No amor, na política, no esporte – em suma, na vida – podemos escolher entre dois estilos de interpretação. O primeiro é o estilo paranoico, que consiste em culpar Deus e o mundo, ou seja, os outros, por tudo o que acontece de errado.
O segundo é o estilo dito "autoatributivo", que consiste em procurar a causa de nossos percalços em nós mesmos. Para quem pratica o estilo paranoico, os autoatributivos são ingênuos, otários, ignaros das tramas obscuras que estariam sendo urdidas contra todos nós.
Aos olhos dos autoatributivos, os paranoicos, quando não são delirantes, são covardes: acusam os outros para evitar suas responsabilidades. Em geral, meu estilo preferido é o autoatributivo. Não gostei do que aconteceu? O que houve "em mim" que causou ou permitiu esse desfecho?
Enquanto isso, o praticante do estilo paranoico prefere o pronome da terceira pessoa do plural: foram "eles". "Eles" são os banqueiros de Londres e os deputados Fulanos, dizia Mário de Andrade, os corruptos, os políticos, a China que rouba nossos empregos, os americanos imperialistas, os transexuais que atrapalham a paz de nossos banheiros públicos, os intelectuais ou o povo que não sabe votar, tanto faz. "Eles" sempre são os outros, diferentes de nós.
Conselho básico entre parênteses: para educar uma criança ou um adolescente, é melhor renunciar ao estilo paranoico. "Os professores não gostam de mim", ou "a aula não estava clara", ou "não disseram direito sobre o que seria a prova" etc., nada disso interessa. O que importa é (versão autoatributiva) que você não estuda o suficiente. O estilo paranoico é infinitamente mais popular do que o autoatributivo.
CALLIGARIS, Contardo. Por que preferimos explicar o
mundo como se tudo fosse culpa dos outros? Disponível em: <http://m.folha.uol.com.br>. Acesso em: abr. 2017. Adaptado.
O articulista explica porque as pessoas justificam suas falhas culpando os outros. Considerando-se os elementos linguísticos que se articulam entre si, mantendo a coesão textual, é correto afirmar: