TEXTO
PAÍSES POBRES DEVEM APOSTAR EM
CARBONO OU RENOVÁVEIS?
Moçambique está numa encruzilhada. Na
costa norte, projetos de gás offshore avaliados em
bilhões de dólares podem trazer receitas
significativas. Ao mesmo tempo, o país é uma
potência hidrelétrica e tem enorme potencial
inexplorado nas energias solar e eólica. “Esses casos
são interessantes porque ainda não há custos
irrecuperáveis. É possível seguir em diferentes
direções”, diz o especialista Philipp Trotter, professor
de gestão de sustentabilidade na Universidade de
Wuppertal, na Alemanha.
À medida que aumenta a pressão global pela
drástica redução das emissões de gases de efeito
estufa, o caso moçambicano reflete o dilema em
muitos países pobres: eles precisam queimar
combustíveis fósseis para prosperar economicamente
ou podem saltar diretamente para a energia limpa?
Por décadas, as nações ricas e industrializadas
construíram sua riqueza queimando carvão, petróleo
e gás, produzindo uma parcela desproporcional das
emissões globais de gases de efeito estufa.
Historicamente, Estados Unidos, União
Europeia e China são os maiores poluidores do
mundo, segundo o Orçamento Global de Carbono
(Global Carbon Budget, no original em inglês),
relatório anual liderado pela Universidade de Exeter,
no Reino Unido, sobre as tendências nas emissões
globais de carbono.
Muitos líderes do setor energético na África e
na Ásia argumentam que é injusto negar às economias
em desenvolvimento de hoje a mesma rota para o
crescimento. Mas, com as emissões de gases de efeito
estufa em níveis recordes e o aquecimento do planeta
em aceleração, cientistas do clima alertam que o
planeta já não dispõe de um orçamento de carbono
que permita a todos seguir esse caminho.
Há poucas pesquisas científicas, porém, sobre
qual caminho seria mais vantajoso para países diante
dessa encruzilhada, como Moçambique, Senegal ou
Mauritânia. “Do ponto de vista moral, faz todo
sentido que, se alguém pode usar combustíveis
fósseis, então que sejam os países mais pobres”, aponta Trotter. “O problema desse argumento é que
ele ignora o lado econômico.”
Permanece incerto se o gás ainda será
competitivo nos mercados internacionais quando ele
for produzido, daqui a vários anos. Afinal, grandes
economias pretendem reduzir drasticamente suas
emissões até 2050, e analistas preveem que o pico na
demanda por gás, carvão e petróleo poderá ser
atingido na atual década. “Então, você está investindo
muito dinheiro sem uma vantagem competitiva
dentro de um mercado que está encolhendo”,
prossegue Trotter. “Pode dar certo, mas há um risco
extremo.”
No papel, a economia das fontes de energia
renovável mudou decisivamente. Mais de 90% dos
novos projetos de energia limpa no mundo produzem
eletricidade a um custo menor do que novas usinas de
combustíveis fósseis, segundo a Agência
Internacional para as Energias Renováveis (Irena).
Mas baixos custos operacionais não são tudo.
Construir esses sistemas verdes ainda requer um
investimento inicial pesado em parques eólicos e
solares, redes de transmissão, armazenamento e mais.
Esses custos são, não raro, mais difíceis de absorver
para países mais pobres.
No Quênia, a aposta deu certo. O país gera
quase 90% da sua eletricidade a partir de fontes
renováveis, principalmente de energia geotérmica,
hidrelétrica e eólica. E pretende chegar a 100%, com
acesso universal, até 2030. “O Quênia tem abundante
energia geotérmica, que é como um ovo de ouro”,
explica a especialista queniana em energia Rose M.
Mutiso. “Mas, obviamente, o país se esforçou para
desenvolver esses recursos ao longo do tempo.”
O governo queniano começou a investir
pesado nesse “ovo de ouro” nos anos 1990 e início
dos 2000, depois que secas expuseram os riscos de
depender demais da hidreletricidade. Por meio da sua
empresa estatal, o país usou dinheiro público e
empréstimos de bancos de desenvolvimento para
cobrir as etapas iniciais e arriscadas de exploração do
calor subterrâneo, antes que investidores privados
entrassem. “Essa não acontece da noite para o dia. É
um processo longo e sustentado”, acrescenta Mutiso.
Mas partes desse modelo podem ser difíceis
de serem replicados por países como Moçambique ou
Senegal. Altamente endividados e com classificações
de crédito mais baixas que as do Quênia, eles podem ter mais dificuldade para obter empréstimos ou atrair
investimentos.
Não existe uma solução única para todas as
transições energéticas. Pesquisadores já constataram
que o caminho que um país pode seguir depende de
vários fatores: como os combustíveis fósseis estão
integrados à sua economia, se eles são usados
sobretudo internamente ou exportados e quão
diversificada já é a economia. Isso mostra por que faz
pouco sentido comparar a Etiópia, por exemplo, que
se eletrificou em grande parte por meio de
hidreletricidade barata graças aos seus recursos
fluviais, com a Índia, que depende do carvão para a
maior parte de sua eletricidade e emprega milhões de
pessoas nessa cadeia.
No caso indiano, a queda nos preços da
energia eólica e solar ajudou a impulsionar um
programa ambicioso de energias renováveis. O país
ocupa hoje a quarta posição mundial em capacidade
instalada de energia limpa. Mas o carvão ainda
responde por mais de 70% da geração elétrica.
Proporcionalmente à população, o setor emprega
poucas pessoas em nível nacional, mas continua
sendo a única atividade econômica em algumas
regiões. Ao mesmo tempo, a demanda por energia
cresce rapidamente, à medida que a indústria se
expande e os padrões de vida aumentam.
A dupla missão de executar uma transição
verde e justa e atender a um crescente consumo de
eletricidade “não é fácil num cronograma acelerado”,
afirma Rahul Tongia, pesquisador sênior do Centro
para Progresso Social e Econômico. Embora os países
mais pobres enfrentem realidades muito diferentes
entre si, há algumas rotas claras pelas quais as nações
mais ricas poderiam apoiá-los para acelerar a
mudança para a energia renovável. No topo da lista
está enfrentar o alto custo inicial.
“Os países desenvolvidos e os grandes
emissores precisam manter o acelerador pressionado
porque o desenvolvimento e implementação de novas
tecnologias por eles reduz os custos para os países
mais pobres”, prossegue Tongia. “Então eles que
paguem o custo inicial mais alto das novas
tecnologias.”
Países pobres e especialistas em clima
também argumentam há muito tempo que é
necessário muito mais financiamento climático
público para destravar investimentos privados. Sem
garantias e compartilhamento de riscos, muitos
projetos de energia limpa continuam arriscados
demais na avaliação dos bancos.
“É preciso tornar o capital acessível, mas
também oferecer garantias que reduzam o risco
percebido”, diz Trotter. “É aí que os países
desenvolvidos podem agir”. Em 2024, durante a
conferência climática da ONU, a COP 29, os
governos concordaram com uma nova meta de
financiamento climático de pelo menos 300 bilhões
de dólares por ano até 2035. Muitos países em
desenvolvimento dizem que o valor ainda é
insuficiente.
Já na COP30, que aconteceu em Belém em
2025, o Brasil defendeu, enquanto ocupava a
presidência da conferência da ONU, um plano
estratégico para elevar o montante a 1,3 trilhão de
dólares. Para Moçambique, essa diferença pode ser
decisiva. O caminho a ser seguido – as promessas do
gás ou a aposta no sol e no vento – poderá depender
dos investimentos dos países ricos num futuro mais
limpo.
Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/países-pobres-devem-apostar-em-carbono-ou-energias-renováveis/a75406332>. Adaptado. Acesso em: 27 de março de 2026.
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