Para responder às questões 01 a 07, leia o texto abaixo.
De qual natureza falamos?
1 A representação corriqueira que temos da natureza
2 é de uma luta de todos contra todos, quem se descuida
3 vira almoço de outro. Natureza seria selva, valeria a lei
4 do mais forte.
5 Os documentários sobre a vida selvagem sublinham
6 essa tese. O que mais vemos são os animais mais
7 fortes predando os mais fracos. Estranhamente, não
8 mostram a associação dos mais fracos para intimidar e
9 repelir os mais fortes. Embora o mobbing — termo em
10 etologia para esse comportamento antipredador —,
11 seja comum, raramente é mostrado.
12 Esse pensamento de hierarquia de domínio é tão
13 forte, que quando os biólogos entenderam o que é um
14 liquen, a associação de uma alga com um fungo,
15 imaginaram um fungo parasitando uma alga. Foi no
16 estudo dos liquens que surgiu o conceito de simbiose
17 — que quer dizer viver junto. Mais tarde, surgiu o
18 conceito de mutualsmo, uma simbiose sem
19 parasitismo, onde todos ganham.
20 Nunca subestimem os liquens, eles recobrem 8% da
21 superfície do planeta. Geralmente estão sobre rochas,
22 não só como suporte, eles se alimentam delas também.
23 Parte da porção de minerais necessários, que estão em
24 nosso corpo, um dia foi líquen. Eles arrancaram esses
25 minerais da pedra.
26 Um liquen é um microcosmo de seres díspares, que
27 se separam há milhões de anos na árvore da vida, mas
28 depois convergiram cooperando para seguirem vivos.
29 A partir deles não dá mais para entender a natureza
30 apenas como competição e conflito. O desconcerto
31 com essa forma de vida seguiu, existem mais formas
32 de vida associadas na composição, como leveduras,
33 cianobactérias, bactérias que executam uma função
34 especializadas dentro de uma arquitetura de
35 “condomínio”.
36 Isso está mais perto de nós do que imaginamos. A
37 ciência tem descoberto como o arranjo das trilhões de
38 bactérias que habitam nossa microbiota intestinal é
39 essencial para a vida humana. Uma infecção é uma
40 bactéria no lugar errado, pois somos envoltos pela
41 microvida em equilíbrio na mucosa e na pele.
42 A natureza, como todos contra todos, é apenas uma
43 parte da verdade. A insistência em conceber a natureza
44 apenas como conflito é uma projeção das relações
45 predadoras humanas. Espelhamos na natureza o
46 faroeste social que criamos entre nós.
Autor: Mário Corso — GZH (adaptado)
No texto, o autor contrapõe a concepção hegemônica da natureza — pautada pela lógica do conflito e da supremacia — a uma perspectiva alternativa, sustentada por evidências biológicas de cooperação e coexistência simbiótica. Considerando o percurso argumentativo do autor, analise as assertivas a seguir:
I. O comportamento denominado mobbing, embora recorrente em contextos etológicos, é preterido nas representações documentais da vida animal, o que contribui para a perpetuação de uma narrativa centrada na competição e na hierarquia de forças.
Il. O autor descreve os liquens como organismos rudimentares e ecologicamente periféricos, cuja função se limita à erosão física de superfícies rochosas.
III. A insistência em interpretar a natureza sob a ótica do embate continuo revela uma projeção antropocêntrica, na qual se espelham os valores de dominação e individualismo próprios das sociedades humanas contemporâneas.
Das assertivas, pode-se afirmar que: