O ordinário do cotidiano
Por Cristina Fontenele
Quem repara no ordinário do cotidiano? Nos diálogos em fila de supermercado, no
guardanapo voando da mesa, em quanta gente usa ecobag, no estranho que lança um “bom dia”
ao cruzar com alguém pelo caminho, no rapaz puxado pelo próprio cão? Onde tudo isso fica
registrado? Talvez na memória de quem o viveu ou no inconsciente de algum observador. Para
o escritor, o rotineiro torna-se material de trabalho.
Por esses dias, participei de uma conversa mediada por um historiador junto a dois
escritores brasileiros. Falamos sobre a poética do cotidiano para além do Atlântico e como essas
percepções transformam-se em crônicas. Esse justo espaço que temos aqui tratando do breve e
vulgar da vida comum.
Refletimos sobre a familiaridade e o estranhamento de alguém que está deslocado de seu
território e contempla a cidade com ressalva e interesse. Um olhar imigrante que escreve sobre
o diverso jeito de estar no mundo. E que, mesmo quando se acostuma com as ruas, com as
pessoas, renova o senso de encantamento para continuar enxergando o simples. A curiosidade
do cronista é uma lupa que extrai da miudeza, do detalhe, a inspiração para palavras que podem
chegar não se sabe onde nem a quem. Mas quando conectam, suspendem o instante.
Cruzamos nossas vivências de Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Lisboa e Porto para
contar o que nossos sentidos percebem como casa, pertencimento e rejeição. Um dos escritores
relatou a frase que ouviu de um desconhecido no metrô, logo no primeiro deslocamento lisboeta:
“Brasileiros, deviam morrer todos”. Entre susto e questionamento, decidiu que a declaração não
definiria seus dias de viagem tampouco generalizaria um povo.
Já o mediador da mesa partilhou o preconceito que experimentou há alguns anos enquanto
recifense participando de um evento sobre História Política no Rio de Janeiro. Na conversa,
emergiram as conhecidas fricções entre Nordeste/Sudeste brasileiros, somaram-se também o
São João do Cariri e do Porto, as periferias cariocas e lisboetas numa linguagem que abordou o
paradoxo das interações.
O renomado geógrafo brasileiro Milton Santos foi citado no debate para lembrar que o lugar
vai muito além do espaço geográfico. É nele onde o ser humano estabelece suas relações e a
dinâmica da vida, a cooperação e o conflito, além de um cotidiano compartido. O lugar implica
as experiências que o sujeito irá acessar ou não ao longo da sua existência. Repercute também
no ”lugar de fala”, conceito tão difundido pela escritora Djamila Ribeiro.
De onde partimos quando falamos? Quais privilégios ou faltas moldam nossas percepções?
Conversamos ainda sobre os possíveis impactos que um texto promove. Sendo o cronista
uma espécie de testemunha vigilante que aponta obviedades: a folha em formato de coração na
beira da calçada, o tipo de lixo descartado por cada um, o desejo pelas comidas da terra. Ou a
redução de abraços desde quando alguém migra, como bem destacou a escritora brasileira
integrante da prosa.
A crônica não se propõe a dar lição de moral, mas não resulta em um texto alienado, embora
tenha “a seriedade das coisas sem etiqueta”, na definição do escritor Ferreira Gullar. É um gênero
que sabe sobre a Copa do Mundo, a onda de calor pela Europa, o endividamento pelos jogos de
aposta, a demissão do primeiro-ministro britânico. Ainda assim, o cronista escolhe também
perguntar se alguém adota o domingo como aquele tempinho para fazer só o que der vontade,
repetir o café da manhã vezes sem conta e se maravilhar com a foto de uma flor enviada por
um amigo numa viagem ao Peru.
(Disponível em: https://dnbrasil.dn.pt/opini%C3%A3o-dn-brasil/o-ordinrio-do-cotidiano – texto adaptado especialmente para esta prova).