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4109571 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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QUERIDO ÉRICO

 

Lygia Fagundes Telles

 

Érico Veríssimo, meu querido:

 

Tão prontamente aceitei o convite para escrever uma página sobre você, com tanta alegria fui dizendo sim que em seguida nem pude me lamentar pelo que paguei — pelo que tenho pago sempre por essa minha face arrebatada e fácil no sentido de não calcular. Não prever os cipós nos quais acabo me enrolando todas as vezes que saio do meu gênero e faço outra coisa que não seja nitidamente a minha ficção. Fico insegura. Gauche. E então? Medo de ser pedante. Medo de ser sentimental. Aceitam os senhores da Globo um conto com Érico na pele de personagem principal? – tive vontade de perguntar.

 

Como descobrir a palavra exata, num depoimento tão pessoal, sem tocar nas detestáveis pontas que pareciam me aguardar com a implacabilidade do monstro de duas cabeças desafiando o viajante na encruzilhada? A cabeça da direita — a da razão — soltando fogo e fumo pelas narinas, a cabeça da esquerda — a do coração — soltando a mesma massa espessa de fumaça e chamas, tão perigosas quanto as da sua irmã gêmea. Nem possessa nem lúcida.

 

Sentei-me diante da folha em branco, tirei do copo de pedra minha caneta Bic e fiquei olhando, através da transparência plástica, a veia estática de tinta vermelha — sangue do pensamento ainda não pensado. E então? — perguntei-me ainda naquele estado de perplexidade que me faz crepúsculo, nem dia nem noite, mas uma coisa ambígua à espera do milagre de uma definição. A caneta plena e eu oca. E essa ideia do conto? Hein? Não serve um conto?...

 

Nem pedante nem sentimental, que ele não merece isso, repeti e fiquei sorrindo, porque nesse instante senti que você sorriu também. O sorriso foi se transformando num riso lento e descontraído, sem nenhuma ironia, apenas divertido. Rimos juntos enquanto tomei um café e acendi meu cigarro: você tem razão, Érico, por que a palavra exata? Lá sei por onde andará a palavra exata, tão melhor usar nosso habitual diálogo, testemunho de que não só a arte é diálogo, mas principalmente a amizade. E como amizade também é memória, quero me estender à margem do rio do Passado Mais que Perfeito e ficar olhando a correnteza com a mesma antiga voz e a mesma cor, em meio do alarido delirante do presente [...]. Sou raiz que se apega e sou folha que se abandona nessa evocação orientada apenas pela terna vigilância de quem escreve a um amigo com a espontaneidade de poder dizer lá no alto: meu querido.

 

Érico Veríssimo, meu querido, é manhã e estamos no ano de 1943. [...] Concorri à vaga da Academia de Letras da escola [...] e a primeira coisa que me ocorreu fazer foi convidar você e Cecília Meireles para uma conferência na nossa Academia. [...]

 

No dia da sua chegada, não pudemos sequer ir buscá-lo no aeroporto. [...] Não, ninguém tinha carro nem nada, os motorizados da Faculdade não liam.

 

Sugeri que lhe déssemos uma pequena lembrança após a conferência [...] E, terminada a sessão, não seria interessante oferecer um uísque ao romancista? [...] Em que casa seria essa reunião?

 

Lembrei-me de telefonar a Mário de Andrade: estava viajando. Fomos procurar Oswald de Andrade, que nos recebeu com o maior calor, mas esfriou quando um colega deu sua baixaria: já que o Mário não estava em São Paulo, quem sabe ele, Oswald, poderia?... Uma reuniãozinha simpática, com uma dúzia de pessoas, quem sabe... Não podia, não. Estava fortemente implicado com o gaúcho, que tinha dois defeitos irremovíveis: primeiro, não se definia politicamente, quer dizer, não caíra nos braços do partido quando devidamente sondado. “Mas é possível uma coisa dessas? Num momento como este que atravessamos, um escritor ficar indiferente? Apático?! E bebemos mais um copo de cerveja, “enquanto Oswald passava ao segundo item da sua implicância. Então desatamos a rir, porque era mesmo engraçado, aquilo de ele se invocar com romancista por ser um romancista feliz. “Ele é feliz demais, não pode! Vende os livros, joga tênis e se casou, e continua casado a vida inteira com uma mulher só, é abusar! Ele ainda está casado com a mesma?”, perguntou e, antes mesmo de ouvir a resposta, explodiu: “O dia em que ele comer o pão que o diabo amassou, nesse dia escreverá um grande livro, e eu lhe oferecerei uma festa. Mas antes tem que ficar desesperado, rasgado, preso e corneado até pelo cachorro”.

 

Artista é todo aquele que bebe fel e querosene — concluí, enquanto assistia a uma aula de Legislação Social, onde sempre me entregava a pensamentos sobre Deus, a arte e a morte, etecetera. Esse e outros preconceitos adquiri e perdi com o tempo: foi na carne que senti, um dia, o julgamento de um crítico, que ficou uma fúria comigo porque eu escrevia coisas mórbidas e em seguida ia fazer ginástica e jogar voleibol na Associação Cristã dos Moços. Mas como é que pode?

 

“O bom romancista é ao mesmo tempo um anjo e um cavalão, trabalha com as asas (as coisas mais finas, mais espirituais, mais belas) e com as patas, isto é, trabalho braçal, a resistência física e a paciência cavalar. Mas confio acima de tudo no Instinto. Que o anjo trabalhe montado no cavalo. E que no fim desapareça de todo a marca das patas e fique apenas a luz das asas. Bonito, não?” (Porto Alegre, 29 de agosto de 1950.)

 

Você dizia que não gostava nem de tango, nem de gato, nem de cachorro. Mas gostava de Bach, de criança e de cavalo. Eram os primeiros elementos de um gaúcho tranquilo que não dançava tango, mas tinha a cara do próprio. De um gaúcho discreto, de fala baixa, riso breve e fácil comunicação com o público, como ficou provado naquela noite de invierno, quando nos disse que acreditava, acima de tudo, na trilogia tão batida da verdade, da bondade e da beleza. Durante um dos debates que promovemos, um estudante lhe fez uma pergunta, não me lembro da pergunta, mas me lembro da sua resposta: “sou apenas um contador de histórias”.

 

Fiquei meio chocada: estava no começo da carreira e minha autoconfiança e meu orgulho não aceitavam esse tipo de confissão. Um simples contador de histórias?

 

A um entrevistador que lhe fazia perguntas agudíssimas William Faulkner respondeu de repente; “Sou fazendeiro, moço”. O entrevistador um crítico formado em Harvard, ficou histérico: “Escritor, diga escritor!” Então ele sorriu e se levantou para ir embora: “Sou fazendeiro”. Mas nessa época eu ainda não tinha lido essa entrevista, que poderia ter me impressionado. Nessa época, eu ainda tateava no ofício: tamanho despojamento não fazia mesmo sentido diante da minha ambição.

 

É difícil encontrar uma criatura tão coerente no seu comportamento de absoluta fidelidade a si próprio e aos outros, aqueles nos quais você acreditou. Sua gente. Seus amigos. Sua música. Seus livros — ah, com que amor você se devotou ao seu doce mundo. Já naquele distante 1943 você parecia saber que o importante é cuidar da rosa do nosso jardim. Sem, contudo, se ausentar sem se omitir. E em algum momento você ficou indiferente aos problemas do nosso povo? Ao sofrimento desse povo? Aí estão os seus livros, através dos quais você se manifesta, participa deste tempo e deste vento. Sua voz transparece na boca das personagens, centenas de personagens falando alto da sela de um cavalo, da poltrona de uma sala governamental, de um coreto. Falando baixo do catre de uma prisão, que nas prisões se fala em baixo tom. A injustiça — eis o que mais fundamente parece tocá-lo —, a injustiça e todo o seu leque maldito, que vai da servidão à tortura.

 

A escritora considera-se arrebatada e diz ter dificuldade para calcular as consequências de seus atos. Isso se dá, conforme ela declara,

 

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