Entre os muitos méritos dos nossos livros, nem sempre figura o da pureza da linguagem. Não é raro ver intercalados em bom estilo os solecismos da linguagem comum, defeito grave, a que se junta o da excessiva influência da língua francesa. Esse ponto é objeto de divergência entre os nossos escritores. Divergência, digo, porque, se alguns caem naqueles defeitos por ignorância ou preguiça, outros há que os adotam por princípio, ou antes, por uma exageração de princípio.
Não há dúvida que as línguas aumentam e se alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito, a influência do povo é decisiva. Há, portanto, certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade.
Mas, se isto é um fato incontestável, e se é verdadeiro o princípio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aquelas que destoem das leis da sintaxe e da essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite; e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão.
Machado de Assis. O jornal e o livro. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.25-6.
Com relação às ideias e a aspectos gramaticais do texto acima, julgue o item.
Seriam mantidos a correção gramatical e o sentido original do período que inicia o segundo parágrafo do texto, construído na ordem direta, se a expressão adverbial “com o tempo e as necessidades dos usos e costumes” fosse deslocada para o início do período, desde que seguida de vírgula e feitas as devidas alterações no emprego de maiúsculas e minúsculas.