Foram encontradas 170 questões.
Os trovões de antigamente
Estou no antigo quarto de meus pais; as duas janelas dão
para o terreno onde fica o imenso pé de fruta-pão, à cuja sombra
cresci. O desenho de suas folhas recorta-se contra o céu; essa
imagem das folhas do fruta-pão recortada contra o céu é das
mais antigas de minha infância, do tempo em que eu ainda dormia em uma pequena cama cercada de palhinha junto à janela
da esquerda.
A tarde está quente. Deito-me um pouco para ler, mas
deixo o livro, fico a olhar pela janela. Lá fora, uma galinha
cacareja, como antigamente. E essa trovoada de verão é tão
Cachoeiro, é tão minha casa em Cachoeiro! Não, não é verdade que em toda parte do mundo os trovões sejam iguais.
Aqui os morros lhe dão um eco especial, que prolonga seu
rumor.
A altura e a posição das nuvens, do vento e dos morros
que ladeiam as curvas do rio criam essa ressonância em que
me reconheço menino, ajustado e fascinado pela visão dos relâmpagos, esperando a chegada dos trovões e depois a chuva
batendo grossa lá fora, na terra quente, invadindo a casa com
o seu cheiro. Diziam que São Pedro estava arrastando móveis,
lavando a casa; e eu via o padroeiro de nossa terra, com suas
barbas empurrando móveis imensos, mas iguais aos de nossa
casa, no assoalho do céu – certamente também feito assim,
de tábuas largas. Parece que eu não acreditava na história,
sabia que era apenas uma maneira de dizer, uma brincadeira,
mas a imagem de São Pedro de camisolão empurrando um
grande armário preto me ficou na memória.
Nossa casa era bem bonita, com varanda, caramanchão
e o jardim grande ladeando a rua. Lembro-me confusamente
de alguns canteiros, algumas flores e folhagens desse jardim
que não existe mais; especialmente de uma grande touceira
de espadas de São Jorge que a gente chamava apenas de “talas”;
e, lá no fundo, o precioso pé de saboneteira que nos fornecia
bolas pretas para o jogo de gude.
Quando começavam as chuvas a gente ia toda manhã lá
no quintal deles ver até onde chegara a enchente. As águas
barrentas subiam primeiro até a altura da cerca dos fundos,
depois às bananeiras, vinham subindo o quintal, entravam pelo
porão. Mais de uma vez, no meio da noite, o volume do rio
cresceu tanto que a família defronte teve medo.
Então vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós
era uma festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela
intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito; como se fazia café e se tomava café tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua,
entrava pelo nosso portão, e me lembro que nós, os meninos,
torcíamos para ele subir mais e mais. Sim, éramos a favor da
enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um
palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim.
Às vezes chegava alguém a cavalo, dizia que lá para cima, pelo
Castelo, tinha caído chuva muita, anunciava água nas cabeceiras, então dormíamos sonhando que a enchente ia outra vez
crescer, queríamos sempre que aquela fosse a maior de todas
as enchentes.
E naquelas tardes as trovoadas tinham esse mesmo ronco
prolongado entre morros, diante das duas janelas do quarto de
meus pais; eles trovejavam sobre nosso telhado e nosso pé de
fruta-pão, os grandes, grossos trovões familiares de antigamente, os bons trovões do velho São Pedro.
(BRAGA, Rubem. 200 Crônicas Escolhidas – Livro vira-vira 1. Rio de
Janeiro: Edições BestBolso, 2011, p. 411. Adaptado.)
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Os trovões de antigamente
Estou no antigo quarto de meus pais; as duas janelas dão
para o terreno onde fica o imenso pé de fruta-pão, à cuja sombra
cresci. O desenho de suas folhas recorta-se contra o céu; essa
imagem das folhas do fruta-pão recortada contra o céu é das
mais antigas de minha infância, do tempo em que eu ainda dormia em uma pequena cama cercada de palhinha junto à janela
da esquerda.
A tarde está quente. Deito-me um pouco para ler, mas
deixo o livro, fico a olhar pela janela. Lá fora, uma galinha
cacareja, como antigamente. E essa trovoada de verão é tão
Cachoeiro, é tão minha casa em Cachoeiro! Não, não é verdade que em toda parte do mundo os trovões sejam iguais.
Aqui os morros lhe dão um eco especial, que prolonga seu
rumor.
A altura e a posição das nuvens, do vento e dos morros
que ladeiam as curvas do rio criam essa ressonância em que
me reconheço menino, ajustado e fascinado pela visão dos relâmpagos, esperando a chegada dos trovões e depois a chuva
batendo grossa lá fora, na terra quente, invadindo a casa com
o seu cheiro. Diziam que São Pedro estava arrastando móveis,
lavando a casa; e eu via o padroeiro de nossa terra, com suas
barbas empurrando móveis imensos, mas iguais aos de nossa
casa, no assoalho do céu – certamente também feito assim,
de tábuas largas. Parece que eu não acreditava na história,
sabia que era apenas uma maneira de dizer, uma brincadeira,
mas a imagem de São Pedro de camisolão empurrando um
grande armário preto me ficou na memória.
Nossa casa era bem bonita, com varanda, caramanchão
e o jardim grande ladeando a rua. Lembro-me confusamente
de alguns canteiros, algumas flores e folhagens desse jardim
que não existe mais; especialmente de uma grande touceira
de espadas de São Jorge que a gente chamava apenas de “talas”;
e, lá no fundo, o precioso pé de saboneteira que nos fornecia
bolas pretas para o jogo de gude.
Quando começavam as chuvas a gente ia toda manhã lá
no quintal deles ver até onde chegara a enchente. As águas
barrentas subiam primeiro até a altura da cerca dos fundos,
depois às bananeiras, vinham subindo o quintal, entravam pelo
porão. Mais de uma vez, no meio da noite, o volume do rio
cresceu tanto que a família defronte teve medo.
Então vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós
era uma festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela
intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito; como se fazia café e se tomava café tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua,
entrava pelo nosso portão, e me lembro que nós, os meninos,
torcíamos para ele subir mais e mais. Sim, éramos a favor da
enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um
palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim.
Às vezes chegava alguém a cavalo, dizia que lá para cima, pelo
Castelo, tinha caído chuva muita, anunciava água nas cabeceiras, então dormíamos sonhando que a enchente ia outra vez
crescer, queríamos sempre que aquela fosse a maior de todas
as enchentes.
E naquelas tardes as trovoadas tinham esse mesmo ronco
prolongado entre morros, diante das duas janelas do quarto de
meus pais; eles trovejavam sobre nosso telhado e nosso pé de
fruta-pão, os grandes, grossos trovões familiares de antigamente, os bons trovões do velho São Pedro.
(BRAGA, Rubem. 200 Crônicas Escolhidas – Livro vira-vira 1. Rio de
Janeiro: Edições BestBolso, 2011, p. 411. Adaptado.)
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Os trovões de antigamente
Estou no antigo quarto de meus pais; as duas janelas dão
para o terreno onde fica o imenso pé de fruta-pão, à cuja sombra
cresci. O desenho de suas folhas recorta-se contra o céu; essa
imagem das folhas do fruta-pão recortada contra o céu é das
mais antigas de minha infância, do tempo em que eu ainda dormia em uma pequena cama cercada de palhinha junto à janela
da esquerda.
A tarde está quente. Deito-me um pouco para ler, mas
deixo o livro, fico a olhar pela janela. Lá fora, uma galinha
cacareja, como antigamente. E essa trovoada de verão é tão
Cachoeiro, é tão minha casa em Cachoeiro! Não, não é verdade que em toda parte do mundo os trovões sejam iguais.
Aqui os morros lhe dão um eco especial, que prolonga seu
rumor.
A altura e a posição das nuvens, do vento e dos morros
que ladeiam as curvas do rio criam essa ressonância em que
me reconheço menino, ajustado e fascinado pela visão dos relâmpagos, esperando a chegada dos trovões e depois a chuva
batendo grossa lá fora, na terra quente, invadindo a casa com
o seu cheiro. Diziam que São Pedro estava arrastando móveis,
lavando a casa; e eu via o padroeiro de nossa terra, com suas
barbas empurrando móveis imensos, mas iguais aos de nossa
casa, no assoalho do céu – certamente também feito assim,
de tábuas largas. Parece que eu não acreditava na história,
sabia que era apenas uma maneira de dizer, uma brincadeira,
mas a imagem de São Pedro de camisolão empurrando um
grande armário preto me ficou na memória.
Nossa casa era bem bonita, com varanda, caramanchão
e o jardim grande ladeando a rua. Lembro-me confusamente
de alguns canteiros, algumas flores e folhagens desse jardim
que não existe mais; especialmente de uma grande touceira
de espadas de São Jorge que a gente chamava apenas de “talas”;
e, lá no fundo, o precioso pé de saboneteira que nos fornecia
bolas pretas para o jogo de gude.
Quando começavam as chuvas a gente ia toda manhã lá
no quintal deles ver até onde chegara a enchente. As águas
barrentas subiam primeiro até a altura da cerca dos fundos,
depois às bananeiras, vinham subindo o quintal, entravam pelo
porão. Mais de uma vez, no meio da noite, o volume do rio
cresceu tanto que a família defronte teve medo.
Então vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós
era uma festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela
intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito; como se fazia café e se tomava café tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua,
entrava pelo nosso portão, e me lembro que nós, os meninos,
torcíamos para ele subir mais e mais. Sim, éramos a favor da
enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um
palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim.
Às vezes chegava alguém a cavalo, dizia que lá para cima, pelo
Castelo, tinha caído chuva muita, anunciava água nas cabeceiras, então dormíamos sonhando que a enchente ia outra vez
crescer, queríamos sempre que aquela fosse a maior de todas
as enchentes.
E naquelas tardes as trovoadas tinham esse mesmo ronco
prolongado entre morros, diante das duas janelas do quarto de
meus pais; eles trovejavam sobre nosso telhado e nosso pé de
fruta-pão, os grandes, grossos trovões familiares de antigamente, os bons trovões do velho São Pedro.
(BRAGA, Rubem. 200 Crônicas Escolhidas – Livro vira-vira 1. Rio de
Janeiro: Edições BestBolso, 2011, p. 411. Adaptado.)
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Questão presente nas seguintes provas
Considerando-se o tipo textual apresentado pelo autor por
meio dos fatos mencionados, assim como o tema tratado,
pode-se inferir por meio dos efeitos de sentido provocados
pelos diálogos que ocorrem, bem como pela fala do autor,
que a questão tratada atribui ao texto a característica de:
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Questão presente nas seguintes provas
- SintaxeFrase, Oração e PeríodoOração SubordinadaSubordinada Adjetiva
- SintaxeFrase, Oração e PeríodoOração SubordinadaSubordinada Substantiva
- SintaxeFrase, Oração e PeríodoOração SubordinadaSubordinada Reduzida
- SintaxeFrase, Oração e PeríodoOração SubordinadaSubordinadas Adverbial
Considerando as relações de subordinação existentes e estabelecidas entre o termo regente e o termo regido, subordinado ao primeiro, identifique a adaptação cuja correção é
real de acordo com a Norma Padrão da Língua (alterações semânticas deverão ser ignoradas):
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Questão presente nas seguintes provas
Dentre os grupos de palavras a seguir, possuem a mesma
justificativa gramatical para o emprego da acentuação gráfica as indicadas em:
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Sintaticamente, os termos destacados têm a mesma função
na oração em que foram empregados, com EXCEÇÃO de:
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Questão presente nas seguintes provas
Sobre a tirinha a seguir, pode-se afirmar que:
(Disponível em: <https://demografiaunicamp.wordpress.com/2013/05/31/analfabetismo-machado-de-assis/>)
(Disponível em: <https://demografiaunicamp.wordpress.com/2013/05/31/analfabetismo-machado-de-assis/>)
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Analfabetismo
Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas
nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem.
São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.
Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:
— Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um
povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania
nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação
nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último,
o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação
que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles;
ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.
A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:
— A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler
é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o
que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer
ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa
da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma
coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo:
uma revolução ou um golpe de Estado.
Replico eu:
— Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…
— As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve
dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos
30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora
sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser
na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30%
nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.
E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar
desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.
(ASSIS, Machado. Analfabetismo. In: Crônicas Escolhidas. São Paulo:
Editora Ática S.A, 1994.)
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Analfabetismo
Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas
nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem.
São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.
Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:
— Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um
povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania
nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação
nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último,
o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação
que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles;
ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.
A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:
— A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler
é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o
que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer
ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa
da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma
coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo:
uma revolução ou um golpe de Estado.
Replico eu:
— Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…
— As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve
dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos
30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora
sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser
na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30%
nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.
E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar
desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.
(ASSIS, Machado. Analfabetismo. In: Crônicas Escolhidas. São Paulo:
Editora Ática S.A, 1994.)
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