Você está dialogando com a juventude?
A eleição de 2022 correu o risco de ser aquela com a menor participação jovem desde a redemocratização. Começamos o ano com apenas 12% dos adolescentes entre 16 e 17 anos com título de eleitor, fração muito abaixo de eleições anteriores. Mas não se enganem: não estamos desinteressados na política. Como duas jovens orgulhosamente assinando este artigo, trazemos um spoiler: não somos o futuro, já estamos fazendo história.
O preconceito sobre o desinteresse do jovem na política poderia ser motivado pela falta de diálogo intergeracional e pela afirmação constante de uma narrativa dual sobre a juventude. Ou o jovem é uma exceção extraordinária — uma Malala Yousafzai, uma Greta Thunberg, uma Alice Pataxó —, ou um viciado em redes sociais sem nenhum envolvimento comunitário. A realidade, como sempre, é muito mais cheia de nuances. Somos diversos e assim queremos ser vistos e representados. Como ressignificar essa ideia de jovem que habita o imaginário das outras gerações e assegurar apoio para nossa formação e participação políticas?
Nós já estamos na política e queremos mais. Percebemos a curiosidade do jovem em entender esse mundo nebuloso da política. Porém, essa chama só se transforma em interesse quando as pautas dialogam com a gente. Em outras palavras, não faz sentido querermos que os jovens participem das eleições sem nos esforçarmos para criar mensagens com formatos e linguagens que nos acessem. O que falta para a juventude não é interesse, é espaço de protagonismo e apoio.
Esse é o poder de um chamado horizontal, menos interessado em dar uma bronca em um suposto encostado e mais comprometido com um diálogo verdadeiro com o jovem que já está mudando o mundo — e que, sim, adora um meme, joga videogame e é viciado em séries. Começamos 2022 com o menor número de jovens aptos a votar da história e vimos um crescimento de quase 45% no mês de março, algo que se destaca na comparação com outros anos.
Agora, imagine um país em que apenas os jovens votassem? Temos alguns palpites: maior representatividade de mulheres no Congresso, parlamentares com agendas sólidas com relação às mudanças climáticas e de proteção da Amazônia, projetos que preveem maior investimento na educação pública. Não é utopia, é a realidade tal qual sonhada por jovens que estarão aí para construir pelos próximos 50, 70 anos. Muitos de nós já começaram. Vamos conquistar os que faltam? Vamos fazer deles parte desse futuro mais sustentável e menos desigual?
BRANCO, Helena; SOUSA, Rebeca. Folha de São Paulo, 03/05/2022. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao /2022/05/voce-esta- dialogando-com-ajuventude. shtml. Acesso em: 30 out. 2024. Adaptado.
A palavra “spoiler”, presente no primeiro parágrafo, tem origem na língua inglesa, atuando como um estrangeirismo no português. Sua principal função, no parágrafo de introdução desse artigo de opinião, é: