Magna Concursos
2375853 Ano: 2007
Disciplina: Português
Banca: FCC
Orgão: Câm. Deputados
Considere-se o seguinte exemplo: há um casal; a esposa faz costumeiramente um certo trajeto para ir ao trabalho. O marido trabalha em casa e apenas eventualmente sai. Quando o faz, passa de carro perto do local de trabalho da esposa. Um dia, dá-se o seguinte diálogo, no momento em que a esposa vai sair:
Esposa: — Você vai no Darlan?
Marido: — Eu vou te levar, sim.
Evidentemente, a resposta do marido só é possível porque ele não considera a pergunta da esposa como um mero pedido de informação, mas como um modo de pedir carona. E isso só é possível se os interlocutores levarem em conta um quadro habitual de comportamento. Um ouvinte de Marte, se falasse uma língua absolutamente explícita, estranharia a resposta do marido, ou, no mínimo, não entenderia a expressão de satisfação da esposa diante de resposta tão inadequada, já que, pela sua forma, esta pergunta demandaria uma resposta do tipo “sim” ou “não”. É que, neste diálogo, está sendo considerado um certo cenário habitual, que não precisa ser explicitado discursivamente. Aliás, o estranho seria a explicitação diária do quadro em que uma pergunta do tipo acima é feita (ver a respeito de episódios conversacionais desse tipo, Gumperz, 1982, especialmente, pp. 1-8). Uma resposta como “não” seria interpretada, por outro lado, não como uma informação, simplesmente, mas como “hoje você vai ter que ir de ônibus”.
Mas o fato de que se devem levar em conta outros dados que não os tipicamente lingüísticos não significa que de qualquer enunciado se possa extrair qualquer significação. Por exemplo: seja o enunciado “abra a porta”. Não se sabe, a não ser na situação, se se trata de um pedido ou de uma ordem, considerada a relação entre o locutor e o interlocutor. Mas podemos também decidir entre uma e outra alternativa com a consideração detalhada dos elementos lingüísticos. Se esse enunciado for berrado, certamente não será um pedido. Por outro lado, pode ser até que “abra a porta” signifique, numa situação concreta “por que você não fecha a porta?” (por exemplo, se é dirigida a alguém que, queixando-se de calor, abrira a porta e, em seguida, começou a queixar-se de frio). Mas, então, este enunciado será produzido num tom irônico, e é com base nele que se poderá perceber a intenção do locutor, e não necessariamente por uma olhada na porta, para ver se ela está ou não fechada. Isto significa que, se é verdade que a situação é essencial, porque a língua é indeterminada, no sentido de não fornecer todos os elementos para a interpretação, este fato não quer dizer que de qualquer enunciado pode-se extrair qualquer significação. É que as teorias do contexto consideram impotente a lingüística das formas, mas não se deram conta de que talvez esta impotência não decorria necessariamente (ou só) da desconsideração do contexto, mas também da desconsideração de numerosos elementos lingüísticos que lhe pareceram não pertinentes. Isto significa, pois, que há mais processos lingüísticos de construção de significação do que pode imaginar a lingüística das formas. O objeto de uma teoria do discurso deve ser, então, bem diverso do de uma teoria da gramática (...), não só pela tomada em consideração do contexto, mas também pela consideração do enunciado lingüístico em sua materialidade total (...).
(POSSENTI, Sírio. Língua e discurso.
Discurso, estilo e subjetividade. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 67-69)
Toma-se como enunciado claro e apropriado à norma culta o seguinte:
 

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