Leia o texto a seguir, trecho de uma entrevista concedida pelo linguista Mario Perini a uma revista especializada da área
de Linguística. Ele servirá de base para a questão.
Qual a relação entre língua, linguagem e sociedade?
Posso começar dizendo que a relação entre língua e linguagem é que uma “língua” é uma das maneiras como se manifesta
exteriormente a capacidade humana a que chamamos “linguagem”. Mas o termo linguagem é também aplicado a outros
tipos de sistemas de comunicação, que normalmente não são chamados línguas, como o sistema de sinais de trânsito e a
linguagem das abelhas. Assim, linguagem é um conceito muito mais amplo do que língua: a linguagem inclui as línguas
entre suas manifestações, mas não apenas as línguas.
Agora, dito isso, podemos afirmar que as relações entre a linguagem (em geral sob a forma das línguas) e a sociedade
humana são muitas e muito importantes. Primeiro, observemos que qualquer sociedade minimamente complexa só pode
funcionar, e mesmo surgir, através do uso intensivo da linguagem. A sociedade funciona através da cooperação e/ou
conflito entre os homens, e a linguagem medeia esses processos de maneira crucial.
A língua falada por um povo é parte da imagem que esse povo tem de si mesmo, em certos casos ainda mais significativa
do que as unidades políticas em que o povo se organiza. Assim, embora a Alemanha e a Itália só se tenham unificado como
nações nos meados do século XIX, havia muitos séculos já que os falantes das respectivas línguas se consideravam
“alemães” e “italianos”. Pode-se mencionar também fatos atuais como a atitude dos catalães e dos bascos, que insistem em
ser diferentes dos demais espanhóis, em grande parte por falarem outra língua. Vemos aí uma tendência a fazer coincidir as
fronteiras linguísticas com as fronteiras nacionais. Isso nem sempre acontece, como se pode ver pela persistência das
fronteiras entre os países hispano-americanos, mas mesmo assim um mexicano se sente culturalmente mais próximo de um
espanhol ou de um uruguaio do que de seus vizinhos americanos falantes de inglês. A língua é, sintomaticamente, um dos
instrumentos mais importantes na mão de governantes que, para bem ou para mal, procuram enfatizar a unidade de um
povo ou de uma nação.
PERINI, Mário A. Sobre língua, linguagem e Linguística: uma entrevista com Mário A. Perini. ReVEL. Vol. 8, n. 14, 2010. Disponível
em: https://www.revel.inf.br/files/entrevistas/revel_14_entrevista_perini.pdf. Acesso em: 12 dez. 2025.
Em uma aula sobre variação linguística, um professor solicita que os alunos relatem situações do cotidiano em que ouviram diferentes maneiras de falar português. Durante os relatos orais, surgem exemplos de variação regional e social, que são discutidos coletivamente. O professor evita classificar as falas como “certas” ou “erradas” e orienta os alunos a refletirem sobre os contextos em que cada forma é utilizada.
Nessa situação, o professor mostra que concebe a língua como prática social historicamente situada, e seu trabalho com a oralidade, a partir dessa concepção, contribui para que os alunos