Magna Concursos
4128690 Ano: 2023
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: VUNESP
Orgão: PPS

Leia o texto para responder à questão.

 

Era um leilão de escravos. Na fileira dos infelizes que estavam ali de mistura com os móveis, havia uma pobre criancinha abrindo olhos espantados e ignorantes para todos. Todos foram atraídos pela tenra idade e triste singeleza da pequena. Entre outros, notei um indivíduo que, mais curioso que compadecido, conjeturava a meia voz o preço por que se venderia aquele semovente.

 

Travamos conversa e fizemos conhecimento; quando ele soube que eu manejava a enxadinha com que agora revolvo estas terras do folhetim [da crônica], deixou escapar dos lábios uma exclamação:

 

— Ah!

 

Estava longe de conhecer o que havia neste — Ah! — tão misterioso e tão significativo.

 

Minutos depois começou o pregão da pequena. O meu indivíduo cobria os lanços, com incrível desespero, a ponto de pôr fora de combate todos os pretendentes, exceto um que lutou ainda por algum tempo, mas que afinal teve de ceder.

 

O preço definitivo da desgraçadinha era fabuloso. Só o amor à humanidade podia explicar aquela luta da parte do meu novo conhecimento; não perdi de vista o comprador, convencido de que iria disfarçadamente ao leiloeiro dizer-lhe que a quantia lançada era aplicada à liberdade da infeliz. Pus-me à espreita da virtude.

 

O comprador não me desiludiu, porque, apenas começava a espreitá-lo, ouvi-lhe dizer alto e bom som:

 

— É para a liberdade!

 

O último combatente do leilão foi ao filantropo, apertou- lhe as mãos e disse-lhe:

 

— Eu tinha a mesma intenção.

 

O filantropo voltou-se para mim e pronunciou baixinho as seguintes palavras, acompanhadas de um sorriso:

 

— Não vá agora dizer lá na folha que eu pratiquei este ato de caridade.

 

Satisfiz religiosamente o dito do filantropo, mas nem assim me furtei à honra de ver o caso publicado e comentado nos outros jornais.

 

(Machado de Assis. Ao Acaso. Obra Completa. Rio de Janeiro:

Edições W. M. Jackson,1937, vol 21, p 67-69. Texto originalmente publicado

no Diário do Rio de Janeiro, em 25 de julho de 1864)

 

* Semovente – ser que se move por si próprio ou anda.

* Folhetim – publicação seriada (ficção, critica ou crônica)

* Pregão – em um leilão, ajuste do preço final por meio de lances.

* Filantropo – aquele que age em favor de seu semelhante por amor a humanidade.

 

A ironia que permeia a crônica machadiana acaba por evidenciar

 

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