Madama Carlota havia acertado tudo.
Macabéa estava espantada. Só então vira que sua
vida era uma miséria. Teve vontade de chorar ao
ver o seu lado oposto, ela que, como disse, até
então se julgava feliz.
Saiu da casa da cartomante aos tropeços e parou
no beco escurecido pelo crepúsculo — crepúsculo
que é hora de ninguém. Mas ela de olhos ofuscados
como se o último final da tarde fosse mancha de
sangue e ouro quase negro. Tanta riqueza de
atmosfera a recebeu e o primeiro esgar da noite
que, sim, sim, era funda e faustosa. Macabéa ficou
um pouco aturdida sem saber se atravessaria a
rua pois sua vida já estava mudada. E mudada por
palavras — desde Moisés se sabe que a palavra
é divina. Até para atravessar a rua ela já era outra
pessoa. Uma pessoa grávida de futuro. Sentia em
si uma esperança tão violenta como jamais sentira
tamanho desespero. Se ela não era mais ela
mesma, isso significava uma perda que valia por
um ganho. Assim como havia sentença de morte,
a cartomante lhe decretara sentença de vida. Tudo
de repente era muito e muito e tão amplo que ela
sentiu vontade de chorar. Mas não chorou: seus
olhos faiscavam como o sol que morria.
Então ao dar o passo de descida da calçada para
atravessar a rua, o Destino (explosão) sussurrou
veloz e guloso: é agora é já, chegou a minha vez!
E enorme como um transatlântico o Mercedes amarelo pegou-a — e neste mesmo instante em
algum único lugar do mundo um cavalo como
resposta empinou-se em gargalhada de relincho.
Macabéa ao cair ainda teve tempo de ver, antes
que o carro fugisse, que já começavam a ser
cumpridas as predições de madama Carlota, pois
o carro era de alto luxo. Sua queda não era nada,
pensou ela, apenas um empurrão. Batera com a
cabeça na quina da calçada e ficara caída, a cara
mansamente voltada para a sarjeta. E da cabeça
um fio de sangue inesperadamente vermelho e
rico. O que queria dizer que apesar de tudo ela
pertencia a uma resistente raça anã teimosa que
um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito.
LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco,
1998. p.79-80.