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Então você passou dias de angústia pensando ‘como você iria levar Crime e castigo para aqueles alunos. Logo eles, “os que não entendem de nada”. “Os perdedores”. Você não tinha alternativa, tinha de cumprir o prometido. Então você releu Crime e castigo em casa, selecionou as partes que julgou mais contundentes. Tirou uma cópia. E, depois de reler, você se pôs a memorizar os trechos. Fez isso porque você não podia simplesmente ler o texto com eles, você tinha de contar algumas passagens. Dizer algumas palavras com mais ênfase, fazer as pausas necessárias. Deixar o silêncio falar por si. Afagar o léxico. Olhá-los nos olhos. E realmente parecia que estava funcionando. A descrição de Dostoiévski os hipnotizava. Entre a narração de uma morte e outra, podia-se ouvir a respiração dos alunos. Teu cansaço havia sumido, e uma nova sensação de plenitude começava a tomar conta de você. Você achou que leria quatro páginas, mas acabaram lendo mais de quarenta nos dias seguintes. Cada aula vocês liam seis a dez páginas. Você se preparava, dramatizava, às vezes levantava, fazia gestos incisivos, e alguns se assustavam, pareciam angustiados. Então, no fim de uma aula, um aluno chamado Peterson foi falar com você. Queria saber qual era o castigo que Raskólnikov teria por cometer aqueles crimes. Peterson morava com dois irmãos, os pais morreram e quem sustentava a casa era o mais velho. Peterson ainda estava na escola por um milagre. Há muitas formas e motivos para desistir da escola. Peterson era negro, tinha dezessete anos. Não conseguia emprego porque tinha que se alistar no Exército. Você agora precisava tomar cuidado com o que ia dizer. Você disse que Raskólnikov ia ser preso. Peterson te olhou e depois perguntou se Raskólnikov era uma pessoa real. Você respondeu que não, mas que poderia ter sido.
TENÓRIO, J. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020, p. 168.
“Você achou que leria quatro páginas, mas acabaram lendo mais de quarenta nos dias seguintes.”
Sem prejuízo de sentido, o conectivo destacado pode ser substituído por:
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Então você passou dias de angústia pensando ‘como você iria levar Crime e castigo para aqueles alunos. Logo eles, “os que não entendem de nada”a. “Os perdedores”. Você não tinha alternativa, tinha de cumprir o prometido. Então você releu Crime e castigo em casa, selecionou as partes que julgou mais contundentes. Tirou uma cópia. E, depois de reler, você se pôs a memorizar os trechos. Fez isso porque você não podia simplesmente ler o texto com eles, você tinha de contar algumas passagens. Dizer algumas palavras com mais ênfase, fazer as pausas necessárias. Deixar o silêncio falar por si. Afagar o léxico. Olhá-los nos olhos. E realmente parecia que estava funcionandob. A descrição de Dostoiévski os hipnotizava. Entre a narração de uma morte e outra, podia-se ouvir a respiração dos alunos. Teu cansaço havia sumido, e uma nova sensação de plenitude começava a tomar conta de você. Você achou que leria quatro páginasc, mas acabaram lendo mais de quarenta nos dias seguintes. Cada aula vocês liam seis a dez páginas. Você se preparava, dramatizava, às vezes levantava, fazia gestos incisivos, e alguns se assustavam, pareciam angustiados. Então, no fim de uma aula, um aluno chamado Peterson foi falar com você. Queria saber qual era o castigo que Raskólnikov teria por cometer aqueles crimes. Peterson morava com dois irmãos, os pais morreram e quem sustentava a casa era o mais velho. Peterson ainda estava na escola por um milagre. Há muitas formas e motivos para desistir da escola. Peterson era negro, tinha dezessete anos. Não conseguia emprego porque tinha que se alistar no Exército. Você agora precisava tomar cuidado com o que ia dizer. Você disse que Raskólnikov ia ser presod. Peterson te olhou e depois perguntou se Raskólnikov era uma pessoa real. Você respondeu que não, mas que poderia ter sido.
TENÓRIO, J. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020, p. 168.
“Então você releu Crime e castigo em casa, selecionou as partes que julgou mais contundentes.”
No trecho destacado, o “que” é um pronome relativo que retoma o vocábulo “partes” e introduz uma nova oração. Outro pronome relativo aparece destacado em:
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Então você passou dias de angústia pensando ‘como você iria levar Crime e castigo para aqueles alunos. Logo eles, “os que não entendem de nada”a. “Os perdedores”. Você não tinha alternativa, tinha de cumprir o prometido. Então você releu Crime e castigo em casa, selecionou as partes que julgou mais contundentes. Tirou uma cópia. E, depois de reler, você se pôs a memorizar os trechos. Fez isso porque você não podia simplesmente ler o texto com eles, você tinha de contar algumas passagens. Dizer algumas palavras com mais ênfase, fazer as pausas necessárias. Deixar o silêncio falar por si. Afagar o léxico. Olhá-los nos olhos. E realmente parecia que estava funcionando. A descrição de Dostoiévski os hipnotizava. Entre a narração de uma morte e outra, podia-se ouvir a respiração dos alunos. Teu cansaço havia sumido, e uma nova sensação de plenitude começava a tomar conta de você. Você achou que leria quatro páginas, mas acabaram lendo mais de quarenta nos dias seguintes. Cada aula vocês liam seis a dez páginasb. Você se preparava, dramatizava, às vezes levantava, fazia gestos incisivos, e alguns se assustavam, pareciam angustiadosc. Então, no fim de uma aula, um aluno chamado Peterson foi falar com você. Queria saber qual era o castigo que Raskólnikov teria por cometer aqueles crimesd. Peterson morava com dois irmãos, os pais morreram e quem sustentava a casa era o mais velho. Peterson ainda estava na escola por um milagre. Há muitas formas e motivos para desistir da escola. Peterson era negro, tinha dezessete anos. Não conseguia emprego porque tinha que se alistar no Exército. Você agora precisava tomar cuidado com o que ia dizer. Você disse que Raskólnikov ia ser preso. Peterson te olhou e depois perguntou se Raskólnikov era uma pessoa real. Você respondeu que não, mas que poderia ter sido.
TENÓRIO, J. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020, p. 168.
O uso do pronome, em sua forma no plural, ajuda a caracterizar o processo de aproximação entre professor e turma no seguinte trecho:
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O PEQUENO BURGUÊS
Felicidade, passei no vestibular
Mas a faculdade é particular
Particular, ela é particular
Particular, ela é particular
Livros tão caros tantas taxas pra pagar
Meu dinheiro muito raro,
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
Morei no subúrbio, andei de trem atrasado
Do trabalho ia pra aula, sem
jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite tinha
sempre a me esperar
Um punhado de problemas e criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Mas felizmente eu consegui me formar
Mas da minha formatura, nem cheguei participar
Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel
Nem o diretor careca entregou o meu papel
O meu papel, meu canudo de papel
O meu papel, meu canudo de papel
E depois de tantos anos,
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado
FERREIRA, M. J. Disponível em http://martinhodavila.com.br. Acesso em 04 abr. 2022.
Texto III
Então você passou dias de angústia pensando ‘como você iria levar Crime e castigo para aqueles alunos. Logo eles, “os que não entendem de nada”. “Os perdedores”. Você não tinha alternativa, tinha de cumprir o prometido. Então você releu Crime e castigo em casa, selecionou as partes que julgou mais contundentes. Tirou uma cópia. E, depois de reler, você se pôs a memorizar os trechos. Fez isso porque você não podia simplesmente ler o texto com eles, você tinha de contar algumas passagens. Dizer algumas palavras com mais ênfase, fazer as pausas necessárias. Deixar o silêncio falar por sib. Afagar o léxico. Olhá-los nos olhos. E realmente parecia que estava funcionando. A descrição de Dostoiévski os hipnotizavad. Entre a narração de uma morte e outra, podia-se ouvir a respiração dos alunos. Teu cansaço havia sumidoa, e uma nova sensação de plenitude começava a tomar conta de você. Você achou que leria quatro páginas, mas acabaram lendo mais de quarenta nos dias seguintes. Cada aula vocês liam seis a dez páginasc. Você se preparava, dramatizava, às vezes levantava, fazia gestos incisivos, e alguns se assustavam, pareciam angustiados. Então, no fim de uma aula, um aluno chamado Peterson foi falar com você. Queria saber qual era o castigo que Raskólnikov teria por cometer aqueles crimes. Peterson morava com dois irmãos, os pais morreram e quem sustentava a casa era o mais velho. Peterson ainda estava na escola por um milagre. Há muitas formas e motivos para desistir da escola. Peterson era negro, tinha dezessete anos. Não conseguia emprego porque tinha que se alistar no Exército. Você agora precisava tomar cuidado com o que ia dizer. Você disse que Raskólnikov ia ser preso. Peterson te olhou e depois perguntou se Raskólnikov era uma pessoa real. Você respondeu que não, mas que poderia ter sido.
TENÓRIO, J. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020, p. 168.
O Texto II apresenta um exemplo de uma prática pedagógica bem-sucedida, na medida em que descreve a reação dos alunos frente à leitura proposta. Assinale a alternativa que contém o trecho que melhor descreve a atenção dos alunos conquistada pelo professor.
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O PEQUENO BURGUÊS
Felicidade, passei no vestibular
Mas a faculdade é particular
Particular, ela é particular
Particular, ela é particular
Livros tão caros tantas taxas pra pagar
Meu dinheiro muito raro,
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
Morei no subúrbio, andei de trem atrasadoa
Do trabalho ia pra aula, sem
jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite tinha
sempre a me esperar
Um punhado de problemas e criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Mas felizmente eu consegui me formar
Mas da minha formatura, nem cheguei participarb
Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel
Nem o diretor careca entregou o meu papel
O meu papel, meu canudo de papel
O meu papel, meu canudo de papelc
E depois de tantos anos,
Só decepções, desenganosd
Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado
FERREIRA, M. J. Disponível em http://martinhodavila.com.br. Acesso em 04 abr. 2022.
Dentre as alternativas a seguir, a que apresenta uma vírgula utilizada em função de um deslocamento sintático é
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O PEQUENO BURGUÊS
Felicidade, passei no vestibular
Mas a faculdade é particular
Particular, ela é particular
Particular, ela é particular
Livros tão caros tantas taxas pra pagar
Meu dinheiro muito raro,
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
Morei no subúrbio, andei de trem atrasado
Do trabalho ia pra aula, sem
jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite tinha
sempre a me esperar
Um punhado de problemas e criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Mas felizmente eu consegui me formar
Mas da minha formatura, nem cheguei participar
Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel
Nem o diretor careca entregou o meu papel
O meu papel, meu canudo de papel
O meu papel, meu canudo de papel
E depois de tantos anos,
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado
FERREIRA, M. J. Disponível em http://martinhodavila.com.br. Acesso em 04 abr. 2022.
“Mas da minha formatura, nem cheguei participar / Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel”
Embora não haja um conectivo explícito, é possível depreender a relação lógico-semântica estabelecida entre os versos, de modo que o segundo verso poderia ser reescrito, sem prejuízo de sentido da seguinte maneira:
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O PEQUENO BURGUÊS
Felicidade, passei no vestibular
Mas a faculdade é particular
Particular, ela é particular
Particular, ela é particular
Livros tão caros tantas taxas pra pagar
Meu dinheiro muito raro,
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
Morei no subúrbio, andei de trem atrasado
Do trabalho ia pra aula, sem
jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite tinha
sempre a me esperar
Um punhado de problemas e criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Mas felizmente eu consegui me formar
Mas da minha formatura, nem cheguei participar
Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel
Nem o diretor careca entregou o meu papel
O meu papel, meu canudo de papel
O meu papel, meu canudo de papel
E depois de tantos anos,
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado
FERREIRA, M. J. Disponível em http://martinhodavila.com.br. Acesso em 04 abr. 2022.
O enunciador se descreve como “pobre-coitado”, um vocábulo que resulta do mesmo processo de formação de palavras que
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O PEQUENO BURGUÊS
Felicidade, passei no vestibular
Mas a faculdade é particular
Particular, ela é particular
Particular, ela é particular
Livros tão caros tantas taxas pra pagar
Meu dinheiro muito raro,
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
Morei no subúrbio, andei de trem atrasado
Do trabalho ia pra aula, sem
jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite tinha
sempre a me esperar
Um punhado de problemas e criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Mas felizmente eu consegui me formar
Mas da minha formatura, nem cheguei participar
Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel
Nem o diretor careca entregou o meu papel
O meu papel, meu canudo de papel
O meu papel, meu canudo de papel
E depois de tantos anos,
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado
FERREIRA, M. J. Disponível em http://martinhodavila.com.br. Acesso em 04 abr. 2022.
“Felicidade, passei no vestibular / Mas a faculdade é particular”
A partir da análise da conjunção destacada nos versos acima, pode-se perceber que a relação de sentido entre as palavras “felicidade” e “particular” na canção de Martinho da Vila é de
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O PEQUENO BURGUÊS
Felicidade, passei no vestibular
Mas a faculdade é particular
Particular, ela é particular
Particular, ela é particular
Livros tão caros tantas taxas pra pagar
Meu dinheiro muito raro,
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
Morei no subúrbio, andei de trem atrasado
Do trabalho ia pra aula, sem
jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite tinha
sempre a me esperar
Um punhado de problemas e criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Mas felizmente eu consegui me formar
Mas da minha formatura, nem cheguei participar
Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel
Nem o diretor careca entregou o meu papel
O meu papel, meu canudo de papel
O meu papel, meu canudo de papel
E depois de tantos anos,
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado
FERREIRA, M. J. Disponível em http://martinhodavila.com.br. Acesso em 04 abr. 2022.
A leitura atenta da canção de Martinho da Vila, inclusive de seu título, permite entender que o enunciador
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OS CONFLITOS DE CLASSE DO BRASIL MODERNO
[...] As classes são reproduzidas no tempo pela família e pela transmissão afetiva pelos pais aos filhos de uma dada “economia emocional”. O sucesso escolar dependerá, por exemplo, da transferência efetiva, aos filhos, de disciplina, pensamento prospectivo – ou seja, a capacidade de renúncia no presente em nome do futuro – e capacidade de concentração. Sem isso, os filhos se tornam no máximo analfabetos funcionais. Esse “patrimônio de disposições” para o comportamento prático, que é um privilégio de classe entre nós, vai esclarecer tanto a ocupação quanto a renda diferencial mais tarde. Como cada classe social tem um tipo de socialização familiar específica, é nela que as diferenças entre as classes têm que ser encontradas e ser objeto de reflexão.
As classes sociais só podem ser adequadamente percebidas, portanto, como um fenômeno, antes de tudo, sociocultural, e não apenas econômico. Sociocultural posto que o pertencimento de classe é um aprendizado que possibilita, em um caso, o sucesso e, em outros, o fracasso social. São os estímulos que a criança de classe média recebe em casa para o hábito de leitura, para a imaginação, o reforço constante de sua capacidade e autoestima que fazem com que os filhos dessa classe sejam destinados ao sucesso escolar e depois ao sucesso profissional no mercado de trabalho. Os filhos dos trabalhadores precários, sem os mesmos estímulos ao espírito e que brincam com o carrinho de mão do pai servente de pedreiro, aprendem a ser afetivamente, pela identificação com quem se ama, trabalhadores manuais desqualificados. A dificuldade na escola é muito maior pela falta de exemplos em casa, condenando essa classe ao fracasso escolar e, mais tarde, ao fracasso profissional no mercado de trabalho competitivo.
Como somos formados, como seres humanos, pela imitação e incorporação pré-reflexiva e inconsciente daqueles que amamos e que cuidam de nós, ou seja, os nossos pais ou quem exerça as mesmas funções, a classe e seus privilégios ou carências são reproduzidos a cada geração. Como ninguém escolhe o berço em que nasce, é a sociedade que deve se responsabilizar pelas classes que foram esquecidas e abandonadas. Foi isso que fizeram, sem exceção, todas as nações que lograram desenvolver sociedades minimamente igualitárias. No nosso caso, as classes populares não foram simplesmente abandonadas. Elas foram humilhadas, enganadas, tiveram sua formação familiar conscientemente prejudicada e foram vítimas de todo tipo de preconceito, seja na escravidão, seja hoje em dia. Essa é nossa diferença real em relação à Europa que admiramos. A principal diferença é que a Europa tornou as precondições sociais de todas as classes muito mais homogêneas. Ainda que exista desigualdade social, ela não é abissal como aqui.
Não se trata apenas de acesso à boa escola – o que nunca existiu para as classes populares. Trata-se de criticar a nossa herança escravocrata, que agora é usada para oprimir todas as classes populares independentemente da cor da pele, ainda que a cor da pele negra implique uma maldade adicional. Como esse mecanismo sociocultural de formação das classes sociais é tornado invisível, então o racismo da cor da pele passa a ser o único fator simbólico percebido na desigualdade do dia a dia. É importante, no entanto, notar também as carências que reproduzem as misérias que são de pertencimento à classe, já que elas, ao contrário da cor da pele do indivíduo, podem ser modificadas.
SOUZA, J. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017, p. 88-89. (adaptado).
“Ainda que exista desigualdade social, ela não é abissal como aqui.”
Usada com sentido figurado hiperbólico, a palavra destacada poderia ser substituída em sentido denotativo por
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