Leia o trecho a seguir, da crônica de Nelson Rodrigues, para responder à questão:
Ontem, presenciei uma cena que me pareceu, salvo engano, uma pequena, incisiva e inefável lição de vida. Eis o episódio: – estava eu na esquina de Carioca com Uruguaiana. Fecha o sinal. Os homens estacam para o surdo escoamento dos veículos. E, súbito, uma voz gaiata anuncia: – “
Vi a histeria dos outros e a minha própria. Todos se arremessaram: – senhoras honestíssimas, mestres do direito, psiquiatras, intelectuais, viúvas, mata-mosquitos. O medo é um grande e eficaz nivelador. Sob o estímulo da pusilanimidade, tubarões e pés-rapados largam a mesma baba, elástica e bovina. O pior de tudo foi o seguinte: – era rebate falso. Não havia rapa nenhum. Imediatamente as caras começaram a resplandecer, já lavadas do medo, numa cínica, numa deslavada euforia. O último a recuperar um pouco de harmonia interior foi um psicanalista célebre. Cobra tão caro, o homem, que o cliente tem que ser, no mínimo, um estabelecimento bancário para suportar-lhe os preços. E tinha náuseas de pavor homérico.
O autor afirma que o anúncio “Olha o rapa!” foi feito por uma voz “gaiata”. O emprego desse adjetivo justifica-se pelo fato de o anúncio