As mulheres que estão desafiando a antiga ideia de velhice
Por Isabella Marinelli
Não é uma tendência para o futuro, mas realidade. Em outubro do ano passado, o Rio Grande do Sul viu o número de idosos ultrapassar o de crianças e jovens até 14 anos. Esse marco é sintomático. Seguindo o panorama mundial, o Brasil está envelhecendo a passos largos e com contornos ainda mais acelerados. Segundo cálculos do IBGE, em 11 anos o acontecimento do estado sulista terá se repetido por todo o território nacional. E, em 2050, os seniores serão mais de 68,1 milhões, enquanto crianças e adolescentes até 14 anos somarão 18,8 milhões, segundo as expectativas mais moderadas da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos. Um movimento populacional tão expressivo não ficaria sem nome. Essa é a onda prateada, que promete mexer com a sociedade, as famílias e todas as mulheres, independentemente da idade.
“As mulheres que chegam hoje aos 60 anos assistiram segunda onda feminista, que foi ruas para reivindicar direitos na década de 1960. É claro que esse contexto determinaria o jeito como se comportam, querem viver e encaram a velhice”, explica Layla Vallias, mercadóloga e cofundadora da Hype60+, agência de consultoria de marketing especializada no consumidor sênior. Em parceria com a Pipe Social, plataforma vitrine que conecta negócios a investidores, a agência elaborou o estudo Tsunami60+. É o primeiro dossiê do tipo no Brasil, uma análise nacional que levou em conta as aflições, os desejos e as expectativas de pessoas com mais de 55 anos de todas as classes sociais.
Os dois sexos foram analisados, o que revelou uma grande diferença no modo como homens e mulheres reagem passagem do tempo. Enquanto eles entram em uma lógica de tristeza pós-aposentadoria, em razão do desmantelamento da figura do provedor, elas adotam a “fase da borboleta”, em que finalmente se libertam e passam a viver como sempre desejaram, longe das obrigações domésticas e profissionais. “A depressão do homem maduro é um problema sério, que deve ser encarado. Na outra ponta estão elas, capitaneando a revolução dos cabelos prateados, se exercitando, armando eventos em casa com as amigas”, explica Layla. Ao se verem com os filhos criados e sem a rotina de trabalho, podem partir para descobertas. Muitas se separam, como provam os dados. Segundo o IBGE, os divórcios dobraram na última década entre pessoas de mais de 50 anos. Isso demonstra que está caindo por terra o medo paralisante da solidão. Estar sozinha significa, então, abrir espaço para novas experiências – afetivas ou na própria companhia.
“O meu ponto de virada foi em 1997. Terminei um casamento de 24 anos porque ele já não representava a união que eu desejava. Desde então, virei outra pessoa e vivi muitas coisas. O sentimento de liberdade foi tão expressivo que quem convivia comigo notou e comentou a diferença. Eu era conservadora, uma chatonilda. Teria 48 anos de casamento hoje, mas graças a Deus não chegamos a isso. O que tivemos foi de bom tamanho”, diverte-se a professora aposentada Rita de Cássia Tavares Rodrigues, 70 anos.
Nascida no Rio de Janeiro, trabalhou em três empregos ao mesmo tempo. Descreve-se como alguém que sempre foi ativa, daquele tipo que, quando pega um problema para resolver, faz dar certo. Com uma carga tão pesada, considerava sagradas as férias de janeiro e julho com as filhas pequenas. Mas foi só recentemente, depois de parar de trabalhar, que resolveu se jogar no mundo. Em 2013, partiu para um mochilão pela Europa. “Fico nos hostels porque é mais fácil de pagar só para mim. Chegando lá, faço amizades, mesmo com quem não fala a minha língua. A gente se entende na hora e eu não fico sozinha. Isso é que é legal”, conta.
Para celebrar os 70, armou uma roda de samba com muita cerveja. “Durante a festa, perguntei pra um convidado impressionado se ele achava que seria chá com bolo. Ouvi dos jovens que eles nunca tinham bebido e se divertido tanto. Eu sei que cada minuto precisa ser vivido com intensidade. Posso dizer que é a melhor fase da minha vida, porque curto demais”, garante.
(Disponível em: https://claudia.abril.com.br/ – texto adaptado especialmente para esta prova.)
Considerando o exposto pelo texto, analise as assertivas a seguir:
I. Em trinta anos, o número de adolescentes e crianças será cerca de três vezes maior do que o de idosos.
II. De acordo com o texto, as mulheres estão lidando melhor com o envelhecimento do que os homens.
III. O medo da solidão não é mais um condicionante para a longa duração dos casamentos.
Quais estão corretas?