Ubaldo. Jornal “O Globo”, p. 7, 04/01/90)
Quanto às estruturas morfológicas dos trechos destacados, assinale a opção INCORRETA:
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Texto III
Língua Portuguesa: uma paixão
Eu estava fazendo uma conferência no Rio de Janeiro sobre Álvares de Azevedo, a minha paixão na escola romântica paulista, e lá estava, assistindo à conferência, Carlos Drummond de Andrade, quando um jovem interferiu: - Dona Lygia, a senhora disse que Castro Alves morreu com 24 anos, Álvares de Azevedo com 21, Fagundes Varela, completamente em convulsões, delirium tremens e tal, com 33 anos, Gonçalves Dias, o indianista extraordinário, esse um pouco mais velho, aos 42 ou 43 anos, num naufrágio; e sem esquecer Casimiro de Abreu: “Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida...”
Então, o rapaz perguntou: - A senhora não está exagerando? - Eu disse: - Exagerando como, meu jovem? Isso é a própria conferência que eu estou fazendo no Rio de Janeiro. Ele disse: Mas, dona Lygia, todos eles morreram assim novinhos? A senhora não está dando um pouco de ênfase excessiva? – Dei uma risada e respondi: - Eu lamento, mas morreram todos com essa idade assim, mais ou menos jovensíssimos, como diria Mário de Andrade em relação ao Azevedo, esse, então, morreu virgem – 21 anos: - Era virgem – dizia Mário de Andrade, e eu acredito.
Carlos Drummond achou muita graça naquela intervenção desse moço e, quando terminou a conferência, ele me disse: - Lygia, eu vou dar um nome para essa escola: “a escola do morrer cedo”. Beleza! Não é? Só um poeta poderia dar um nome tão lindo para a escola romântica. Então, voltando, “a escola do morrer cedo”, o romantismo, antes, esses poetas. Em seguida, vem a escola parnasiana, eram os poetas mais bem penteados, a gravata no lugar, mais limpinhos, mais arrumados. Escola parnasiana – Olavo Bilac. Assim, dizia eu que, quando era muito menina, li esse soneto de Olavo Bilac: “Última flor do Lácio inculta e bela, que é, a um só tempo, esplendor e sepultura...”, e fiquei impressionada. Então, a língua na qual eu vou escrever (já tinha minhas ambições, eu teria 10, 12 anos, por aí) é esta língua, esplendor e sepultura? Vou escrever numa língua que é sepultura? Fiquei muito impressionada e fui falar com o meu pai, meu pai tinha que resolver as questões todas.
- Papai, que negócio é esse, então, essa língua...? Por que você com mamãe não foram ter esta pobre menina na França, na Inglaterra? Eu escreveria em francês, escreveria... – Olha a colonizada! Menina colonizada! Eu queria era a língua do Primeiro Mundo. Meu pai disse: - Minha filha, se você chegar a escrever bem um dia, e eu espero que sim (os pais têm tanta confiança na gente, não é?) não precisa ser francês, alemão, espanhol. Você ficará na nossa língua mesmo. – Mas esplendor e sepultura, papai? – É isso mesmo. Vai dormir, vai fazer sua lição e chega. – Meu pai encerrava as coisas também assim. Pronto.
Muito tempo depois, estava eu na Faculdade de Direito, já estudante, já escrevendo os meus primeiros contos, quando voltei ao soneto de Bilac, porém voltei com uma outra força e com uma outra interpretação: é que eu estava gostando da minha língua, estava gostando desta língua portuguesa. Estava me apaixonando por ela, enquanto escrevia meus textos, pelos quais me apaixonava. Eu escrevia com paixão. Língua portuguesa – uma paixão! Eu escrevia com paixão. Relendo esse soneto de Olavo Bilac, deparei com o verso que me turbilhonou, completamente: “Última flor do Lácio inculta e bela, que é, a um só tempo, esplendor e sepultura”. Em seguida: “Amo-te assim, desconhecida e obscura”. Aí comecei a chorar, porque achei aquilo tão belo. Amo-te assim, exatamente, a língua desconhecida e obscura. Obscura! Meu pai não vivia mais, pra eu lhe fazer essas confissões. Me apaixonei pela língua, e nesta paixão e, com esta paixão, estou vivendo até hoje. Me perguntam, às vezes: - Se você não pudesse mais escrever, você morreria? – Eu respondo: - Não morreria, mas ficaria tão triste, que seria como se tivesse morrido.
(TELLES, Lygia Fagundes. Palestra proferida na sede do Centro de Integração Empresa-Escola de São Paulo, 31/03/1999 – fragmento.)
Marque a afirmativa correta quanto à análise sintática tradicional de fragmentos transcritos do texto III:
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TEXTO I
Despetalando a flor do Lácio
“Despetalando” está correto, tenho praticamente certeza. Não acredito que um filólogo desalmado tenha resolvido que aí vai um hífen. Não, não vai, não é despetalar. “Flor” e “Lácio” continuam, uma sem acento, outro com acento. Portanto, cem por cento em meu primeiro título na ortografia nova, brilhei mais uma vez. Isso, contudo, não me aplaca o nervosismo. Deve ser a idade, porque já encarei algumas reformas ortográficas nesta curta existência e me saí satisfatoriamente, mesmo no tempo em que a gente tinha que grafar “tôda” com circunflexo, para distinguir de “toda”, que ninguém sabia o que era, embora, no ver de alguns, fosse uma ave amazônica pouco sociável, ou, segundo outros, uma exortação obscena de origem xavante. Acho que esse ponto nunca será esclarecido (de qualquer forma, cartas de esclarecimento para o editor, por caridade) e constituirá mais uma das graves interrogações sem cujas respostas minha geração deixará este mundo.
Quando me peguei lendo, a maior parte da livrama de meu pai era na orthographia antiga e havia livros portugueses com suas próprias normas. Apesar de leitor fominha que, mesmo sem entender nada, traçava o que aparecesse, levei semanas para compreender que “augmentar” era “aumentar”. Mas me acostumei e sempre transitei bem nessa área, para alguma coisa eu tinha que levar jeito. Chefiei redação no tempo da abolição do acento diferencial e dedicava grande parte do meu tempo a explicar que, de então em diante, não se escreveria “voce”, mas “você” mesmo, como sempre. Foi difícil, muito mais difícil do que qualquer um imaginaria, tratando-se de gente instruída e, em muitos casos, talentosa.
Uma amiga minha sustenta que tudo vem de trauma da infância e eu tendo a concordar com ela. Sei de traumas profundos, carregados por amigos meus sob o jugo – o que, graças a Deus, não foi meu caso – de professores de português dogmáticos e caturras, que entupiam todos de regras quase impenetráveis e só podiam com isso instilar ódio e temor pela língua e pelo que nela é escrito. Para muitos, livros são dolorosas memórias de torturas.
E as reformas sempre levam alguma coisa com elas. Já haviam feito isso com o K, o W e o Y, agora reabilitados, se bem que nunca de fato o povo os haja banido, aí estando o Kílo, o Waldir e o Ruy, que não me deixam mentir e nem ao menos caíram na clandestinidade, mas continuaram a circular com grande liberdade. Levaram a indicação da subtônica também, aquela que, por exemplo, marcava com acento grave palavras como “precàriamente” e mostrava a existência subtônica (“cà”). Mas, segundo eu soube, nem precisamos (precisamos, sim), nem temos condição de exigir que as subtônicas se pronunciem, tudo bem, não estamos à altura.
Por mim, tenho trauma do trema. Ontem me disseram que fui visto com o olhar distante, em frente a este monitor, sacudindo lentamente a cabeça e murmurando “não me conformo, não me conformo”. Não me recordo disso, pode perfeitamente ser uma invencionice, mais uma das anedotas apócrifas que contam sobre nós, celebridades internacionais. Mas a verdade é que não me conformo não somente com a saída do trema e suas temíveis consequências (em breve alguém lerá aí “consekências”, assim como chegará o dia em que um simpático alemão que veio morar no Brasil nos perguntará, com sotaque ainda carregado, onde poderá comprar “linghiças”, raio de língua difícil, depois reclamam do alemão). Não posso igualmente aceitar a maneira sem-cerimoniosa com que ele foi humilhantemente defenestrado, depois de tanto tempo de serviços prestados. Expulso sem nem um relógio folheado a ouro de lembrança, uma plaquinha sequer.
(RIBEIRO, João Ubaldo. Jornal “O Globo”, p. 7, 04/01/90)
No fragmento professores de português dogmáticos e caturras, as palavras em destaque assumem o sentido de:
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Blogs, twitter, orkut e outros buracos
Não estou no “twitter”, não sei o que é o “twitter”, jamais entrarei nesse terreno baldio e, incrivelmente, tenho 26 mil “seguidores” no “twitter”. Quem me pôs lá? Quem foi o canalha que usou meu nome? Jamais saberei. Vivemos no poço escuro da web. Ou buscamos a exposição total para ser “celebridade” ou usamos esse anonimato irresponsável com nome dos outros. Tem gente que fala para mim: “Faz um blog, faz um blog!” Logo eu, que já sou um blog vivo, tagarelando na TV, rádio e jornais… Jamais farei um blog, esse nome que parece um coaxar de sapo-boi. Quero o passado. Quero o lápis na orelha do quitandeiro, quero o gato do armazém dormindo no saco de batatas, quero o telefone preto, de disco, que não dá linha, em vez dos gemidinhos dos celulares incessantes.
Comunicar o quê? Ninguém tem nada a dizer. Olho as opiniões, as discussões “online” e só vejo besteira, frases de 140 caracteres para nada dizer. Vivemos a grande invasão dos lugares-comuns, dos uivos de medíocres ecoando asnices para ocultar sua solidão deprimente.
O que espanta é a velocidade da luz para a lentidão dos pensamentos, uma movimentação “em rede” para raciocínios lineares. A boa e velha burrice continua intocada, agora disfarçada pelo charme da rapidez. Antigamente, os burros eram humildes; se esgueiravam pelos cantos, ouvindo, amargurados, os inteligentes deitando falação. Agora não; é a revolução dos idiotas online.
Quero sossego, mas querem me expandir, esticar meus braços em tentáculos digitais, meus olhos no “google”, (“goggles” – olhos arregalados) em órbitas giratórias, querem que eu seja ubíquo, quando desejo caminhar na condição de pobre bicho bípede; não quero tudo saber, ao contrário, quero esquecer; sinto que estão criando desejos que não tenho, fomes que perdi.
O leitor perguntará: “Por que este ódio todo, bom Jabor?” Claro que acho a revolução digital a coisa mais importante dos séculos. Mas estou com raiva por causa dos textos apócrifos que continuam enfiando na Internet com meu nome.
Já reclamei aqui desses textos, mas tenho de me repetir. Todo dia surge uma nova besteira, com dezenas de e-mails me elogiando pelo que eu “não” fiz. Vou indo pela rua e três senhoras me abordam – “Teu artigo na Internet é genial! Principalmente quando você escreve: ‘As mulheres são tão cheirosinhas; elas fazem biquinho e deitam no teu ombro…’”
“Não fui eu…”, respondo. Elas não ouvem e continuam: “Modéstia sua! Finalmente alguém diz a verdade sobre as mulheres! Mandei isso para mil amigas! Adoraram aquela parte: ‘Tenho horror à mulher perfeitinha. Acho ótimo celulite…’” Repito que não é meu, mas elas (em geral barangas) replicam: “Ah… É teu melhor texto…” – e vão embora, rebolando, felizes.
Sei que a Internet democratiza, dando acesso a todos para se expressar. Mas a democracia também libera a idiotia. Deviam inventar um “antispam” para bobagens.
(JABOR, Arnaldo. In:WWW.estadao.com.br - 3/11/2009 - com adaptações.)
A oração reduzida ouvindo, amargurados, os inteligentes tem valor semântico de:
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Texto III
Língua Portuguesa: uma paixão
Eu estava fazendo uma conferência no Rio de Janeiro sobre Álvares de Azevedo, a minha paixão na escola romântica paulista, e lá estava, assistindo à conferência, Carlos Drummond de Andrade, quando um jovem interferiu: - Dona Lygia, a senhora disse que Castro Alves morreu com 24 anos, Álvares de Azevedo com 21, Fagundes Varela, completamente em convulsões, delirium tremens e tal, com 33 anos, Gonçalves Dias, o indianista extraordinário, esse um pouco mais velho, aos 42 ou 43 anos, num naufrágio; e sem esquecer Casimiro de Abreu: “Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida...”
Então, o rapaz perguntou: - A senhora não está exagerando? - Eu disse: - Exagerando como, meu jovem? Isso é a própria conferência que eu estou fazendo no Rio de Janeiro. Ele disse: Mas, dona Lygia, todos eles morreram assim novinhos? A senhora não está dando um pouco de ênfase excessiva? – Dei uma risada e respondi: - Eu lamento, mas morreram todos com essa idade assim, mais ou menos jovensíssimos, como diria Mário de Andrade em relação ao Azevedo, esse, então, morreu virgem – 21 anos: - Era virgem – dizia Mário de Andrade, e eu acredito.
Carlos Drummond achou muita graça naquela intervenção desse moço e, quando terminou a conferência, ele me disse: - Lygia, eu vou dar um nome para essa escola: “a escola do morrer cedo”. Beleza! Não é? Só um poeta poderia dar um nome tão lindo para a escola romântica. Então, voltando, “a escola do morrer cedo”, o romantismo, antes, esses poetas. Em seguida, vem a escola parnasiana, eram os poetas mais bem penteados, a gravata no lugar, mais limpinhos, mais arrumados. Escola parnasiana – Olavo Bilac. Assim, dizia eu que, quando era muito menina, li esse soneto de Olavo Bilac: “Última flor do Lácio inculta e bela, que é, a um só tempo, esplendor e sepultura...”, e fiquei impressionada. Então, a língua na qual eu vou escrever (já tinha minhas ambições, eu teria 10, 12 anos, por aí) é esta língua, esplendor e sepultura? Vou escrever numa língua que é sepultura? Fiquei muito impressionada e fui falar com o meu pai, meu pai tinha que resolver as questões todas.
- Papai, que negócio é esse, então, essa língua...? Por que você com mamãe não foram ter esta pobre menina na França, na Inglaterra? Eu escreveria em francês, escreveria... – Olha a colonizada! Menina colonizada! Eu queria era a língua do Primeiro Mundo. Meu pai disse: - Minha filha, se você chegar a escrever bem um dia, e eu espero que sim (os pais têm tanta confiança na gente, não é?) não precisa ser francês, alemão, espanhol. Você ficará na nossa língua mesmo. – Mas esplendor e sepultura, papai? – É isso mesmo. Vai dormir, vai fazer sua lição e chega. – Meu pai encerrava as coisas também assim. Pronto.
Muito tempo depois, estava eu na Faculdade de Direito, já estudante, já escrevendo os meus primeiros contos, quando voltei ao soneto de Bilac, porém voltei com uma outra força e com uma outra interpretação: é que eu estava gostando da minha língua, estava gostando desta língua portuguesa. Estava me apaixonando por ela, enquanto escrevia meus textos, pelos quais me apaixonava. Eu escrevia com paixão. Língua portuguesa – uma paixão! Eu escrevia com paixão. Relendo esse soneto de Olavo Bilac, deparei com o verso que me turbilhonou, completamente: “Última flor do Lácio inculta e bela, que é, a um só tempo, esplendor e sepultura”. Em seguida: “Amo-te assim, desconhecida e obscura”. Aí comecei a chorar, porque achei aquilo tão belo. Amo-te assim, exatamente, a língua desconhecida e obscura. Obscura! Meu pai não vivia mais, pra eu lhe fazer essas confissões. Me apaixonei pela língua, e nesta paixão e, com esta paixão, estou vivendo até hoje. Me perguntam, às vezes: - Se você não pudesse mais escrever, você morreria? – Eu respondo: - Não morreria, mas ficaria tão triste, que seria como se tivesse morrido.
(TELLES, Lygia Fagundes. Palestra proferida na sede do Centro de Integração Empresa-Escola de São Paulo, 31/03/1999 – fragmento.)
Em Meu pai não vivia mais, pra eu lhe fazer essas confissões, na forma grifada NÃO se identifica:
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TEXTO V
Aula de português
A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.
A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, equipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. In: WWW.portalsãofrancisco.com.br)
Marque o item em que se identifica, contemporaneamente, um dos aspectos morfossintáticos tipificadores da distância entre o “português do professor Carlos Góes” e o português não-escolar:
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Blogs, twitter, orkut e outros buracos
Não estou no “twitter”, não sei o que é o “twitter”, jamais entrarei nesse terreno baldio e, incrivelmente, tenho 26 mil “seguidores” no “twitter”. Quem me pôs lá? Quem foi o canalha que usou meu nome? Jamais saberei. Vivemos no poço escuro da web. Ou buscamos a exposição total para ser “celebridade” ou usamos esse anonimato irresponsável com nome dos outros. Tem gente que fala para mim: “Faz um blog, faz um blog!” Logo eu, que já sou um blog vivo, tagarelando na TV, rádio e jornais… Jamais farei um blog, esse nome que parece um coaxar de sapo-boi. Quero o passado. Quero o lápis na orelha do quitandeiro, quero o gato do armazém dormindo no saco de batatas, quero o telefone preto, de disco, que não dá linha, em vez dos gemidinhos dos celulares incessantes.
Comunicar o quê? Ninguém tem nada a dizer. Olho as opiniões, as discussões “online” e só vejo besteira, frases de 140 caracteres para nada dizer. Vivemos a grande invasão dos lugares-comuns, dos uivos de medíocres ecoando asnices para ocultar sua solidão deprimente.
O que espanta é a velocidade da luz para a lentidão dos pensamentos, uma movimentação “em rede” para raciocínios lineares. A boa e velha burrice continua intocada, agora disfarçada pelo charme da rapidez. Antigamente, os burros eram humildes; se esgueiravam pelos cantos, ouvindo, amargurados, os inteligentes deitando falação. Agora não; é a revolução dos idiotas online.
Quero sossego, mas querem me expandir, esticar meus braços em tentáculos digitais, meus olhos no “google”, (“goggles” – olhos arregalados) em órbitas giratórias, querem que eu seja ubíquo, quando desejo caminhar na condição de pobre bicho bípede; não quero tudo saber, ao contrário, quero esquecer; sinto que estão criando desejos que não tenho, fomes que perdi.
O leitor perguntará: “Por que este ódio todo, bom Jabor?” Claro que acho a revolução digital a coisa mais importante dos séculos. Mas estou com raiva por causa dos textos apócrifos que continuam enfiando na Internet com meu nome.
Já reclamei aqui desses textos, mas tenho de me repetir. Todo dia surge uma nova besteira, com dezenas de e-mails me elogiando pelo que eu “não” fiz. Vou indo pela rua e três senhoras me abordam – “Teu artigo na Internet é genial! Principalmente quando você escreve: ‘As mulheres são tão cheirosinhas; elas fazem biquinho e deitam no teu ombro…’”
“Não fui eu…”, respondo. Elas não ouvem e continuam: “Modéstia sua! Finalmente alguém diz a verdade sobre as mulheres! Mandei isso para mil amigas! Adoraram aquela parte: ‘Tenho horror à mulher perfeitinha. Acho ótimo celulite…’” Repito que não é meu, mas elas (em geral barangas) replicam: “Ah… É teu melhor texto…” – e vão embora, rebolando, felizes.
Sei que a Internet democratiza, dando acesso a todos para se expressar. Mas a democracia também libera a idiotia. Deviam inventar um “antispam” para bobagens.
(JABOR, Arnaldo. In:WWW.estadao.com.br - 3/11/2009 - com adaptações.)
Assinale a única opção que está de acordo com a estrutura do texto:
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Blogs, twitter, orkut e outros buracos
Não estou no “twitter”, não sei o que é o “twitter”, jamais entrarei nesse terreno baldio e, incrivelmente, tenho 26 mil “seguidores” no “twitter”. Quem me pôs lá? Quem foi o canalha que usou meu nome? Jamais saberei. Vivemos no poço escuro da web. Ou buscamos a exposição total para ser “celebridade” ou usamos esse anonimato irresponsável com nome dos outros. Tem gente que fala para mim: “Faz um blog, faz um blog!” Logo eu, que já sou um blog vivo, tagarelando na TV, rádio e jornais… Jamais farei um blog, esse nome que parece um coaxar de sapo-boi. Quero o passado. Quero o lápis na orelha do quitandeiro, quero o gato do armazém dormindo no saco de batatas, quero o telefone preto, de disco, que não dá linha, em vez dos gemidinhos dos celulares incessantes.
Comunicar o quê? Ninguém tem nada a dizer. Olho as opiniões, as discussões “online” e só vejo besteira, frases de 140 caracteres para nada dizer. Vivemos a grande invasão dos lugares-comuns, dos uivos de medíocres ecoando asnices para ocultar sua solidão deprimente.
O que espanta é a velocidade da luz para a lentidão dos pensamentos, uma movimentação “em rede” para raciocínios lineares. A boa e velha burrice continua intocada, agora disfarçada pelo charme da rapidez. Antigamente, os burros eram humildes; se esgueiravam pelos cantos, ouvindo, amargurados, os inteligentes deitando falação. Agora não; é a revolução dos idiotas online.
Quero sossego, mas querem me expandir, esticar meus braços em tentáculos digitais, meus olhos no “google”, (“goggles” – olhos arregalados) em órbitas giratórias, querem que eu seja ubíquo, quando desejo caminhar na condição de pobre bicho bípede; não quero tudo saber, ao contrário, quero esquecer; sinto que estão criando desejos que não tenho, fomes que perdi.
O leitor perguntará: “Por que este ódio todo, bom Jabor?” Claro que acho a revolução digital a coisa mais importante dos séculos. Mas estou com raiva por causa dos textos apócrifos que continuam enfiando na Internet com meu nome.
Já reclamei aqui desses textos, mas tenho de me repetir. Todo dia surge uma nova besteira, com dezenas de e-mails me elogiando pelo que eu “não” fiz. Vou indo pela rua e três senhoras me abordam – “Teu artigo na Internet é genial! Principalmente quando você escreve: ‘As mulheres são tão cheirosinhas; elas fazem biquinho e deitam no teu ombro…’”
“Não fui eu…”, respondo. Elas não ouvem e continuam: “Modéstia sua! Finalmente alguém diz a verdade sobre as mulheres! Mandei isso para mil amigas! Adoraram aquela parte: ‘Tenho horror à mulher perfeitinha. Acho ótimo celulite…’” Repito que não é meu, mas elas (em geral barangas) replicam: “Ah… É teu melhor texto…” – e vão embora, rebolando, felizes.
Sei que a Internet democratiza, dando acesso a todos para se expressar. Mas a democracia também libera a idiotia. Deviam inventar um “antispam” para bobagens.
(JABOR, Arnaldo. In:WWW.estadao.com.br - 3/11/2009 - com adaptações.)
Considere as afirmativas:
I - Segundo o autor, há uma desproporção entre a velocidade com que se difundem ideias no meio digital e a qualidade dessas ideias.
II - No mundo virtual, como no real, a democracia permite comportamentos contra os quais não se tem controle.
III - O autor demonstra irritação com a velocidade com que seus textos são divulgados na internet, sem haver tempo para reflexões sobre os assuntos abordados.
Assinale a alternativa correta:
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Texto III
Língua Portuguesa: uma paixão
Eu estava fazendo uma conferência no Rio de Janeiro sobre Álvares de Azevedo, a minha paixão na escola romântica paulista, e lá estava, assistindo à conferência, Carlos Drummond de Andrade, quando um jovem interferiu: - Dona Lygia, a senhora disse que Castro Alves morreu com 24 anos, Álvares de Azevedo com 21, Fagundes Varela, completamente em convulsões, delirium tremens e tal, com 33 anos, Gonçalves Dias, o indianista extraordinário, esse um pouco mais velho, aos 42 ou 43 anos, num naufrágio; e sem esquecer Casimiro de Abreu: “Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida...”
Então, o rapaz perguntou: - A senhora não está exagerando? - Eu disse: - Exagerando como, meu jovem? Isso é a própria conferência que eu estou fazendo no Rio de Janeiro. Ele disse: Mas, dona Lygia, todos eles morreram assim novinhos? A senhora não está dando um pouco de ênfase excessiva? – Dei uma risada e respondi: - Eu lamento, mas morreram todos com essa idade assim, mais ou menos jovensíssimos, como diria Mário de Andrade em relação ao Azevedo, esse, então, morreu virgem – 21 anos: - Era virgem – dizia Mário de Andrade, e eu acredito.
Carlos Drummond achou muita graça naquela intervenção desse moço e, quando terminou a conferência, ele me disse: - Lygia, eu vou dar um nome para essa escola: “a escola do morrer cedo”. Beleza! Não é? Só um poeta poderia dar um nome tão lindo para a escola romântica. Então, voltando, “a escola do morrer cedo”, o romantismo, antes, esses poetas. Em seguida, vem a escola parnasiana, eram os poetas mais bem penteados, a gravata no lugar, mais limpinhos, mais arrumados. Escola parnasiana – Olavo Bilac. Assim, dizia eu que, quando era muito menina, li esse soneto de Olavo Bilac: “Última flor do Lácio inculta e bela, que é, a um só tempo, esplendor e sepultura...”, e fiquei impressionada. Então, a língua na qual eu vou escrever (já tinha minhas ambições, eu teria 10, 12 anos, por aí) é esta língua, esplendor e sepultura? Vou escrever numa língua que é sepultura? Fiquei muito impressionada e fui falar com o meu pai, meu pai tinha que resolver as questões todas.
- Papai, que negócio é esse, então, essa língua...? Por que você com mamãe não foram ter esta pobre menina na França, na Inglaterra? Eu escreveria em francês, escreveria... – Olha a colonizada! Menina colonizada! Eu queria era a língua do Primeiro Mundo. Meu pai disse: - Minha filha, se você chegar a escrever bem um dia, e eu espero que sim (os pais têm tanta confiança na gente, não é?) não precisa ser francês, alemão, espanhol. Você ficará na nossa língua mesmo. – Mas esplendor e sepultura, papai? – É isso mesmo. Vai dormir, vai fazer sua lição e chega. – Meu pai encerrava as coisas também assim. Pronto.
Muito tempo depois, estava eu na Faculdade de Direito, já estudante, já escrevendo os meus primeiros contos, quando voltei ao soneto de Bilac, porém voltei com uma outra força e com uma outra interpretação: é que eu estava gostando da minha língua, estava gostando desta língua portuguesa. Estava me apaixonando por ela, enquanto escrevia meus textos, pelos quais me apaixonava. Eu escrevia com paixão. Língua portuguesa – uma paixão! Eu escrevia com paixão. Relendo esse soneto de Olavo Bilac, deparei com o verso que me turbilhonou, completamente: “Última flor do Lácio inculta e bela, que é, a um só tempo, esplendor e sepultura”. Em seguida: “Amo-te assim, desconhecida e obscura”. Aí comecei a chorar, porque achei aquilo tão belo. Amo-te assim, exatamente, a língua desconhecida e obscura. Obscura! Meu pai não vivia mais, pra eu lhe fazer essas confissões. Me apaixonei pela língua, e nesta paixão e, com esta paixão, estou vivendo até hoje. Me perguntam, às vezes: - Se você não pudesse mais escrever, você morreria? – Eu respondo: - Não morreria, mas ficaria tão triste, que seria como se tivesse morrido.
(TELLES, Lygia Fagundes. Palestra proferida na sede do Centro de Integração Empresa-Escola de São Paulo, 31/03/1999 – fragmento.)
No texto de Lygia Fagundes Telles observa-se variado emprego de pronomes - subclasse da classe dos nomes. Tradicionalmente, o pronome é definido pela propriedade de substituir o nome, o que NÃO se confirma na substituição proposta no item:
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