Tem gente com fome
Trem sujo da Leopoldina,
Correndo correndo,
Parece dizer:
Tem gente com fome,
Tem gente com fome,
Tem gente com fome.
Só nas estações,
Quando vai parando,
Lentamente,
Começa a dizer:
Se tem gente com fome,
Dai de comer…
Se tem gente com fome,
Dai de comer…
Se tem gente com fome,
Dai de comer…
Mas o freio de ar,
Todo autoritário,
manda o trem calar:
Psiuuuuu…
Solano Trindade. O poeta do povo. São Paulo: Ediouro, 2008.
Lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar
lá vai ciranda e destino
cidade e noite a girar
lá vai o trem sem destino
pro dia novo encontrar
correndo vai pela terra
vai pela serra
vai pelo mar
cantando pela serra do luar
correndo entre as estrelas a voar
no ar
piuí! piuí piuí
no ar
piuí piuí piuí
adeus meu grupo escolar
adeus meu anzol de pescar
adeus menina que eu quis amar
que o trem me leva e nunca mais vai parar
Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
A partir da leitura dos fragmentos dos poemas de Solano Trindade, publicado em 1961, e de Ferreira Gullar, de 1976, julgue o item a seguir.
O emprego de onomatopeias nos poemas para a recriação poética do trem é herança das vanguardas modernistas: no poema de Gullar, compõe a paisagem da memória do poeta; no poema de Trindade, é veículo para a crítica social que o texto enuncia.