Magna Concursos
1362529 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: COTEC
Orgão: Pref. Itacarambi-MG
PODEMOS SER MAIS DIGNOS? PODEMOS
Dificilmente encontramos alguém, a não ser criança ou adolescente naquela fase de autorreferência compulsiva e natural, que esteja contente com a situação em geral. Que pense ou diga: “Está tudo bem, estamos tranquilos, o país cresce, o povo é razoavelmente bem tratado, nada a reclamar…”. Manifestações se agitam no Brasil. Pelos mais singulares motivos, ora surreais, ora convincentes, saímos às ruas, querendo ordem, progresso e paz, mas admitindo entre nós a violência e o crime, tudo organizado e financiado por alguém. Um partido, uma instituição, um grupo… alguém. Pois nada disso acontece aleatoriamente. Há sincronicidade, combinação, uma teia básica que controla tudo. O que, quem, como, de onde, não sabemos, pelo menos nós, pessoas comuns. Sentimos que algo está no ar, e não é amável, mas perigoso e sombrio.
Temos de achar um equilíbrio entre a indignação justa e essencial e o desejo de destruição e violência. A mim me impressionam centenas de pessoas descendo de um trem quebrado e andando pelos trilhos em busca do seu destino ou de uma condução. Às vezes jogam pedras e quebram vidros ou portas do trem, mas a maioria, mesmo reclamando, não demonstra indignação. Muitos, num meio sorriso resignado, dizem: “É ruim, mas é assim, que fazer?”. Ou, quando a enchente mais uma vez inundou a casa, matou a criança, destruiu os bens, e ninguém em alguns anos providenciou nada, comentam: “Com a ajuda de Deus, vou mais uma vez começar do zero”.
Manadas de seres humanos apinhados nos ônibus e trens, sem o menor conforto, pendurados naquelas alças, esfregados, amassados por tantos corpos humanos suados e exaustos, dia após dia, ano após ano, consumindo diariamente duas, quatro horas de seu tempo, sua saúde, sua vida, vão para o trabalho e voltam, em condição subumana, e fazem suas reclamações, às vezes com palavras duras e justas, mas acrescentam: “O que fazer? Por aqui é assim”. Os indignados, e mesmo os mansos, todos quereriam mudar; iriam mudar, se pudessem. Ou melhor: se soubessem o que fazer.!$ ^{(D)} !$ Não há autoridade a quem se queixar, pois o máximo que se recebe é a notícia de mais uma comissão, um projeto, empilhado sobre dezenas de outros que há muitos anos mofam em gavetas ou em pastas.!$ ^{(A)} !$
Podemos melhorar de vida? Podemos não ser caçados por bandidos como coelhos pelas ruas dia e noite, podemos viver em morros sem nos enfiarmos embaixo da cama nos frequentes tiroteios, podemos ter água para beber, cozinhar e tomar banho, e energia elétrica para o chuveiro, o ventilador, a luz da casa? Podemos uma porção de coisas melhores em nossa tumultuada vida? Podemos ser mais dignos e mais altivos? Podemos.
Não sabemos para que lado nos virar, onde procurar, a quem recorrer. Talvez a esperança seja não a destruição de ônibus, a quebradeira de lojas, a insensatez desatada, mas o gesto mais simples, breve, pequeno, porém transformador, desde que a gente saiba o que está fazendo, o que deve fazer: o “voto”. Porém uma imensa maioria de nós, embora adulta, nem sabe ler. Outra boa parte da população, se sabe ler, não tem energia, interesse, tempo, instrução suficiente para se dedicar a esses assuntos, se informar, debater e descobrir algum nome a quem confiar esse voto.!$ ^{(C)} !$
De modo que, levados pelas corredeiras eleitorais já deslanchadas, provavelmente muitos — que cedo se arrependerão, pois ignoravam a força de seu ato!$ ^{(B)} !$ —, por desalento, votem em nomes que não conhecem, que não levam a sério, de que não ouviram falar ou que chegam montados em promessas impossíveis e falações vãs. Então, por estarmos tão cansados, suados, desanimados ou zangados, mas sem lucidez, eles vão receber, na hora da eleição, o apoio de quem parou um instante no posto da ilusão e digitou um número, um nome, uma sigla, um destino seu, que não acabará significando nada.
(LUFT, Lya, Podemos ser mais dignos? Podemos. Revista Veja. p. 26, 8 de março de 2014.)
Assinale a alternativa em que NÃO se verifica o uso da palavra “se” como pronome oblíquo átono.
 

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