Foram encontradas 55 questões.
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de
fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao
redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a
não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo
se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque
não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais
cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o
sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo
porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque
não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho
porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está
cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido
o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a
guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que
haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E,
não acreditando nas negociações de paz, aceita ler
todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir
no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado
quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja
e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro
com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a
fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas
valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter
com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes.
A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e
assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas
de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial
de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na
luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se
acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai
afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma
revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na
primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia
está contaminada, a gente molha só os pés e sua no
resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se
consola pensando no fim de semana. E se no fim de
semana não há muito o que fazer a gente vai dormir
cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono
atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas,
sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta,
para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de
tanto acostumar, se perde de si mesma.
Disponível em:
<http://www.releituras.com/mcolasanti_eusei.asp>.
Acesso em 20 mar. 2020.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de
fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao
redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a
não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo
se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque
não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais
cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o
sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo
porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque
não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho
porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está
cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido
o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a
guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que
haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E,
não acreditando nas negociações de paz, aceita ler
todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir
no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado
quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja
e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro
com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a
fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas
valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter
com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes.
A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e
assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas
de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial
de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na
luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se
acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai
afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma
revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na
primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia
está contaminada, a gente molha só os pés e sua no
resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se
consola pensando no fim de semana. E se no fim de
semana não há muito o que fazer a gente vai dormir
cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono
atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas,
sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta,
para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de
tanto acostumar, se perde de si mesma.
Disponível em:
<http://www.releituras.com/mcolasanti_eusei.asp>.
Acesso em 20 mar. 2020.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de
fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao
redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a
não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo
se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque
não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais
cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o
sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo
porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque
não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho
porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está
cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido
o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a
guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que
haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E,
não acreditando nas negociações de paz, aceita ler
todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir
no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado
quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja
e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro
com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a
fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas
valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter
com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes.
A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e
assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas
de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial
de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na
luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se
acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai
afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma
revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na
primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia
está contaminada, a gente molha só os pés e sua no
resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se
consola pensando no fim de semana. E se no fim de
semana não há muito o que fazer a gente vai dormir
cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono
atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas,
sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta,
para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de
tanto acostumar, se perde de si mesma.
Disponível em:
<http://www.releituras.com/mcolasanti_eusei.asp>.
Acesso em 20 mar. 2020.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Pandemia nos faz questionar noção
de individualidade
Verlaine Freitas*
“Quem sou eu em meio ao oceano de pessoas do
país e do mundo?” “O que representam bilhões de
pessoas do planeta para mim, um mero indivíduo?”
Essas perguntas, que nos rondam ocasionalmente
como meras fantasias existenciais – sem respostas e
sem desdobramentos práticos, meros índices das
incertezas quanto ao sentido da existência individual
e coletiva em um mundo cada vez mais individualista,
repentinamente ganharam uma concretude avassaladora.
A pandemia de COVID-19 nos mostra a densidade
urgente, visceral e corpórea do tecido societário,
expondo à luz do dia como falácias inadmissíveis os
discursos baseados no mero esforço próprio, nas
opções individuais, no interesse centrado na maximização do lucro em detrimento do bem-estar coletivo.
[...]
Vivemos atualmente um chamamento à concretude radical da negatividade do mundo, muito além
da experimentada nas figuras dos vilões nos filmes,
nas derrotas esportivas e nas notícias de guerras do
outro lado do mundo.
Ela deverá forjar uma nova consciência do significado dessa vida “em piloto automático”, com este
vaivém constante, seguindo o eterno princípio da
maior vantagem para si. Tal como toda interrupção
do trânsito com objetos de desejo constrange a uma
posição crítica sobre o significado deste vínculo, agora também seremos levados a nos perguntar sobre
esta colonização expansiva do mundo, cuja marcha
inexorável levou a natureza a nos questionar: “Quais
seus limites? Qual a racionalidade social disso tudo?
Quais os custos ambientais e de vidas humanas vocês
estão dispostos a pagar para manter a ilusão de um
individualismo exacerbado?”.
Naturalmente, o aprendizado dessa experiência
negativa será muito diverso, pois alguns grupos sociais lucram com esta crise, outros aferram-se a leituras religiosas fundamentalistas baseando-se no conceito de castigo divino, e alguns tenderão a se fechar
mais ainda em seu mundo, isolando-se de toda e
qualquer responsabilização social.
Espero, porém, que a maior parte da sociedade
tenha uma visão crítica progressista, cobrando de si e
dos outros um comprometimento maior com o bemestar social, percebendo o quanto a vida em sociedade significa, por si, uma dimensão inexpugnável e
inelidível da vida individual no sentido mais próprio
do termo.
O isolamento social a que hoje nos vemos forçados pode ser lido como uma metáfora do quanto a
negligência para com os serviços públicos de saúde
significa o desprezo para com a vida de cada uma e
cada um de nós em termos singulares.
Os filósofos da Escola de Frankfurt, Theodor
Adorno e Max Horkheimer, haviam concebido a destruição avassaladora da Segunda Guerra Mundial
como um retorno violento da natureza recalcada,
reprimida e mutilada. Tal como, segundo a psicanálise, desejos recalcados retornam sob a forma de sofrimento neurótico, todo o complexo natural pareceu
retornar, furioso, nas centenas de bombas despejados sobre as metrópoles.
Agora vemos, mais uma vez, porém de forma menos metafórica, a natureza cobrando um alto preço
pelo esquecimento de que somos seres vivos, aliás
muito frágeis, muito mais fracos que outros, invisíveis
aos nossos olhos, mas muito mais poderosos que nós
humanos, demasiadamente humanos.
*Verlaine Freitas é professor da UFMG e pesquisador
do CNPq
Disponível em:<https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/ 03/28/interna_cultura,1133266/pandemia-nos-faz-questionar-nocao-de-individualidade-diz-filosofo-da.shtml>
. Acesso em 28 mar. 2020.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Pandemia nos faz questionar noção
de individualidade
Verlaine Freitas*
“Quem sou eu em meio ao oceano de pessoas do
país e do mundo?” “O que representam bilhões de
pessoas do planeta para mim, um mero indivíduo?”
Essas perguntas, que nos rondam ocasionalmente
como meras fantasias existenciais – sem respostas e
sem desdobramentos práticos, meros índices das
incertezas quanto ao sentido da existência individual
e coletiva em um mundo cada vez mais individualista,
repentinamente ganharam uma concretude avassaladora.
A pandemia de COVID-19 nos mostra a densidade
urgente, visceral e corpórea do tecido societário,
expondo à luz do dia como falácias inadmissíveis os
discursos baseados no mero esforço próprio, nas
opções individuais, no interesse centrado na maximização do lucro em detrimento do bem-estar coletivo.
[...]
Vivemos atualmente um chamamento à concretude radical da negatividade do mundo, muito além
da experimentada nas figuras dos vilões nos filmes,
nas derrotas esportivas e nas notícias de guerras do
outro lado do mundo.
Ela deverá forjar uma nova consciência do significado dessa vida “em piloto automático”, com este
vaivém constante, seguindo o eterno princípio da
maior vantagem para si. Tal como toda interrupção
do trânsito com objetos de desejo constrange a uma
posição crítica sobre o significado deste vínculo, agora também seremos levados a nos perguntar sobre
esta colonização expansiva do mundo, cuja marcha
inexorável levou a natureza a nos questionar: “Quais
seus limites? Qual a racionalidade social disso tudo?
Quais os custos ambientais e de vidas humanas vocês
estão dispostos a pagar para manter a ilusão de um
individualismo exacerbado?”.
Naturalmente, o aprendizado dessa experiência
negativa será muito diverso, pois alguns grupos sociais lucram com esta crise, outros aferram-se a leituras religiosas fundamentalistas baseando-se no conceito de castigo divino, e alguns tenderão a se fechar
mais ainda em seu mundo, isolando-se de toda e
qualquer responsabilização social.
Espero, porém, que a maior parte da sociedade
tenha uma visão crítica progressista, cobrando de si e
dos outros um comprometimento maior com o bemestar social, percebendo o quanto a vida em sociedade significa, por si, uma dimensão inexpugnável e
inelidível da vida individual no sentido mais próprio
do termo.
O isolamento social a que hoje nos vemos forçados pode ser lido como uma metáfora do quanto a
negligência para com os serviços públicos de saúde
significa o desprezo para com a vida de cada uma e
cada um de nós em termos singulares.
Os filósofos da Escola de Frankfurt, Theodor
Adorno e Max Horkheimer, haviam concebido a destruição avassaladora da Segunda Guerra Mundial
como um retorno violento da natureza recalcada,
reprimida e mutilada. Tal como, segundo a psicanálise, desejos recalcados retornam sob a forma de sofrimento neurótico, todo o complexo natural pareceu
retornar, furioso, nas centenas de bombas despejados sobre as metrópoles.
Agora vemos, mais uma vez, porém de forma menos metafórica, a natureza cobrando um alto preço
pelo esquecimento de que somos seres vivos, aliás
muito frágeis, muito mais fracos que outros, invisíveis
aos nossos olhos, mas muito mais poderosos que nós
humanos, demasiadamente humanos.
*Verlaine Freitas é professor da UFMG e pesquisador
do CNPq
Disponível em:<https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/ 03/28/interna_cultura,1133266/pandemia-nos-faz-questionar-nocao-de-individualidade-diz-filosofo-da.shtml>
. Acesso em 28 mar. 2020.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Pandemia nos faz questionar noção
de individualidade
Verlaine Freitas*
“Quem sou eu em meio ao oceano de pessoas do
país e do mundo?” “O que representam bilhões de
pessoas do planeta para mim, um mero indivíduo?”
Essas perguntas, que nos rondam ocasionalmente
como meras fantasias existenciais – sem respostas e
sem desdobramentos práticos, meros índices das
incertezas quanto ao sentido da existência individual
e coletiva em um mundo cada vez mais individualista,
repentinamente ganharam uma concretude avassaladora.
A pandemia de COVID-19 nos mostra a densidade
urgente, visceral e corpórea do tecido societário,
expondo à luz do dia como falácias inadmissíveis os
discursos baseados no mero esforço próprio, nas
opções individuais, no interesse centrado na maximização do lucro em detrimento do bem-estar coletivo.
[...]
Vivemos atualmente um chamamento à concretude radical da negatividade do mundo, muito além
da experimentada nas figuras dos vilões nos filmes,
nas derrotas esportivas e nas notícias de guerras do
outro lado do mundo.
Ela deverá forjar uma nova consciência do significado dessa vida “em piloto automático”, com este
vaivém constante, seguindo o eterno princípio da
maior vantagem para si. Tal como toda interrupção
do trânsito com objetos de desejo constrange a uma
posição crítica sobre o significado deste vínculo, agora também seremos levados a nos perguntar sobre
esta colonização expansiva do mundo, cuja marcha
inexorável levou a natureza a nos questionar: “Quais
seus limites? Qual a racionalidade social disso tudo?
Quais os custos ambientais e de vidas humanas vocês
estão dispostos a pagar para manter a ilusão de um
individualismo exacerbado?”.
Naturalmente, o aprendizado dessa experiência
negativa será muito diverso, pois alguns grupos sociais lucram com esta crise, outros aferram-se a leituras religiosas fundamentalistas baseando-se no conceito de castigo divino, e alguns tenderão a se fechar
mais ainda em seu mundo, isolando-se de toda e
qualquer responsabilização social.
Espero, porém, que a maior parte da sociedade
tenha uma visão crítica progressista, cobrando de si e
dos outros um comprometimento maior com o bemestar social, percebendo o quanto a vida em sociedade significa, por si, uma dimensão inexpugnável e
inelidível da vida individual no sentido mais próprio
do termo.
O isolamento social a que hoje nos vemos forçados pode ser lido como uma metáfora do quanto a
negligência para com os serviços públicos de saúde
significa o desprezo para com a vida de cada uma e
cada um de nós em termos singulares.
Os filósofos da Escola de Frankfurt, Theodor
Adorno e Max Horkheimer, haviam concebido a destruição avassaladora da Segunda Guerra Mundial
como um retorno violento da natureza recalcada,
reprimida e mutilada. Tal como, segundo a psicanálise, desejos recalcados retornam sob a forma de sofrimento neurótico, todo o complexo natural pareceu
retornar, furioso, nas centenas de bombas despejados sobre as metrópoles.
Agora vemos, mais uma vez, porém de forma menos metafórica, a natureza cobrando um alto preço
pelo esquecimento de que somos seres vivos, aliás
muito frágeis, muito mais fracos que outros, invisíveis
aos nossos olhos, mas muito mais poderosos que nós
humanos, demasiadamente humanos.
*Verlaine Freitas é professor da UFMG e pesquisador
do CNPq
Disponível em:<https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/ 03/28/interna_cultura,1133266/pandemia-nos-faz-questionar-nocao-de-individualidade-diz-filosofo-da.shtml>
. Acesso em 28 mar. 2020.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
- SemânticaDenotação e Conotação
- Interpretação de TextosFiguras e Vícios de LinguagemFiguras de Linguagem
Pandemia nos faz questionar noção
de individualidade
Verlaine Freitas*
“Quem sou eu em meio ao oceano de pessoas do
país e do mundo?” “O que representam bilhões de
pessoas do planeta para mim, um mero indivíduo?”
Essas perguntas, que nos rondam ocasionalmente
como meras fantasias existenciais – sem respostas e
sem desdobramentos práticos, meros índices das
incertezas quanto ao sentido da existência individual
e coletiva em um mundo cada vez mais individualista,
repentinamente ganharam uma concretude avassaladora.
A pandemia de COVID-19 nos mostra a densidade
urgente, visceral e corpórea do tecido societário,
expondo à luz do dia como falácias inadmissíveis os
discursos baseados no mero esforço próprio, nas
opções individuais, no interesse centrado na maximização do lucro em detrimento do bem-estar coletivo.
[...]
Vivemos atualmente um chamamento à concretude radical da negatividade do mundo, muito além
da experimentada nas figuras dos vilões nos filmes,
nas derrotas esportivas e nas notícias de guerras do
outro lado do mundo.
Ela deverá forjar uma nova consciência do significado dessa vida “em piloto automático”, com este
vaivém constante, seguindo o eterno princípio da
maior vantagem para si. Tal como toda interrupção
do trânsito com objetos de desejo constrange a uma
posição crítica sobre o significado deste vínculo, agora também seremos levados a nos perguntar sobre
esta colonização expansiva do mundo, cuja marcha
inexorável levou a natureza a nos questionar: “Quais
seus limites? Qual a racionalidade social disso tudo?
Quais os custos ambientais e de vidas humanas vocês
estão dispostos a pagar para manter a ilusão de um
individualismo exacerbado?”.
Naturalmente, o aprendizado dessa experiência
negativa será muito diverso, pois alguns grupos sociais lucram com esta crise, outros aferram-se a leituras religiosas fundamentalistas baseando-se no conceito de castigo divino, e alguns tenderão a se fechar
mais ainda em seu mundo, isolando-se de toda e
qualquer responsabilização social.
Espero, porém, que a maior parte da sociedade
tenha uma visão crítica progressista, cobrando de si e
dos outros um comprometimento maior com o bemestar social, percebendo o quanto a vida em sociedade significa, por si, uma dimensão inexpugnável e
inelidível da vida individual no sentido mais próprio
do termo.
O isolamento social a que hoje nos vemos forçados pode ser lido como uma metáfora do quanto a
negligência para com os serviços públicos de saúde
significa o desprezo para com a vida de cada uma e
cada um de nós em termos singulares.
Os filósofos da Escola de Frankfurt, Theodor
Adorno e Max Horkheimer, haviam concebido a destruição avassaladora da Segunda Guerra Mundial
como um retorno violento da natureza recalcada,
reprimida e mutilada. Tal como, segundo a psicanálise, desejos recalcados retornam sob a forma de sofrimento neurótico, todo o complexo natural pareceu
retornar, furioso, nas centenas de bombas despejados sobre as metrópoles.
Agora vemos, mais uma vez, porém de forma menos metafórica, a natureza cobrando um alto preço
pelo esquecimento de que somos seres vivos, aliás
muito frágeis, muito mais fracos que outros, invisíveis
aos nossos olhos, mas muito mais poderosos que nós
humanos, demasiadamente humanos.
*Verlaine Freitas é professor da UFMG e pesquisador
do CNPq
Disponível em:<https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/ 03/28/interna_cultura,1133266/pandemia-nos-faz-questionar-nocao-de-individualidade-diz-filosofo-da.shtml>
. Acesso em 28 mar. 2020.
No último parágrafo, o autor observa:
“Agora vemos, mais uma vez, porém de forma menos metafórica, a natureza cobrando um alto preço pelo esquecimento de que somos seres vivos, [...].” (10º parágrafo)
Sobre esse trecho, é correto afirmar que a expressão grifada indica que o autor
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Pandemia nos faz questionar noção
de individualidade
Verlaine Freitas*
“Quem sou eu em meio ao oceano de pessoas do
país e do mundo?” “O que representam bilhões de
pessoas do planeta para mim, um mero indivíduo?”
Essas perguntas, que nos rondam ocasionalmente
como meras fantasias existenciais – sem respostas e
sem desdobramentos práticos, meros índices das
incertezas quanto ao sentido da existência individual
e coletiva em um mundo cada vez mais individualista,
repentinamente ganharam uma concretude avassaladora.
A pandemia de COVID-19 nos mostra a densidade
urgente, visceral e corpórea do tecido societário,
expondo à luz do dia como falácias inadmissíveis os
discursos baseados no mero esforço próprio, nas
opções individuais, no interesse centrado na maximização do lucro em detrimento do bem-estar coletivo.
[...]
Vivemos atualmente um chamamento à concretude radical da negatividade do mundo, muito além
da experimentada nas figuras dos vilões nos filmes,
nas derrotas esportivas e nas notícias de guerras do
outro lado do mundo.
Ela deverá forjar uma nova consciência do significado dessa vida “em piloto automático”, com este
vaivém constante, seguindo o eterno princípio da
maior vantagem para si. Tal como toda interrupção
do trânsito com objetos de desejo constrange a uma
posição crítica sobre o significado deste vínculo, agora também seremos levados a nos perguntar sobre
esta colonização expansiva do mundo, cuja marcha
inexorável levou a natureza a nos questionar: “Quais
seus limites? Qual a racionalidade social disso tudo?
Quais os custos ambientais e de vidas humanas vocês
estão dispostos a pagar para manter a ilusão de um
individualismo exacerbado?”.
Naturalmente, o aprendizado dessa experiência
negativa será muito diverso, pois alguns grupos sociais lucram com esta crise, outros aferram-se a leituras religiosas fundamentalistas baseando-se no conceito de castigo divino, e alguns tenderão a se fechar
mais ainda em seu mundo, isolando-se de toda e
qualquer responsabilização social.
Espero, porém, que a maior parte da sociedade
tenha uma visão crítica progressista, cobrando de si e
dos outros um comprometimento maior com o bemestar social, percebendo o quanto a vida em sociedade significa, por si, uma dimensão inexpugnável e
inelidível da vida individual no sentido mais próprio
do termo.
O isolamento social a que hoje nos vemos forçados pode ser lido como uma metáfora do quanto a
negligência para com os serviços públicos de saúde
significa o desprezo para com a vida de cada uma e
cada um de nós em termos singulares.
Os filósofos da Escola de Frankfurt, Theodor
Adorno e Max Horkheimer, haviam concebido a destruição avassaladora da Segunda Guerra Mundial
como um retorno violento da natureza recalcada,
reprimida e mutilada. Tal como, segundo a psicanálise, desejos recalcados retornam sob a forma de sofrimento neurótico, todo o complexo natural pareceu
retornar, furioso, nas centenas de bombas despejados sobre as metrópoles.
Agora vemos, mais uma vez, porém de forma menos metafórica, a natureza cobrando um alto preço
pelo esquecimento de que somos seres vivos, aliás
muito frágeis, muito mais fracos que outros, invisíveis
aos nossos olhos, mas muito mais poderosos que nós
humanos, demasiadamente humanos.
*Verlaine Freitas é professor da UFMG e pesquisador
do CNPq
Disponível em:<https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/ 03/28/interna_cultura,1133266/pandemia-nos-faz-questionar-nocao-de-individualidade-diz-filosofo-da.shtml>
. Acesso em 28 mar. 2020.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Pandemia nos faz questionar noção
de individualidade
Verlaine Freitas*
“Quem sou eu em meio ao oceano de pessoas do
país e do mundo?” “O que representam bilhões de
pessoas do planeta para mim, um mero indivíduo?”
Essas perguntas, que nos rondam ocasionalmente
como meras fantasias existenciais – sem respostas e
sem desdobramentos práticos, meros índices das
incertezas quanto ao sentido da existência individual
e coletiva em um mundo cada vez mais individualista,
repentinamente ganharam uma concretude avassaladora.
A pandemia de COVID-19 nos mostra a densidade
urgente, visceral e corpórea do tecido societário,
expondo à luz do dia como falácias inadmissíveis os
discursos baseados no mero esforço próprio, nas
opções individuais, no interesse centrado na maximização do lucro em detrimento do bem-estar coletivo.
[...]
Vivemos atualmente um chamamento à concretude radical da negatividade do mundo, muito além
da experimentada nas figuras dos vilões nos filmes,
nas derrotas esportivas e nas notícias de guerras do
outro lado do mundo.
Ela deverá forjar uma nova consciência do significado dessa vida “em piloto automático”, com este
vaivém constante, seguindo o eterno princípio da
maior vantagem para si. Tal como toda interrupção
do trânsito com objetos de desejo constrange a uma
posição crítica sobre o significado deste vínculo, agora também seremos levados a nos perguntar sobre
esta colonização expansiva do mundo, cuja marcha
inexorável levou a natureza a nos questionar: “Quais
seus limites? Qual a racionalidade social disso tudo?
Quais os custos ambientais e de vidas humanas vocês
estão dispostos a pagar para manter a ilusão de um
individualismo exacerbado?”.
Naturalmente, o aprendizado dessa experiência
negativa será muito diverso, pois alguns grupos sociais lucram com esta crise, outros aferram-se a leituras religiosas fundamentalistas baseando-se no conceito de castigo divino, e alguns tenderão a se fechar
mais ainda em seu mundo, isolando-se de toda e
qualquer responsabilização social.
Espero, porém, que a maior parte da sociedade
tenha uma visão crítica progressista, cobrando de si e
dos outros um comprometimento maior com o bemestar social, percebendo o quanto a vida em sociedade significa, por si, uma dimensão inexpugnável e
inelidível da vida individual no sentido mais próprio
do termo.
O isolamento social a que hoje nos vemos forçados pode ser lido como uma metáfora do quanto a
negligência para com os serviços públicos de saúde
significa o desprezo para com a vida de cada uma e
cada um de nós em termos singulares.
Os filósofos da Escola de Frankfurt, Theodor
Adorno e Max Horkheimer, haviam concebido a destruição avassaladora da Segunda Guerra Mundial
como um retorno violento da natureza recalcada,
reprimida e mutilada. Tal como, segundo a psicanálise, desejos recalcados retornam sob a forma de sofrimento neurótico, todo o complexo natural pareceu
retornar, furioso, nas centenas de bombas despejados sobre as metrópoles.
Agora vemos, mais uma vez, porém de forma menos metafórica, a natureza cobrando um alto preço
pelo esquecimento de que somos seres vivos, aliás
muito frágeis, muito mais fracos que outros, invisíveis
aos nossos olhos, mas muito mais poderosos que nós
humanos, demasiadamente humanos.
*Verlaine Freitas é professor da UFMG e pesquisador
do CNPq
Disponível em:<https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/ 03/28/interna_cultura,1133266/pandemia-nos-faz-questionar-nocao-de-individualidade-diz-filosofo-da.shtml>
. Acesso em 28 mar. 2020.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Pandemia nos faz questionar noção
de individualidade
Verlaine Freitas*
“Quem sou eu em meio ao oceano de pessoas do
país e do mundo?” “O que representam bilhões de
pessoas do planeta para mim, um mero indivíduo?”
Essas perguntas, que nos rondam ocasionalmente
como meras fantasias existenciais – sem respostas e
sem desdobramentos práticos, meros índices das
incertezas quanto ao sentido da existência individual
e coletiva em um mundo cada vez mais individualista,
repentinamente ganharam uma concretude avassaladora.
A pandemia de COVID-19 nos mostra a densidade
urgente, visceral e corpórea do tecido societário,
expondo à luz do dia como falácias inadmissíveis os
discursos baseados no mero esforço próprio, nas
opções individuais, no interesse centrado na maximização do lucro em detrimento do bem-estar coletivo.
[...]
Vivemos atualmente um chamamento à concretude radical da negatividade do mundo, muito além
da experimentada nas figuras dos vilões nos filmes,
nas derrotas esportivas e nas notícias de guerras do
outro lado do mundo.
Ela deverá forjar uma nova consciência do significado dessa vida “em piloto automático”, com este
vaivém constante, seguindo o eterno princípio da
maior vantagem para si. Tal como toda interrupção
do trânsito com objetos de desejo constrange a uma
posição crítica sobre o significado deste vínculo, agora também seremos levados a nos perguntar sobre
esta colonização expansiva do mundo, cuja marcha
inexorável levou a natureza a nos questionar: “Quais
seus limites? Qual a racionalidade social disso tudo?
Quais os custos ambientais e de vidas humanas vocês
estão dispostos a pagar para manter a ilusão de um
individualismo exacerbado?”.
Naturalmente, o aprendizado dessa experiência
negativa será muito diverso, pois alguns grupos sociais lucram com esta crise, outros aferram-se a leituras religiosas fundamentalistas baseando-se no conceito de castigo divino, e alguns tenderão a se fechar
mais ainda em seu mundo, isolando-se de toda e
qualquer responsabilização social.
Espero, porém, que a maior parte da sociedade
tenha uma visão crítica progressista, cobrando de si e
dos outros um comprometimento maior com o bemestar social, percebendo o quanto a vida em sociedade significa, por si, uma dimensão inexpugnável e
inelidível da vida individual no sentido mais próprio
do termo.
O isolamento social a que hoje nos vemos forçados pode ser lido como uma metáfora do quanto a
negligência para com os serviços públicos de saúde
significa o desprezo para com a vida de cada uma e
cada um de nós em termos singulares.
Os filósofos da Escola de Frankfurt, Theodor
Adorno e Max Horkheimer, haviam concebido a destruição avassaladora da Segunda Guerra Mundial
como um retorno violento da natureza recalcada,
reprimida e mutilada. Tal como, segundo a psicanálise, desejos recalcados retornam sob a forma de sofrimento neurótico, todo o complexo natural pareceu
retornar, furioso, nas centenas de bombas despejados sobre as metrópoles.
Agora vemos, mais uma vez, porém de forma menos metafórica, a natureza cobrando um alto preço
pelo esquecimento de que somos seres vivos, aliás
muito frágeis, muito mais fracos que outros, invisíveis
aos nossos olhos, mas muito mais poderosos que nós
humanos, demasiadamente humanos.
*Verlaine Freitas é professor da UFMG e pesquisador
do CNPq
Disponível em:<https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2020/ 03/28/interna_cultura,1133266/pandemia-nos-faz-questionar-nocao-de-individualidade-diz-filosofo-da.shtml>
. Acesso em 28 mar. 2020.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Cadernos
Caderno Container