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Texto para a questão.
Metodologias ativas para uma aprendizagem mais profunda
Num sentido amplo, toda a aprendizagem é ativa em algum grau, porque exige do aprendiz e do docente formas diferentes de
movimentação interna e externa, de motivação, seleção, interpretação, comparação, avaliação, aplicação.
Aprendemos também de muitas maneiras, com diversas técnicas, procedimentos, mais ou menos eficazes para conseguir os
objetivos desejados.
As metodologias precisam acompanhar os objetivos pretendidos. Se queremos que os alunos sejam proativos, precisamos
adotar metodologias em que os alunos se envolvam em atividades cada vez mais complexas, em que tenham que tomar decisões
e avaliar os resultados, com apoio de materiais relevantes. Se queremos que sejam criativos, eles precisam experimentar inúmeras
novas possibilidades de mostrar sua iniciativa.
As metodologias ativas são caminhos para avançar mais no conhecimento profundo, nas competências socioemocionais e em
novas práticas.
As escolas que nos mostram novos caminhos estão mudando para modelos mais centrados em aprender ativamente com
problemas reais, desafios relevantes, jogos, atividades e leituras, valores fundamentais, combinando tempos individuais e tempos
coletivos; projetos pessoais de vida e de aprendizagem e projetos em grupo. Isso exige uma mudança de configuração do currículo,
da participação dos professores, da organização das atividades didáticas, da organização dos espaços e tempos.
Quanto mais aprendamos próximos da vida, melhor. Teóricos como Dewey (1950), Freire (2009), Rogers (1973), Novack
(1999), entre outros, enfatizam, há muito tempo, a importância de superar a educação bancária, tradicional e focar a aprendizagem
no aluno, envolvendo-o, motivando-o e dialogando com ele.
A aprendizagem é mais significativa quando motivamos os alunos intimamente, quando eles acham sentido nas atividades que
propomos, quando consultamos suas motivações profundas, quando se engajam em projetos em que trazem contribuições, quando
há diálogo sobre as atividades e a forma de realizá-las.
Além da mobilidade, há avanços nas ciências cognitivas: aprendemos de formas diferentes e em ritmos diferentes e temos
ferramentas mais adequadas para monitorar esses avanços. Podemos oferecer propostas mais personalizadas, monitorando-as,
avaliando-as em tempo real, o que não era possível na educação mais massiva ou convencional.
A tecnologia em rede e móvel e as competências digitais são componentes fundamentais de uma educação plena. Um aluno
não conectado e sem o domínio digital perde importantes chances de informar-se, de acessar materiais muito ricos disponíveis, de
comunicar-se, de tornar-se visível para os demais, de publicar suas ideias e de aumentar sua empregabilidade futura.
A convergência digital exige mudanças muito mais profundas que afetam a escola em todas as suas dimensões: infraestrutura,
projeto pedagógico, formação docente, mobilidade. A chegada das tecnologias móveis à sala de aula traz tensões, novas
possibilidades e grandes desafios. São cada vez mais fáceis de usar, permitem a colaboração entre pessoas próximas e distantes,
ampliam a noção de espaço escolar, integrando os alunos e professores de países, línguas e culturas diferentes. E todos, além da
aprendizagem formal, têm a oportunidade de se engajar, aprender e desenvolver relações duradouras para suas vidas.
Os bons materiais (interessantes e estimulantes, impressos e digitais) são fundamentais para o sucesso da aprendizagem.
Precisam ser acompanhados de desafios, atividades, histórias, jogos que realmente mobilizem os alunos, em cada etapa, que
lhes permitam caminhar em grupo (colaborativamente) e sozinhos (aprendizagem personalizada) utilizando as tecnologias mais
adequadas (e possíveis) em cada momento.
O papel do professor é ajudar os alunos a ir além de onde conseguiriam fazê-lo sozinhos. Até alguns anos atrás, ainda fazia
sentido que o professor explicasse tudo e o aluno anotasse, pesquisasse e mostrasse o quanto aprendeu.
Hoje a forma de fazer isso mudou bastante. Sobre qualquer tema, há textos, vídeos e animações muito ricos, variados, que
transmitem as informações básicas de forma adequada. O professor seleciona os mais relevantes e elabora um roteiro orientador
para os alunos no ambiente virtual. Os alunos leem, veem e fazem algumas atividades previstas e em classe o professor ajuda
os alunos na ampliação do conhecimento prévio que eles trazem e adapta as atividades aos grupos e à cada aluno, sempre que
possível. O papel do professor é o de ajudar na escolha e validação dos materiais mais interessantes, (impressos e digitais),
roteirizar a sequência de ações prevista e mediar a interação com o grande grupo, com os pequenos grupos e com cada um dos
alunos. É um papel mais complexo, flexível e dinâmico. Antes podia preparar uma mesma aula para todos, a mesma atividade
para todos. Hoje precisa ir além e concentrar-se no essencial, que é aprofundar o que os alunos não percebem, ajudar a cada um
de acordo com o seu ritmo e necessidades e isso é muito mais difícil e exige maior preparação em todos os sentidos: preparação
em competências mais amplas, além do conhecimento do conteúdo, como saber adaptar-se ao grupo e à cada aluno; planejar,
acompanhar e avaliar atividades significativas e diferentes.
José Moran. Disponível em: https://moran.eca.usp.br/wp-content/uploads/2013/12/metodologias_moran1.pdf. Acesso em: 6 jan.2026.
Considerando o trecho apresentado, é correto afirmar que a articulação referencial do texto se realiza por meio de:
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Texto para a questão.
Metodologias ativas para uma aprendizagem mais profunda
Num sentido amplo, toda a aprendizagem é ativa em algum grau, porque exige do aprendiz e do docente formas diferentes de
movimentação interna e externa, de motivação, seleção, interpretação, comparação, avaliação, aplicação.
Aprendemos também de muitas maneiras, com diversas técnicas, procedimentos, mais ou menos eficazes para conseguir os
objetivos desejados.
As metodologias precisam acompanhar os objetivos pretendidos. Se queremos que os alunos sejam proativos, precisamos
adotar metodologias em que os alunos se envolvam em atividades cada vez mais complexas, em que tenham que tomar decisões
e avaliar os resultados, com apoio de materiais relevantes. Se queremos que sejam criativos, eles precisam experimentar inúmeras
novas possibilidades de mostrar sua iniciativa.
As metodologias ativas são caminhos para avançar mais no conhecimento profundo, nas competências socioemocionais e em
novas práticas.
As escolas que nos mostram novos caminhos estão mudando para modelos mais centrados em aprender ativamente com
problemas reais, desafios relevantes, jogos, atividades e leituras, valores fundamentais, combinando tempos individuais e tempos
coletivos; projetos pessoais de vida e de aprendizagem e projetos em grupo. Isso exige uma mudança de configuração do currículo,
da participação dos professores, da organização das atividades didáticas, da organização dos espaços e tempos.
Quanto mais aprendamos próximos da vida, melhor. Teóricos como Dewey (1950), Freire (2009), Rogers (1973), Novack
(1999), entre outros, enfatizam, há muito tempo, a importância de superar a educação bancária, tradicional e focar a aprendizagem
no aluno, envolvendo-o, motivando-o e dialogando com ele.
A aprendizagem é mais significativa quando motivamos os alunos intimamente, quando eles acham sentido nas atividades que
propomos, quando consultamos suas motivações profundas, quando se engajam em projetos em que trazem contribuições, quando
há diálogo sobre as atividades e a forma de realizá-las.
Além da mobilidade, há avanços nas ciências cognitivas: aprendemos de formas diferentes e em ritmos diferentes e temos
ferramentas mais adequadas para monitorar esses avanços. Podemos oferecer propostas mais personalizadas, monitorando-as,
avaliando-as em tempo real, o que não era possível na educação mais massiva ou convencional.
A tecnologia em rede e móvel e as competências digitais são componentes fundamentais de uma educação plena. Um aluno
não conectado e sem o domínio digital perde importantes chances de informar-se, de acessar materiais muito ricos disponíveis, de
comunicar-se, de tornar-se visível para os demais, de publicar suas ideias e de aumentar sua empregabilidade futura.
A convergência digital exige mudanças muito mais profundas que afetam a escola em todas as suas dimensões: infraestrutura,
projeto pedagógico, formação docente, mobilidade. A chegada das tecnologias móveis à sala de aula traz tensões, novas
possibilidades e grandes desafios. São cada vez mais fáceis de usar, permitem a colaboração entre pessoas próximas e distantes,
ampliam a noção de espaço escolar, integrando os alunos e professores de países, línguas e culturas diferentes. E todos, além da
aprendizagem formal, têm a oportunidade de se engajar, aprender e desenvolver relações duradouras para suas vidas.
Os bons materiais (interessantes e estimulantes, impressos e digitais) são fundamentais para o sucesso da aprendizagem.
Precisam ser acompanhados de desafios, atividades, histórias, jogos que realmente mobilizem os alunos, em cada etapa, que
lhes permitam caminhar em grupo (colaborativamente) e sozinhos (aprendizagem personalizada) utilizando as tecnologias mais
adequadas (e possíveis) em cada momento.
O papel do professor é ajudar os alunos a ir além de onde conseguiriam fazê-lo sozinhos. Até alguns anos atrás, ainda fazia
sentido que o professor explicasse tudo e o aluno anotasse, pesquisasse e mostrasse o quanto aprendeu.
Hoje a forma de fazer isso mudou bastante. Sobre qualquer tema, há textos, vídeos e animações muito ricos, variados, que
transmitem as informações básicas de forma adequada. O professor seleciona os mais relevantes e elabora um roteiro orientador
para os alunos no ambiente virtual. Os alunos leem, veem e fazem algumas atividades previstas e em classe o professor ajuda
os alunos na ampliação do conhecimento prévio que eles trazem e adapta as atividades aos grupos e à cada aluno, sempre que
possível. O papel do professor é o de ajudar na escolha e validação dos materiais mais interessantes, (impressos e digitais),
roteirizar a sequência de ações prevista e mediar a interação com o grande grupo, com os pequenos grupos e com cada um dos
alunos. É um papel mais complexo, flexível e dinâmico. Antes podia preparar uma mesma aula para todos, a mesma atividade
para todos. Hoje precisa ir além e concentrar-se no essencial, que é aprofundar o que os alunos não percebem, ajudar a cada um
de acordo com o seu ritmo e necessidades e isso é muito mais difícil e exige maior preparação em todos os sentidos: preparação
em competências mais amplas, além do conhecimento do conteúdo, como saber adaptar-se ao grupo e à cada aluno; planejar,
acompanhar e avaliar atividades significativas e diferentes.
José Moran. Disponível em: https://moran.eca.usp.br/wp-content/uploads/2013/12/metodologias_moran1.pdf. Acesso em: 6 jan.2026.
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Futuro das cidades depende da integração entre água, saneamento e ação climática
A América Latina detém quase um terço dos recursos de água doce no mundo, mas milhões de pessoas ainda não têm
acesso seguro. O Brasil tem avançado, como com a criação do Marco Legal do Saneamento em 2020, que estabeleceu metas
de universalização para 2033. Isso é particularmente importante considerando que, hoje, 32 milhões de pessoas no Brasil ainda
não têm acesso à água potável e cerca de 90 milhões não contam com coleta de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil.
Esses déficits estruturais se tornam ainda mais urgentes à medida que as mudanças climáticas avançam, trazendo enchentes devastadoras, secas prolongadas e eventos extremos cada vez mais imprevisíveis. A resposta para essa questão exige abandonar soluções fragmentadas, em silos, e adotar uma abordagem integrada, na qual água, saneamento e ação climática sejam
tratados como partes inseparáveis do mesmo desafio.
A formulação de políticas em silos significa que estratégias de adaptação climática são desenvolvidas sem considerar a
infraestrutura de água e saneamento, enquanto projetos de saneamento são implementados sem levar em conta vulnerabilidades climáticas. Sistemas de saneamento construídos sem resiliência são destruídos por enchentes, e comunidades sem
acesso à água potável não conseguem se recuperar de secas prolongadas.
Essa fragmentação desperdiça recursos, atrasa respostas a crises e aprofunda desigualdades. Populações vulneráveis são
as primeiras a sofrer e as últimas a se recuperar. Ao mesmo tempo, o acesso à água potável e ao saneamento protege a saúde
pública. Um relatório da Unicef mostra que, na América Latina e no Caribe, 4,8 milhões de pessoas enfrentam a dupla carga de
alta escassez de água e baixos níveis de serviço de água potável. Este é um dos principais fatores de mortalidade entre crianças
de 5 anos por doenças evitáveis. Serviços confiáveis atuam como primeira linha de defesa contra enfermidades agravadas pelas
mudanças climáticas, incluindo dengue, cólera e leptospirose. A inação agora resultará em maiores custos hospitalares, perdas
de produtividade e mortes evitáveis no futuro.
Integrar água, saneamento e ação climática gera benefícios concretos. Cidades que adotam pavimentos permeáveis, redes
de esgoto eficientes ou programas de restauração de bacias melhoram a gestão das águas, a produtividade agrícola e reduzem
os impactos de enchentes urbanas. A integração também fortalece a segurança alimentar e energética, pois proteger bacias
hidrográficas e expandir o reuso de água é essencial para a agricultura e a geração hidrelétrica – responsável por 60% da eletricidade na América Latina, segundo a IEA. Além dos números, soluções integradas aumentam a confiança social, já que comunidades que experimentam água segura, saneamento confiável e proteção contra desastres tendem a apoiar políticas climáticas
mais amplas.
Para avançar, governos devem definir metas claras e mensuráveis para integrar água, saneamento e clima, apoiadas por
investimentos estratégicos e monitoramento eficiente. Além disso, a sociedade civil deve ser empoderada como voz ativa na
construção de soluções que impactam suas comunidades.
(Por Muyatwa Sitali. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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Futuro das cidades depende da integração entre água, saneamento e ação climática
A América Latina detém quase um terço dos recursos de água doce no mundo, mas milhões de pessoas ainda não têm
acesso seguro. O Brasil tem avançado, como com a criação do Marco Legal do Saneamento em 2020, que estabeleceu metas
de universalização para 2033. Isso é particularmente importante considerando que, hoje, 32 milhões de pessoas no Brasil ainda
não têm acesso à água potável e cerca de 90 milhões não contam com coleta de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil.
Esses déficits estruturais se tornam ainda mais urgentes à medida que as mudanças climáticas avançam, trazendo enchentes devastadoras, secas prolongadas e eventos extremos cada vez mais imprevisíveis. A resposta para essa questão exige abandonar soluções fragmentadas, em silos, e adotar uma abordagem integrada, na qual água, saneamento e ação climática sejam
tratados como partes inseparáveis do mesmo desafio.
A formulação de políticas em silos significa que estratégias de adaptação climática são desenvolvidas sem considerar a
infraestrutura de água e saneamento, enquanto projetos de saneamento são implementados sem levar em conta vulnerabilidades climáticas. Sistemas de saneamento construídos sem resiliência são destruídos por enchentes, e comunidades sem
acesso à água potável não conseguem se recuperar de secas prolongadas.
Essa fragmentação desperdiça recursos, atrasa respostas a crises e aprofunda desigualdades. Populações vulneráveis são
as primeiras a sofrer e as últimas a se recuperar. Ao mesmo tempo, o acesso à água potável e ao saneamento protege a saúde
pública. Um relatório da Unicef mostra que, na América Latina e no Caribe, 4,8 milhões de pessoas enfrentam a dupla carga de
alta escassez de água e baixos níveis de serviço de água potável. Este é um dos principais fatores de mortalidade entre crianças
de 5 anos por doenças evitáveis. Serviços confiáveis atuam como primeira linha de defesa contra enfermidades agravadas pelas
mudanças climáticas, incluindo dengue, cólera e leptospirose. A inação agora resultará em maiores custos hospitalares, perdas
de produtividade e mortes evitáveis no futuro.
Integrar água, saneamento e ação climática gera benefícios concretos. Cidades que adotam pavimentos permeáveis, redes
de esgoto eficientes ou programas de restauração de bacias melhoram a gestão das águas, a produtividade agrícola e reduzem
os impactos de enchentes urbanas. A integração também fortalece a segurança alimentar e energética, pois proteger bacias
hidrográficas e expandir o reuso de água é essencial para a agricultura e a geração hidrelétrica – responsável por 60% da eletricidade na América Latina, segundo a IEA. Além dos números, soluções integradas aumentam a confiança social, já que comunidades que experimentam água segura, saneamento confiável e proteção contra desastres tendem a apoiar políticas climáticas
mais amplas.
Para avançar, governos devem definir metas claras e mensuráveis para integrar água, saneamento e clima, apoiadas por
investimentos estratégicos e monitoramento eficiente. Além disso, a sociedade civil deve ser empoderada como voz ativa na
construção de soluções que impactam suas comunidades.
(Por Muyatwa Sitali. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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Futuro das cidades depende da integração entre água, saneamento e ação climática
A América Latina detém quase um terço dos recursos de água doce no mundo, mas milhões de pessoas ainda não têm
acesso seguro. O Brasil tem avançado, como com a criação do Marco Legal do Saneamento em 2020, que estabeleceu metas
de universalização para 2033. Isso é particularmente importante considerando que, hoje, 32 milhões de pessoas no Brasil ainda
não têm acesso à água potável e cerca de 90 milhões não contam com coleta de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil.
Esses déficits estruturais se tornam ainda mais urgentes à medida que as mudanças climáticas avançam, trazendo enchentes devastadoras, secas prolongadas e eventos extremos cada vez mais imprevisíveis. A resposta para essa questão exige abandonar soluções fragmentadas, em silos, e adotar uma abordagem integrada, na qual água, saneamento e ação climática sejam
tratados como partes inseparáveis do mesmo desafio.
A formulação de políticas em silos significa que estratégias de adaptação climática são desenvolvidas sem considerar a
infraestrutura de água e saneamento, enquanto projetos de saneamento são implementados sem levar em conta vulnerabilidades climáticas. Sistemas de saneamento construídos sem resiliência são destruídos por enchentes, e comunidades sem
acesso à água potável não conseguem se recuperar de secas prolongadas.
Essa fragmentação desperdiça recursos, atrasa respostas a crises e aprofunda desigualdades. Populações vulneráveis são
as primeiras a sofrer e as últimas a se recuperar. Ao mesmo tempo, o acesso à água potável e ao saneamento protege a saúde
pública. Um relatório da Unicef mostra que, na América Latina e no Caribe, 4,8 milhões de pessoas enfrentam a dupla carga de
alta escassez de água e baixos níveis de serviço de água potável. Este é um dos principais fatores de mortalidade entre crianças
de 5 anos por doenças evitáveis. Serviços confiáveis atuam como primeira linha de defesa contra enfermidades agravadas pelas
mudanças climáticas, incluindo dengue, cólera e leptospirose. A inação agora resultará em maiores custos hospitalares, perdas
de produtividade e mortes evitáveis no futuro.
Integrar água, saneamento e ação climática gera benefícios concretos. Cidades que adotam pavimentos permeáveis, redes
de esgoto eficientes ou programas de restauração de bacias melhoram a gestão das águas, a produtividade agrícola e reduzem
os impactos de enchentes urbanas. A integração também fortalece a segurança alimentar e energética, pois proteger bacias
hidrográficas e expandir o reuso de água é essencial para a agricultura e a geração hidrelétrica – responsável por 60% da eletricidade na América Latina, segundo a IEA. Além dos números, soluções integradas aumentam a confiança social, já que comunidades que experimentam água segura, saneamento confiável e proteção contra desastres tendem a apoiar políticas climáticas
mais amplas.
Para avançar, governos devem definir metas claras e mensuráveis para integrar água, saneamento e clima, apoiadas por
investimentos estratégicos e monitoramento eficiente. Além disso, a sociedade civil deve ser empoderada como voz ativa na
construção de soluções que impactam suas comunidades.
(Por Muyatwa Sitali. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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Futuro das cidades depende da integração entre água, saneamento e ação climática
A América Latina detém quase um terço dos recursos de água doce no mundo, mas milhões de pessoas ainda não têm
acesso seguro. O Brasil tem avançado, como com a criação do Marco Legal do Saneamento em 2020, que estabeleceu metas
de universalização para 2033. Isso é particularmente importante considerando que, hoje, 32 milhões de pessoas no Brasil ainda
não têm acesso à água potável e cerca de 90 milhões não contam com coleta de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil.
Esses déficits estruturais se tornam ainda mais urgentes à medida que as mudanças climáticas avançam, trazendo enchentes devastadoras, secas prolongadas e eventos extremos cada vez mais imprevisíveis. A resposta para essa questão exige abandonar soluções fragmentadas, em silos, e adotar uma abordagem integrada, na qual água, saneamento e ação climática sejam
tratados como partes inseparáveis do mesmo desafio.
A formulação de políticas em silos significa que estratégias de adaptação climática são desenvolvidas sem considerar a
infraestrutura de água e saneamento, enquanto projetos de saneamento são implementados sem levar em conta vulnerabilidades climáticas. Sistemas de saneamento construídos sem resiliência são destruídos por enchentes, e comunidades sem
acesso à água potável não conseguem se recuperar de secas prolongadas.
Essa fragmentação desperdiça recursos, atrasa respostas a crises e aprofunda desigualdades. Populações vulneráveis são
as primeiras a sofrer e as últimas a se recuperar. Ao mesmo tempo, o acesso à água potável e ao saneamento protege a saúde
pública. Um relatório da Unicef mostra que, na América Latina e no Caribe, 4,8 milhões de pessoas enfrentam a dupla carga de
alta escassez de água e baixos níveis de serviço de água potável. Este é um dos principais fatores de mortalidade entre crianças
de 5 anos por doenças evitáveis. Serviços confiáveis atuam como primeira linha de defesa contra enfermidades agravadas pelas
mudanças climáticas, incluindo dengue, cólera e leptospirose. A inação agora resultará em maiores custos hospitalares, perdas
de produtividade e mortes evitáveis no futuro.
Integrar água, saneamento e ação climática gera benefícios concretos. Cidades que adotam pavimentos permeáveis, redes
de esgoto eficientes ou programas de restauração de bacias melhoram a gestão das águas, a produtividade agrícola e reduzem
os impactos de enchentes urbanas. A integração também fortalece a segurança alimentar e energética, pois proteger bacias
hidrográficas e expandir o reuso de água é essencial para a agricultura e a geração hidrelétrica – responsável por 60% da eletricidade na América Latina, segundo a IEA. Além dos números, soluções integradas aumentam a confiança social, já que comunidades que experimentam água segura, saneamento confiável e proteção contra desastres tendem a apoiar políticas climáticas
mais amplas.
Para avançar, governos devem definir metas claras e mensuráveis para integrar água, saneamento e clima, apoiadas por
investimentos estratégicos e monitoramento eficiente. Além disso, a sociedade civil deve ser empoderada como voz ativa na
construção de soluções que impactam suas comunidades.
(Por Muyatwa Sitali. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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Futuro das cidades depende da integração entre água, saneamento e ação climática
A América Latina detém quase um terço dos recursos de água doce no mundo, mas milhões de pessoas ainda não têm
acesso seguro. O Brasil tem avançado, como com a criação do Marco Legal do Saneamento em 2020, que estabeleceu metas
de universalização para 2033. Isso é particularmente importante considerando que, hoje, 32 milhões de pessoas no Brasil ainda
não têm acesso à água potável e cerca de 90 milhões não contam com coleta de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil.
Esses déficits estruturais se tornam ainda mais urgentes à medida que as mudanças climáticas avançam, trazendo enchentes devastadoras, secas prolongadas e eventos extremos cada vez mais imprevisíveis. A resposta para essa questão exige abandonar soluções fragmentadas, em silos, e adotar uma abordagem integrada, na qual água, saneamento e ação climática sejam
tratados como partes inseparáveis do mesmo desafio.
A formulação de políticas em silos significa que estratégias de adaptação climática são desenvolvidas sem considerar a
infraestrutura de água e saneamento, enquanto projetos de saneamento são implementados sem levar em conta vulnerabilidades climáticas. Sistemas de saneamento construídos sem resiliência são destruídos por enchentes, e comunidades sem
acesso à água potável não conseguem se recuperar de secas prolongadas.
Essa fragmentação desperdiça recursos, atrasa respostas a crises e aprofunda desigualdades. Populações vulneráveis são
as primeiras a sofrer e as últimas a se recuperar. Ao mesmo tempo, o acesso à água potável e ao saneamento protege a saúde
pública. Um relatório da Unicef mostra que, na América Latina e no Caribe, 4,8 milhões de pessoas enfrentam a dupla carga de
alta escassez de água e baixos níveis de serviço de água potável. Este é um dos principais fatores de mortalidade entre crianças
de 5 anos por doenças evitáveis. Serviços confiáveis atuam como primeira linha de defesa contra enfermidades agravadas pelas
mudanças climáticas, incluindo dengue, cólera e leptospirose. A inação agora resultará em maiores custos hospitalares, perdas
de produtividade e mortes evitáveis no futuro.
Integrar água, saneamento e ação climática gera benefícios concretos. Cidades que adotam pavimentos permeáveis, redes
de esgoto eficientes ou programas de restauração de bacias melhoram a gestão das águas, a produtividade agrícola e reduzem
os impactos de enchentes urbanas. A integração também fortalece a segurança alimentar e energética, pois proteger bacias
hidrográficas e expandir o reuso de água é essencial para a agricultura e a geração hidrelétrica – responsável por 60% da eletricidade na América Latina, segundo a IEA. Além dos números, soluções integradas aumentam a confiança social, já que comunidades que experimentam água segura, saneamento confiável e proteção contra desastres tendem a apoiar políticas climáticas
mais amplas.
Para avançar, governos devem definir metas claras e mensuráveis para integrar água, saneamento e clima, apoiadas por
investimentos estratégicos e monitoramento eficiente. Além disso, a sociedade civil deve ser empoderada como voz ativa na
construção de soluções que impactam suas comunidades.
(Por Muyatwa Sitali. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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A América Latina detém quase um terço dos recursos de água doce no mundo, mas milhões de pessoas ainda não têm
acesso seguro. O Brasil tem avançado, como com a criação do Marco Legal do Saneamento em 2020, que estabeleceu metas
de universalização para 2033. Isso é particularmente importante considerando que, hoje, 32 milhões de pessoas no Brasil ainda
não têm acesso à água potável e cerca de 90 milhões não contam com coleta de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil.
Esses déficits estruturais se tornam ainda mais urgentes à medida que as mudanças climáticas avançam, trazendo enchentes devastadoras, secas prolongadas e eventos extremos cada vez mais imprevisíveis. A resposta para essa questão exige abandonar soluções fragmentadas, em silos, e adotar uma abordagem integrada, na qual água, saneamento e ação climática sejam
tratados como partes inseparáveis do mesmo desafio.
A formulação de políticas em silos significa que estratégias de adaptação climática são desenvolvidas sem considerar a
infraestrutura de água e saneamento, enquanto projetos de saneamento são implementados sem levar em conta vulnerabilidades climáticas. Sistemas de saneamento construídos sem resiliência são destruídos por enchentes, e comunidades sem
acesso à água potável não conseguem se recuperar de secas prolongadas.
Essa fragmentação desperdiça recursos, atrasa respostas a crises e aprofunda desigualdades. Populações vulneráveis são
as primeiras a sofrer e as últimas a se recuperar. Ao mesmo tempo, o acesso à água potável e ao saneamento protege a saúde
pública. Um relatório da Unicef mostra que, na América Latina e no Caribe, 4,8 milhões de pessoas enfrentam a dupla carga de
alta escassez de água e baixos níveis de serviço de água potável. Este é um dos principais fatores de mortalidade entre crianças
de 5 anos por doenças evitáveis. Serviços confiáveis atuam como primeira linha de defesa contra enfermidades agravadas pelas
mudanças climáticas, incluindo dengue, cólera e leptospirose. A inação agora resultará em maiores custos hospitalares, perdas
de produtividade e mortes evitáveis no futuro.
Integrar água, saneamento e ação climática gera benefícios concretos. Cidades que adotam pavimentos permeáveis, redes
de esgoto eficientes ou programas de restauração de bacias melhoram a gestão das águas, a produtividade agrícola e reduzem
os impactos de enchentes urbanas. A integração também fortalece a segurança alimentar e energética, pois proteger bacias
hidrográficas e expandir o reuso de água é essencial para a agricultura e a geração hidrelétrica – responsável por 60% da eletricidade na América Latina, segundo a IEA. Além dos números, soluções integradas aumentam a confiança social, já que comunidades que experimentam água segura, saneamento confiável e proteção contra desastres tendem a apoiar políticas climáticas
mais amplas.
Para avançar, governos devem definir metas claras e mensuráveis para integrar água, saneamento e clima, apoiadas por
investimentos estratégicos e monitoramento eficiente. Além disso, a sociedade civil deve ser empoderada como voz ativa na
construção de soluções que impactam suas comunidades.
(Por Muyatwa Sitali. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)
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A partida
Hoje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante. Verifico também que estava aflito e
que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados.
Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de
minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir.
Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor.
Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa.
Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e
imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, pessoas nas
praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e eu me encontrasse imediatamente
na posse de todos esses bens que me aguardavam. Que as horas voassem, voassem!
Percebi que minha avó não me olhava. A princípio, achei inexplicável que ela fizesse isso, pois costumava fitar-me, longamente, com uma ternura que incomodava. Tive raiva do que me parecia um capricho e, como represália, fui para a cama.
Deixei a luz acesa. Sentia não sei que prazer em contar as vigas do teto, em olhar para a lâmpada. Desejava que nenhuma
dessas coisas me afetasse e irritava-me por começar a entender que não conseguiria afastar-me delas sem emoção.
Minha avó fechara a maleta e agora se movia, devagar, calada, fiel ao seu hábito de fazer arrumações tardias. A quietude
da casa parecia triste e ficava mais nítida com os poucos ruídos aos quais me fixava: manso arrastar de chinelos, cuidadoso abrir
e lento fechar de gavetas, o tique-taque do relógio, tilintar de talheres, de xícaras.
Passava de meia-noite quando a velha cama gemeu: minha avó levantava-se. Abriu de leve a porta de seu quarto, sempre
de leve entrou no meu, veio chegando e ficou de pé junto a mim. Com que finalidade? – perguntava eu. Cobrir-me ainda?
Repetir-me conselhos? Ouvi-a então soluçar e quase fui sacudido por um acesso de raiva. Ela estava olhando para mim e chorando como se eu fosse um cadáver – pensei. Mas eu não me parecia em nada com um morto, senão no estar deitado. Estava
vivo, bem vivo, não ia morrer. Sentia-me a ponto de gritar. Que me deixasse em paz e fosse chorar longe, na sala, na cozinha,
no quintal, mas longe de mim. Eu não estava morto. Afinal, ela beijou-me a fronte e se afastou, abafando os soluços. Eu crispei
as mãos nas grades de ferro da cama, sobre as quais apoiei a testa ardente. E adormeci.
Acordei pela madrugada. A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono
esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restavam-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem
chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar nem uma hora mais naquela casa. Partir, sem dizer nada, deixar quanto
antes minhas cadeias de disciplina e de amor.
Não sei por que motivo, retardei ainda a partida. Andei pela casa, cabisbaixo, à procura de objetos imaginários enquanto
ela me seguia, abrigada em sua coberta. Eu sabia que desejava beijar-me, prender-se a mim, e à simples ideia desses gestos,
estremeci. Como seria se, na hora do adeus, ela chorasse?
Enfim, beijei sua mão, bati-lhe de leve na cabeça. Creio mesmo que lhe surpreendi um gesto de aproximação, decerto na
esperança de um abraço final. Esquivei-me, apanhei a maleta e, ao fazê-lo, lancei um rápido olhar para a mesa (cuidadosamente
posta para dois, com a humilde louça dos grandes dias e a velha toalha branca, bordada, que só se usava em nossos aniversários).
(LINS, Osman. Os gestos. São Paulo: Melhoramentos, 1957.)
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A partida
Hoje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante. Verifico também que estava aflito e
que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados.
Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de
minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir.
Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor.
Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa.
Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e
imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, pessoas nas
praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e eu me encontrasse imediatamente
na posse de todos esses bens que me aguardavam. Que as horas voassem, voassem!
Percebi que minha avó não me olhava. A princípio, achei inexplicável que ela fizesse isso, pois costumava fitar-me, longamente, com uma ternura que incomodava. Tive raiva do que me parecia um capricho e, como represália, fui para a cama.
Deixei a luz acesa. Sentia não sei que prazer em contar as vigas do teto, em olhar para a lâmpada. Desejava que nenhuma
dessas coisas me afetasse e irritava-me por começar a entender que não conseguiria afastar-me delas sem emoção.
Minha avó fechara a maleta e agora se movia, devagar, calada, fiel ao seu hábito de fazer arrumações tardias. A quietude
da casa parecia triste e ficava mais nítida com os poucos ruídos aos quais me fixava: manso arrastar de chinelos, cuidadoso abrir
e lento fechar de gavetas, o tique-taque do relógio, tilintar de talheres, de xícaras.
Passava de meia-noite quando a velha cama gemeu: minha avó levantava-se. Abriu de leve a porta de seu quarto, sempre
de leve entrou no meu, veio chegando e ficou de pé junto a mim. Com que finalidade? – perguntava eu. Cobrir-me ainda?
Repetir-me conselhos? Ouvi-a então soluçar e quase fui sacudido por um acesso de raiva. Ela estava olhando para mim e chorando como se eu fosse um cadáver – pensei. Mas eu não me parecia em nada com um morto, senão no estar deitado. Estava
vivo, bem vivo, não ia morrer. Sentia-me a ponto de gritar. Que me deixasse em paz e fosse chorar longe, na sala, na cozinha,
no quintal, mas longe de mim. Eu não estava morto. Afinal, ela beijou-me a fronte e se afastou, abafando os soluços. Eu crispei
as mãos nas grades de ferro da cama, sobre as quais apoiei a testa ardente. E adormeci.
Acordei pela madrugada. A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono
esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restavam-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem
chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar nem uma hora mais naquela casa. Partir, sem dizer nada, deixar quanto
antes minhas cadeias de disciplina e de amor.
Não sei por que motivo, retardei ainda a partida. Andei pela casa, cabisbaixo, à procura de objetos imaginários enquanto
ela me seguia, abrigada em sua coberta. Eu sabia que desejava beijar-me, prender-se a mim, e à simples ideia desses gestos,
estremeci. Como seria se, na hora do adeus, ela chorasse?
Enfim, beijei sua mão, bati-lhe de leve na cabeça. Creio mesmo que lhe surpreendi um gesto de aproximação, decerto na
esperança de um abraço final. Esquivei-me, apanhei a maleta e, ao fazê-lo, lancei um rápido olhar para a mesa (cuidadosamente
posta para dois, com a humilde louça dos grandes dias e a velha toalha branca, bordada, que só se usava em nossos aniversários).
(LINS, Osman. Os gestos. São Paulo: Melhoramentos, 1957.)
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