Para responder à questão, leia o conto romântico “O baú”, cuja autoria é desconhecida.
Isto foi há cinquenta anos: o tempo dos baús tinha passado, a maior parte deles se achava transformada em tulhas¹ de aveia junto das estrebarias².
Adélia, linda rapariga³, acabava de sair do convento; seus pais lhe deram parte do seu casamento: pensando nos vestidos, nas joias, nas plumas, Adélia era feliz… Chegou o dia das núpcias: grande era a alegria da família, da rapariga e de suas amigas. A festa foi bela e suntuosa4; o povo, ao ver passar os noivos, e os pobres, ao receber a esmola, exclamavam: “Que lindo par! Deus os abençoe! Deus os faça felizes!”
Felizes! Sim. Vós ides vê-lo. Um dia de casamento é sempre longo, e as horas correm penosamente. A jovem esposa propôs a suas amigas, para se divertirem, diversos jogos próprios da sua idade… “Vamos ao esconde-esconde…” E eu – disse Adélia – tenho um esconderijo em que ninguém me achará. Eis a bela e fresca desposada subindo a escada, abrindo e fechando a porta do forro5; levantando a custo a pesada tampa dum enorme baú e metendo-se dentro com o seu vestido de cetim branco, seu véu branco, mui contente de se ter lembrado de tão seguro esconderijo… Suas amigas não a acharão… não… e a pesada tampa se fechou sobre ela. Quem virá descobri-la?! Ninguém.
As companheiras de Adélia a procuraram longo tempo, bem longo… puseram-se enfim a gritar por ela na escada, nos corredores, à porta de todos os quartos: “Adélia! Aparece, acabou-se o jogo… e tua mãe, teu marido esperam por ti no salão!”
Era assim: todo o mundo a esperava; em breve todo o mundo se pôs em cuidado, e começou a procurá-la, e a gritar: “Adélia! Adélia!…” A pobre rapariga talvez que ouvisse todo esse ruído, todas essas vozes, mas não podia sair do baú. A tampa ao cair se tinha fechado, e as lindas mãos da noiva, ornadas de anéis e diamantes, não podiam abrir o caixão, que ia ser seu sepulcro. Quanto não gritaria ela?! Mas a grossura do velho baú lhe tinha sufocado a voz, e ninguém pôde imaginar, desgraçadamente, que se tivesse ali encerrado. Passaram-se semanas, meses e anos. Adélia não apareceu, e sua mãe ficou inconsolável. O marido de um dia não teve uma dor tão profunda. Esta estranha desaparição deu longo tempo muito que falar.
Alguns ossos, restos dum esqueleto de mulher, pedaços de cetim branco, uma coroa de folhas de laranjeira, alguns diamantes e anéis enfiados em dedos descarnados… Eis o que restava da jovem e bela noiva.
1 tulha: recipiente usado para armazenagem de cereais.
2 estrebaria: local onde ficam os cavalos.
3 rapariga: moça.
4 suntuoso: luxuoso.
5 forro: vão entre o teto e o telhado de uma casa.
Considere a seguinte passagem:
“Depois que voltou a moda dos baús, foi tirado aquele do forro e trazido com outros móveis para o pátio, a fim de serem vistos e apreciados.” No contexto em que se insere, a locução conjuntiva destacada expressa ideia de