Hoje me mandaram um coração branco
Recebi hoje um coraçãozinho branco. Um
emoji, “letra-imagem” em japonês. Era do Japão,
afinal, o sujeito que criou esses hieroglifos
modernos, para uma companhia telefônica, há
quase 35 anos. Quem já mandou uma imagem de
“joinha” pelo zap ou alguma rede social sabe da
sintética utilidade dessas figurinhas que bailam
nos diálogos pela internet.
Pois, já espalhei e recebi coraçõezinhos
vermelhos, num despretensioso carinho
cibernético por amigos, parentes e amores. E esse
coração branco me fez lembrar que tinha visto
outros de cores diferentes. Fui pesquisar, e
descobri um arco-íris cardíaco pulsando com
uma variedade de significados de tirar o fôlego.
O coraçãozinho roxo, por exemplo, quem
diria, pode ser usado para expressar cuidado, e,
também, amor platônico. O verde tem
conotações ambientalistas, e de renovação. O
laranja, vibrante, serve para mostrar que a pessoa
está animadona com o romance, ou com a
amizade. Já o amarelo é para afastar fantasias
românticas: “somos apenas bons amigos”, lateja
o emoji amarelado.
Não deveria surpreender. Como diz a
frase que li, dia desses, atribuída ao Veríssimo:
quem sabe o que se esconde nos corações
humanos? Nos demais emojis, então, os
significados são mais surpreendentes do que
supõe a vã semiologia. (...)
E os emojis são apenas um dos perigos na
linguagem das redes. Como já sabiam os peixes,
elas, as redes, são ardilosas, cheias de iscas malintencionadas; armadilhas particularmente
perigosas.
Todos os dias, milhares de pessoas
maduras são capturadas pelos trotes e cascatas da
internet, de teorias conspiratórias sobre o roubo
do nióbio brasileiro a pedidos de ajuda para
pessoas supostamente perdidas — como uma
menina romena desaparecida há anos,
impulsionada no Brasil por gente de boa vontade e nenhuma disposição para checar os memes que
lhe caem na tela do computador. (...)
O coraçãozinho que recebi, felizmente,
era branco. Enviado por uma moça que, de início,
me mandou um coração vermelhinho, como os
verdadeiros, em resposta a um elogio. E, na
continuação do diálogo, transplantou esse
branco, que, descobri, quer dizer carinho sem
segundas intenções, mas também pode significar
que a pessoa que enviou não só não te ama como
não sente nem sequer proximidade. (...)
LEO, Sergio. Hoje me mandaram um coração
branco. Correio Braziliense. 06 out. 2024.
Disponível em
<https://www.correiobraziliense.com.br/revistado-correio/2024/10/6955830-cronica-cidadenossa-hoje-me-mandaram-um-coracaobranco.html>.