Leia o texto a seguir para responder à questão.
O destino implacável das flores
O senhor gordo, de ar próspero, pede ao
vendedor de flores que lhe escolha 12 rosas por
abrir. Recomenda, depois, que sejam amarelas,
mas concordou que fossem vermelhas, já que não
havia das amarelas. As rosas foram escolhidas,
uma a uma, cheiradas uma por uma e colocadas
sobre uma folha de papel transparente. O senhor
gordo puxou do bolso um cartão, dobrou-o em
uma das extremidades e pediu, com um olhar, um
lugar (discreto) onde pudesse escrever, sem ser
visto.
Está sentado, de caneta em punho e olhar
perdido. Morde a unha do indicador da mão
esquerda. Espera a frase poética. De repente, seus
olhos se iluminam, os lábios se entreabrem, num
sorriso enlevado. “É a inspiração que deve ter
chegado...” — penso, do meu canto. O homem
começa a escrever, mordendo os lábios, como
todo bom calígrafo. Para, rasga o que escreveu e
procura, em todos os bolsos, outro cartão. Como
não encontra, pede novo cartão, da casa. Volta a
escrever, mordendo os lábios e para mais uma
vez... Levanta os olhos, a caneta no ar. Olha as
prateleiras de flores, o homem do balcão e olha
para mim, afinal, com certa alegria. Depois,
caminha em direção à porta, onde estou e onde
tenho absoluta certeza de que serei abordado. Caneta na mão direita, cartão na esquerda. Sorri,
o sorriso sem graça de quem precisa, mas odeia
precisar. Penso que terei de lhe fornecer uma
frase e na minha terrível dificuldade de fazer
frases. Vem andando, com a caneta, o cartão e o
sorriso. Bem perto, o mesmo sorriso, pergunta se
sou quem ele está pensando. Respondo-lhe que
sim e penso em quanto gostaria de não ser. Baixa
a voz e pede, então, o socorro:
— Como é mesmo que se escreve
“exímia”?
Adivinho-lhe o local da dúvida e
respondo, prontamente:
— Com “x” mesmo.
Olhou-me espantado. Agradeceu.
Depois, achou que se devia justificar:
— É para uma bailarina.
Sorri-lhe. Saí andando, para minha vida.
Mas, não me pude impedir de pensar que, horas
depois, Marlene Rosário estaria recebendo mais
12 botões de rosas, com um cartão de ponta
virada, onde leria sem muitas emoções: “À
exímia bailarina, o seu mais ardoroso
admirador”.
MARIA, Antônio. O destino implacável das flores. Última
Hora, 22 fev. 1961. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/15237/odestino-implacavel-das-flores>.
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Professor da Educação Básica - Educação Física
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