O PEQUENO BURGUÊS
Felicidade, passei no vestibular
Mas a faculdade é particular
Particular, ela é particular
Particular, ela é particular
Livros tão caros tantas taxas pra pagar
Meu dinheiro muito raro,
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
Morei no subúrbio, andei de trem atrasado
Do trabalho ia pra aula, sem
jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite tinha
sempre a me esperar
Um punhado de problemas e criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Mas felizmente eu consegui me formar
Mas da minha formatura, nem cheguei participar
Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel
Nem o diretor careca entregou o meu papel
O meu papel, meu canudo de papel
O meu papel, meu canudo de papel
E depois de tantos anos,
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado
FERREIRA, M. J. Disponível em http://martinhodavila.com.br. Acesso em 04 abr. 2022.
Texto III
Então você passou dias de angústia pensando ‘como você iria levar Crime e castigo para aqueles alunos. Logo eles, “os que não entendem de nada”. “Os perdedores”. Você não tinha alternativa, tinha de cumprir o prometido. Então você releu Crime e castigo em casa, selecionou as partes que julgou mais contundentes. Tirou uma cópia. E, depois de reler, você se pôs a memorizar os trechos. Fez isso porque você não podia simplesmente ler o texto com eles, você tinha de contar algumas passagens. Dizer algumas palavras com mais ênfase, fazer as pausas necessárias. Deixar o silêncio falar por sib. Afagar o léxico. Olhá-los nos olhos. E realmente parecia que estava funcionando. A descrição de Dostoiévski os hipnotizavad. Entre a narração de uma morte e outra, podia-se ouvir a respiração dos alunos. Teu cansaço havia sumidoa, e uma nova sensação de plenitude começava a tomar conta de você. Você achou que leria quatro páginas, mas acabaram lendo mais de quarenta nos dias seguintes. Cada aula vocês liam seis a dez páginasc. Você se preparava, dramatizava, às vezes levantava, fazia gestos incisivos, e alguns se assustavam, pareciam angustiados. Então, no fim de uma aula, um aluno chamado Peterson foi falar com você. Queria saber qual era o castigo que Raskólnikov teria por cometer aqueles crimes. Peterson morava com dois irmãos, os pais morreram e quem sustentava a casa era o mais velho. Peterson ainda estava na escola por um milagre. Há muitas formas e motivos para desistir da escola. Peterson era negro, tinha dezessete anos. Não conseguia emprego porque tinha que se alistar no Exército. Você agora precisava tomar cuidado com o que ia dizer. Você disse que Raskólnikov ia ser preso. Peterson te olhou e depois perguntou se Raskólnikov era uma pessoa real. Você respondeu que não, mas que poderia ter sido.
TENÓRIO, J. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020, p. 168.
O Texto II apresenta um exemplo de uma prática pedagógica bem-sucedida, na medida em que descreve a reação dos alunos frente à leitura proposta. Assinale a alternativa que contém o trecho que melhor descreve a atenção dos alunos conquistada pelo professor.