Atenção: Para responder à questão, considere o trecho de um ensaio do filósofo Michel de Montaigne.
A maneira mais comum de amolecer o coração dos que nos ofendem, quando, vingança em mãos, eles nos têm à sua mercê, é comovê-los pela nossa submissão, inspirando-lhes comiseração e piedade.
Eduardo, príncipe de Gales, tendo-se apoderado pela força de Limoges, ordenara o massacre dos habitantes que o haviam gravemente ofendido. Caminhava ele pela cidade sem que os gritos dos homens, mulheres e crianças assim condenados à morte lhe amolecessem a alma, quando deparou com três fidalgos franceses que, sozinhos, e com incrível ousadia, enfrentavam o exército vitorioso.
Skanderberg, príncipe do Épiro, perseguia um de seus soldados com a intenção de matá-lo. Este, depois de ter tentado em vão acalmá-lo com protestos de toda espécie e as mais humildes súplicas, resolveu, em desespero de causa, esperá-lo de espada na mão. O gesto resoluto freou instantaneamente a exasperação do senhor, o qual, ao ver tão honrosa atitude, outorgou perdão ao perseguido.
O imperador Conrado III, assediando o duque da Baviera, não consentira em deixar sair da cidade senão as mulheres dos fidalgos que ali se encontravam.
Ambos os meios dariam resultado comigo, pois tenho grande propensão para a misericórdia e a benevolência. Entretanto, acho que cederia mais facilmente pela compaixão do que pela admiração, embora a piedade seja considerada paixão condenável pelos estoicos, os quais admitem que socorramos os aflitos mas não que nos enterneçamos ante o sofrimento ou dele nos compadeçamos. Os exemplos que precedem parecem-me mais apropriados. Mostram-nos a alma em luta com estes dois sentimentos contrários: resistir a um sem dobrar e ceder ao outro.
Em seu ensaio, Montaigne dirige-se explicitamente a seus leitores no seguinte trecho: