O nascimento da ética do político
Em milênios de filosofia, só dois filósofos quebraram
as fronteiras da academia para que seus nomes gerassem
adjetivos conhecidos de todos, até de quem não sabe quem eles
foram: Platão e Maquiavel. Todos ouvimos falar em amor
platônico ou em pessoas maquiavélicas. Não interessa que
os especialistas se irritem porque Maquiavel não foi
maquiavélico; o fato é que ele, como Platão, deixou uma marca
no imaginário social.
O Príncipe, que, em breve, completará 500 anos, tem
características notáveis. Primeira: é livro facílimo de ler.
Segunda: apesar disso, não há acordo sobre o que quer dizer.
Nós o lemos com facilidade e não temos certeza do que ele
pretende. Talvez porque, terceira característica, pareça
contradizer o resto da vida e obra do autor.
Maquiavel foi um dos chefes da república de Florença,
passou anos escrevendo uma grande obra republicana —
Discursos —, mas somente se tornou um dos maiores
pensadores da história devido a um livro curto que redigiu em
poucas semanas, quando estava banido da cidade, com o fim de
agradar aos novos senhores de uma Florença monárquica. Por
isso nos perguntamos o que é O Príncipe: é um livro de
apologia à monarquia ou uma sátira cáustica? Sustenta que os
fins justificam os meios ou mostra a essência da política?
Contradiz o político e pensador republicano ou nutre, com ele,
uma secreta harmonia?
Renato Janine Ribeiro. In: O Estado de S.Paulo, 7/8/2010. Internet: www.estadao.com.br (com adaptações).