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"Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos
ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da
cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de
crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo
na igreja e camarote de luxo reservado no céu.
[...]
A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora
senhora de escravos - e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e zera ao regime novo - essa
indecência de negro igual.
(Lobato, M. Negrinha. In: Moricone, I. Os cem melhores contos brasileiros do século.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p. 78 (adaptado)