O fragmento abaixo faz parte do conto “No
moinho”, do escritor Eça de Queirós, e revela o
momento em que Maria da Piedade apaixona-se
por Adrião. Leia-o atenciosamente para responder
à questão.
Refugiava-se então naquele amor como uma
compensação deliciosa. Julgando-o todo puro, todo
de alma, deixava-se penetrar dele e da sua lenta
influência. Adrião tornara-se, na sua imaginação,
como um ser de proporções extraordinárias,
tudo o que é forte, e que é belo, e que dá razão
à vida. […] Leu todos os seus livros, sobretudo
aquela Madalena que também amara, e morrera
de um abandono. Estas leituras acalmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfação ao desejo.
Chorando as dores das heroínas de romance,
parecia sentir alívio às suas.
Lentamente, esta necessidade de encher a
imaginação desses lances de amor, de dramas
infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses
um devorar constante de romances. Ia-se assim
criando no seu espírito um mundo artificial e
idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa,
sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde
encontrava sempre agarrado às saias um ser
enfermo. Vieram as primeiras revoltas. Tornou-se
impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada
aos episódios sentimentais do seu livro, para ir
ajudar a voltar o marido e sentir-lhe o hálito mau.
Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros,
das feridas dos pequenos a lavar. Começou a
ler versos. Passava horas só, num mutismo,
à janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura
toda a rebelião duma apaixonada. Acreditava nos
amantes que escalam os balcões, entre o canto
dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída
num mistério de noite romântica…
Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/no-moinho-eca-de-queiros/#google_vignette. Acesso em: 05 fev. 2026.