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Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
O conto Meu Tio, o Iauaretê — publicado, em 1961, na revista Senhor, e republicado, em 1969, em Estas Histórias — representa, a nosso ver, o estágio mais avançado do experimento de Guimarães Rosa com a prosa. O conto é um longo monólogo-diálogo (o diálogo é pressuposto, pois um só protagonista pergunta e responde) de um onceiro, perdido na solidão dos gerais, que recebe, em seu rancho, a visita inesperada de um viajante. Filho de pai branco e de mãe índia, o onceiro, que fora contratado por um proprietário de terras para ‘desonçar’ suas propriedades, arrependido de ter matado ‘seus parentes’, passa a matar gente. A fala do onceiro é tematizada por um ‘Nhem?’ intercorrente, que é, antes, um ‘Nhennhem’ — do tupi, Nhehê ou nheeng —, que significa, simplesmente, ‘falar’. Rosa cria também o verbo ‘nheengar’, de pura aclimatação tupi, e, juntando a ‘jaguaretê’ — tupinismo para onça verdadeira — a terminação nhennhém, ou nhem, como se fora uma desinência verbal, forma outras palavras, para exprimir o linguajar das onças. O texto fica, por assim dizer, mosqueado de nheengatu, e esses rastros que nele aparecem preparam e anunciam o momento da metamorfose (...): o tigreiro, em seu rancho encravado na “jaguaretama”, enquanto conta para seu hóspede os ‘causos’ de caçada e morte, está também falando uma linguagem de onça. À medida que a história flui, tudo vai convergindo para o clímax metamórfico. Este não é apresentado, mas presentificado pelo texto: o onceiro acaba, arrastado por sua narrativa, transformando-se em onça, diante dos olhos do interlocutor (e dos leitores). A transfiguração se dá no momento em que a linguagem se desarticula, quebra-se em resíduos fônicos, que soam como um rugido ou um estertor, pois o interlocutor virtual, tomando consciência da metamorfose, dispara contra o homem-iauaretê o revólver que mantivera engatilhado durante toda a conversa. Neste Iaueretê, não é a história que cede o primeiro plano à palavra, mas a palavra, que, ao irromper em primeiro plano, configura a personagem e a ação, desenvolvendo a história.
Haroldo de Campos. A linguagem do Iauaretê. Metalinguagem & outras metas: ensaios
de teoria e crítica literária. 4.ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 57-64 (com adaptações).
Tendo como base o texto de Haroldo de Campos e as questões por ele suscitadas, julgue o item a seguir.
Depreende-se do texto que a estrutura do conto Meu Tio, o Iauaretê, que representa, na visão do crítico Haroldo Campos, a fase rosiana de experimentação linguística do tupi, aproxima-se da narrativa das fábulas.
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Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
O conto Meu Tio, o Iauaretê — publicado, em 1961, na revista Senhor, e republicado, em 1969, em Estas Histórias — representa, a nosso ver, o estágio mais avançado do experimento de Guimarães Rosa com a prosa. O conto é um longo monólogo-diálogo (o diálogo é pressuposto, pois um só protagonista pergunta e responde) de um onceiro, perdido na solidão dos gerais, que recebe, em seu rancho, a visita inesperada de um viajante. Filho de pai branco e de mãe índia, o onceiro, que fora contratado por um proprietário de terras para ‘desonçar’ suas propriedades, arrependido de ter matado ‘seus parentes’, passa a matar gente. A fala do onceiro é tematizada por um ‘Nhem?’ intercorrente, que é, antes, um ‘Nhennhem’ — do tupi, Nhehê ou nheeng —, que significa, simplesmente, ‘falar’. Rosa cria também o verbo ‘nheengar’, de pura aclimatação tupi, e, juntando a ‘jaguaretê’ — tupinismo para onça verdadeira — a terminação nhennhém, ou nhem, como se fora uma desinência verbal, forma outras palavras, para exprimir o linguajar das onças. O texto fica, por assim dizer, mosqueado de nheengatu, e esses rastros que nele aparecem preparam e anunciam o momento da metamorfose (...): o tigreiro, em seu rancho encravado na “jaguaretama”, enquanto conta para seu hóspede os ‘causos’ de caçada e morte, está também falando uma linguagem de onça. À medida que a história flui, tudo vai convergindo para o clímax metamórfico. Este não é apresentado, mas presentificado pelo texto: o onceiro acaba, arrastado por sua narrativa, transformando-se em onça, diante dos olhos do interlocutor (e dos leitores). A transfiguração se dá no momento em que a linguagem se desarticula, quebra-se em resíduos fônicos, que soam como um rugido ou um estertor, pois o interlocutor virtual, tomando consciência da metamorfose, dispara contra o homem-iauaretê o revólver que mantivera engatilhado durante toda a conversa. Neste Iaueretê, não é a história que cede o primeiro plano à palavra, mas a palavra, que, ao irromper em primeiro plano, configura a personagem e a ação, desenvolvendo a história.
Haroldo de Campos. A linguagem do Iauaretê. Metalinguagem & outras metas: ensaios
de teoria e crítica literária. 4.ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 57-64 (com adaptações).
Tendo como base o texto de Haroldo de Campos e as questões por ele suscitadas, julgue o item a seguir.
Segundo o crítico Haroldo de Campos, o verbo que representa o linguajar das onças, formado do elemento tupi “nhennhém” ou “nhem”, equivale, no que se refere ao léxico da língua portuguesa, a um verbo que denota estado.
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Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: ESCS
Texto I
Bucólica
Agora vamos correr o pomar antigo Bicos aéreos de patos selvagens Tetas verdes entre folhas E uma passarinhada nos vaia Num tamarindo Que decola para o anil Árvores sentadas Quitandas vivas de laranjas maduras Vespas.
Oswald de Andrade. Pau Brasil. 2.ª ed. São Paulo: Globo, 2003, p. 132.
Texto II
O trovador
Sentimentos em mim do asperamente dos homens das primeiras eras... As primaveras de sarcasmo intermitentemente no meu coração arlequinal... Intermitentemente... Outras vezes é um doente, um frio na minha alma doente como um longo som redondo Cantabona! Cantabona! Dlorom...
Sou um tupi tangendo um alaúde!
Mário de Andrade. Poesia reunida. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005, p. 83.
Com base nos textos I e II, assinale a opção correta.
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Orgão: ESCS
Texto I
Bucólica
Agora vamos correr o pomar antigo
Bicos aéreos de patos selvagens
Tetas verdes entre folhas
E uma passarinhada nos vaia
Num tamarindo
Que decola para o anil
Árvores sentadas
Quitandas vivas de laranjas maduras
Vespas.
Oswald de Andrade. Pau Brasil. 2.ª ed. São Paulo: Globo, 2003, p. 132.
Texto II
O trovador
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...
Sou um tupi tangendo um alaúde!
Mário de Andrade. Poesia reunida. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005, p. 83.
Os textos acima exemplificam a estética da poesia modernista de 1922, cuja característica marcante foi
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Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: ESCS
A natureza e situação do ser, o problema do homem retorcido e enrodilhado, que tenta projetar-se no mundo igualmente torto, é grave pela paralisia que pode trazer, anulando a existência. O movimento, isto é, a vida, estaria numa espécie de certeza estética, relativa à natureza do canto que redime; e que, no próprio fato de manifestar o problema por intermédio de uma estrutura coerente, erige-se em objeto — alheio ao poeta, autônomo na sua possibilidade de fixar a atenção e fazer vibrar o leitor, que é o outro, inatingível no comércio da vida.
Antonio Candido. Vários escritos. 4.ª ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004, p. 86-7.
No parágrafo acima, o autor trata da poesia de Carlos Drummond de Andrade. A partir da leitura desse trecho e considerando as características da obra de Drummond, assinale a opção correta.
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Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: ESCS
Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta – só o deogratias; e o troco. [...] Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? [.] Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos os animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.
Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome Nhorinhá, filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela uma carta: carta simples, pedindo notícias e dando lembranças, escrita, acho que, por outra alheia mão. [...] Ela tinha botado por fora só: Riobaldo que está com Medeiro Vaz. E veio trazida por tropeiros e viajores, recruzou tudo. [...]
Sendo isto. Ao doido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas — e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção.
João Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 82-4.
No texto de Guimarães Rosa, Riobaldo, narrador de Grande Sertão: Veredas, explica ao ouvinte que seu modo de contar é
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Orgão: ESCS
Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta – só o deogratias; e o troco. [...] Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? [.] Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos os animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.
Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome Nhorinhá, filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela uma carta: carta simples, pedindo notícias e dando lembranças, escrita, acho que, por outra alheia mão. [...] Ela tinha botado por fora só: Riobaldo que está com Medeiro Vaz. E veio trazida por tropeiros e viajores, recruzou tudo. [...]
Sendo isto. Ao doido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas — e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção.
João Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 82-4.
O fragmento de texto apresentado acima foi extraído de uma das mais conhecidas obras de Guimarães Rosa, escritor que renovou a ficção regionalista brasileira. A narrativa desse autor caracteriza-se por
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Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: ESCS
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.
É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes essas coisas
feitas de palavras.
É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.
João Cabral de Melo Neto. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998.
No poema apresentado acima, João Cabral de Melo Neto relacionou a escrita poética ao aspecto inorgânico dos minerais. Dessa relação
metafórica depreende-se que
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Orgão: ESCS
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.
É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes essas coisas
feitas de palavras.
É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.
João Cabral de Melo Neto. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998.
No poema acima, verificam-se algumas das características da poesia de João Cabral de Melo Neto que o tornaram reconhecido na literatura brasileira. Na obra poética desse autor,
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Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: ESCS
Quando à noite no leito perfumado
Lânguida fronte no sonhar reclinas,
No vapor da ilusão por que te orvalha
Pranto de amor as pálpebras divinas?
E, quando eu te contemplo adormecida,
Solto o cabelo no suave leito,
Por que um suspiro tépido ressona
E desmaia suavíssimo em teu peito?
Virgem do meu amor, o beijo a furto
Que pouso em tua face adormecida
Não te lembra no peito os meus amores
E a febre de sonhar da minha vida?
Dorme, ó anjo de amor! no teu silêncio
O meu peito se afoga de ternura
E sinto que o porvir não vale um beijo
E o céu um teu suspiro de ventura!
Um beijo divinal que acende as veias,
Que de encantos os olhos ilumina,
Colhido a medo como flor da noite
Do teu lábio na rosa purpurina,
E um volver de teus olhos transparentes,
Um olhar dessa pálpebra sombria
Talvez pudessem reviver-me n’alma
As santas ilusões de que eu vivia!
Álvares de Azevedo. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000, p. 133-4.
A partir da leitura do poema de Álvares de Azevedo e considerando as características da poesia romântica brasileira, assinale a opção correta.
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