Leia o texto para responder à questão.
Histórias de verão: O quinto túnel
Três homens num compartimento de um trem que atravessa uma região montanhosa. Eles não se conhecem. Estão em silêncio desde que o trem saiu da estação. Um lê um jornal, outro olha pela janela, e outro parece dormir. Quando o trem entra num túnel e tudo fica escuro, ouve-se uma voz que diz:
— Estou aqui para matá-lo.
O trem sai do túnel. Os três continuam como antes. Um olhando pela janela, o outro lendo um jornal, o terceiro de olho fechado. O trem entra em outro túnel. Ouve-se outra voz.
— Por quê?
Silêncio. Depois:
— Você sabe.
O trem sai do túnel. Os três não se mexeram. O trem entra em outro túnel.
— Quando?
— No quinto túnel.
— Este túnel qual é, o terceiro?
— Você devia ter contado.
O trem sai do túnel. Os três homens na mesma posição. O homem que lê o jornal vira uma página. O trem entra em outro túnel. Ouvese um estampido.
Quando o trem sai, o homem que olhava pela janela está com uma pistola fumegante na mão, o jornal está com um buraco no meio e o homem que lia o jornal está morto. E o homem que dormia está de olhos arregalados.
— O que foi isso?
— Ele ia me matar. Eu o matei primeiro.
— Como você sabia que ele ia matá-lo?
— Ele disse, você não ouviu?
— Eu estava dormindo. Não ouvi nada. Acordei com o tiro.
— Ele ia me matar no próximo túnel, mas eu agi antes. Foi legítima defesa. Ele disse que ia me matar.
— Só se fosse com este charuto — diz o homem que dormia, depois de examinar os bolsos do morto. — É a única coisa remotamente letal que ele carregava.
— Ele podia me estrangular, sei lá. Mas eu o enganei e atirei um túnel antes. A vítima enganou o assassino.
— Ou pode ter sido o contrário. O assassino enganou a vítima?
— Como?
— Você disse que ia matá-lo no quinto túnel, mas matou no quarto, antes que ele tivesse tempo de reagir ou fugir.
O trem entra no quinto túnel e tudo fica escuro. Ouve-se uma voz.
— Como você sabia que o túnel anterior era o quarto e este é o quinto, se estava dormindo?
Silêncio. Depois ouve-se um estampido.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
Analise as sentenças a seguir, retiradas do texto:
I. Os três não se mexeram.
II. Eu o matei primeiro.
III. Ele ia me matar no próximo túnel, mas eu agi antes.
Em todas as sentenças dadas, o pronome pessoal oblíquo ocorre em posição de próclise. A(s) sentença(s) que apresenta(m) condições que permitiriam também a ênclise é (são):