Magna Concursos
3781749 Ano: 2024
Disciplina: Português
Banca: SELECON
Orgão: CEFET-RJ

Cruzamento

 

Vou para o dentista, duas da tarde, meu carro corta com esforço a geleia modorrenta1 em que o ar se transformou esses dias. Um casal de adolescentes começa a atravessar a rua, de mãos dadas, à minha frente. Eles dão uma olhada para o meu carro, de leve, calculando. A garota faz menção de apressar o passo, o garoto a dissuade com um olhar de esguelha e, talvez, um discretíssimo aperto na mão. Eles seguem seu ritmo, lento, rumo a outra calçada.

 

Se nenhum de nós mudarmos nossas velocidades, acabarei por atropelá-los. É evidente que eles sabem disso, como é evidente que isso não acontecerá, pois eu venho devagar e basta pisar de leve no freio e pronto, saímos todos, são e salvos, eu para o dentista, e eles para a casa dos pais de um deles, onde se deitarão numa cama de solteiro, embaixo de uma parede cheia de fotos e pôsteres e frases de canetinha hidrocor tipo Ju-eu-te-amoamiga! e descobrirão que a vida é boa.

   

Esse pequeno acontecimento me atinge em algum calo das minhas neuroses urbanas. Irrito-me porque fingiram que a velocidade deles estava certa. No entanto, sabem que, se não morreram atropelados, é porque eu diminuí o ritmo. Mais ainda, talvez, porque o garoto passou para a menina a ideia, naquele olhar fugaz, de que com ele ela estava segura, de que era só confiar e tudo daria certo, eles chegariam ao outro lado da rua, depois ao outro lado do mundo, se quisessem, e seriam felizes para sempre. Mas foi o tiozão aqui quem tornou a travessia possível.

 

Percebo então que quem atravessou a rua à minha frente não foi um casal de adolescentes, foi a adolescência em si. E quem freou o carro não fui eu, mas a idade adulta. É assim que a adolescência lida com o mundo. Não capitula2: arrisca, peita. “Imagina, se eu mudo meu ritmo, o mundo é que se acostume a ele!”. E porque os adolescentes têm um anjo protetor dos mais poderosos, ou, pelo menos, uma sorte do tamanho de um bonde, acontece de chegarem, quase sempre, sãos e salvos do outro lado da rua.

   

Já a idade adulta pondera, põe o pé no freio quando convém, faz concessões ao mundo, dirige afinado com a sinfonia dos outros, dentro dessa outra geleia modorrenta cujo nome, hoje, soa tão adolescente: sistema. E por isso me irrito, porque ali, naquela rua, diminuindo meu ritmo, me percebo velho, adequado, apascentado3. Eles vão no ritmo deles, a realidade que se vire.

   

É assim, distraídos, que mudam o mundo.

 

PRATA, Antonio. Estadão, 23/12/2008. Disponível em: http://blogdoantonioprata. blogspot.com/2007/10/cruzamento.html. Acesso em: 20 out 2024. Adaptado.

 

Vocabulário:

1. modorrenta – desinteressante

2. capitula – cede

3. apascentado – adequado

 

O texto de Antonio Prata é uma crônica narrativa em que se desencadeia uma reflexão a partir do seguinte episódio:

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas

Curso Técnico de Nível Médio

30 Questões