Magna Concursos
4126832 Ano: 2024
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: PPS

Para responder à questão, leia o conto romântico “O baú”, cuja autoria é desconhecida.

Isto foi há cinquenta anos: o tempo dos baús tinha passado, a maior parte deles se achava transformada em tulhas¹ de aveia junto das estrebarias².

 

Adélia, linda rapariga³, acabava de sair do convento; seus pais lhe deram parte do seu casamento: pensando nos vestidos, nas joias, nas plumas, Adélia era feliz… Chegou o dia das núpcias: grande era a alegria da família, da rapariga e de suas amigas. A festa foi bela e suntuosa4; o povo, ao ver passar os noivos, e os pobres, ao receber a esmola, exclamavam: “Que lindo par! Deus os abençoe! Deus os faça felizes!”

 

Felizes! Sim. Vós ides vê-lo. Um dia de casamento é sempre longo, e as horas correm penosamente. A jovem esposa propôs a suas amigas, para se divertirem, diversos jogos próprios da sua idade… “Vamos ao esconde-esconde…” E eu – disse Adélia – tenho um esconderijo em que ninguém me achará. Eis a bela e fresca desposada subindo a escada, abrindo e fechando a porta do forro5; levantando a custo a pesada tampa dum enorme baú e metendo-se dentro com o seu vestido de cetim branco, seu véu branco, mui contente de se ter lembrado de tão seguro esconderijo… Suas amigas não a acharão… não… e a pesada tampa se fechou sobre ela. Quem virá descobri-la?! Ninguém.

 

As companheiras de Adélia a procuraram longo tempo, bem longo… puseram-se enfim a gritar por ela na escada, nos corredores, à porta de todos os quartos: “Adélia! Aparece, acabou-se o jogo… e tua mãe, teu marido esperam por ti no salão!”

 

Era assim: todo o mundo a esperava; em breve todo o mundo se pôs em cuidado, e começou a procurá-la, e a gritar: “Adélia! Adélia!…” A pobre rapariga talvez que ouvisse todo esse ruído, todas essas vozes, mas não podia sair do baú. A tampa ao cair se tinha fechado, e as lindas mãos da noiva, ornadas de anéis e diamantes, não podiam abrir o caixão, que ia ser seu sepulcro. Quanto não gritaria ela?! Mas a grossura do velho baú lhe tinha sufocado a voz, e ninguém pôde imaginar, desgraçadamente, que se tivesse ali encerrado. Passaram-se semanas, meses e anos. Adélia não apareceu, e sua mãe ficou inconsolável. O marido de um dia não teve uma dor tão profunda. Esta estranha desaparição deu longo tempo muito que falar.

 

Depois que voltou a moda dos baús, foi tirado aquele do forro e trazido com outros móveis para o pátio, a fim de serem vistos e apreciados. O baú era bom… vai-se abrir para ver o seu estado por dentro.

 

Alguns ossos, restos dum esqueleto de mulher, pedaços de cetim branco, uma coroa de folhas de laranjeira, alguns diamantes e anéis enfiados em dedos descarnados… Eis o que restava da jovem e bela noiva.

 

(Vagner Camilo & Hélio Guimarães (orgs). O sino e o relógio: uma antologia do conto romântico brasileiro, 2021. Adaptado)

1 tulha: recipiente usado para armazenagem de cereais.

2 estrebaria: local onde ficam os cavalos.

3 rapariga: moça.

4 suntuoso: luxuoso.

5 forro: vão entre o teto e o telhado de uma casa.

 

Considere a seguinte passagem:

 

“Depois que voltou a moda dos baús, foi tirado aquele do forro e trazido com outros móveis para o pátio, a fim de serem vistos e apreciados.” No contexto em que se insere, a locução conjuntiva destacada expressa ideia de

 

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