Magna Concursos
1550103 Ano: 2019
Disciplina: Português
Banca: GANZAROLI
Orgão: Pref. Amaralina-GO

NOSSOS DIAS MELHORES NUNCA VIRÃO? (Arnaldo Jabor)


Ando em crise, numa boa, nada de grave. Mas, ando em crise com o tempo. Que estranho "presente" é este que vivemoshoje, correndo sempre por nada, como se o tempo tivesse ficado mais rápido do que a vida, como se nossos músculos, ossose sangue estivessem correndo atrás de um tempo mais rápido.


As utopias liberais do século 20 diziam que teríamos mais ócio, mais paz com a tecnologia. Acontece que a tecnologia nãoestá aí para distribuir sossego, mas para incrementar competição e produtividade, não só das empresas, mas a produtividadedos humanos, dos corpos. Tudo sugere velocidade, urgência, nossa vida está sempre aquém de alguma tarefa. A tecnologianos enfiou uma lógica produtiva de fábricas, fábricas vivas, chips, pílulas para tudo.


Funcionar é preciso; viver não é preciso. Por que tudo tão rápido? Para chegar aonde?, para gozar sem parar? Mas gozarcomo? Nossa vida é uma ejaculação precoce. Estamos todos gozando sem fruição, um gozo sem prazer, quantitativo. Antes, tínhamos passado e futuro; agora, tudo é um "enorme presente", na expressão de Norman Mailer. E este "enorme presente"nos faz boiar num tempo parado, mas incessante, num futuro que "não para de não chegar". Antes, tínhamos os velhos filmesem preto-e-branco, fora de foco, as fotos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era precário e o futuroseria luminoso. Nada. Nunca estaremos no futuro. E, sem o sentido da passagem dos dias, de começo e fim, ficamostambém sem presente. Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa, ecada vez mais nossa identidade vai sendo programada. O tempo é uma invenção da produção. Não há tempo para os bichos. Se quisermos manhã, dia e noite, temos de ir morar no mato.


(...) outro dia, fui atrás de velhos filmes de 8mm que meu pai rodou há 50 anos também. Queria ver o meu passado, ver sehavia ali alguma chave que explicasse meu presente hoje, que denunciasse algo que perdi, ou que o Brasil perdeu... Emmeioàs imagens trêmulas, riscadas, fora de foco, vi a precariedade de minha pobre família de classe média, tentando exibir umafelicidade familiar que até existia, mas precária, constrangida; e eu ali, menino comprido feito um bambu no vento, jádenotando a insegurança que até hoje me alarma. Minha crise de identidade já estava traçada. E não eram imagens de umpassado bom que decaiu, como entre os índios. Era um presente atrasado, aquém de si mesmo.


E nós, hoje, nesta infernal transição entre o atraso e uma modernização que não chega nunca? Quando o Brasil vai crescer?Quando cairão afinal os "juros" da vida? Chego a ter inveja das multidões pobres do Islã: aboliram o tempo e vivemnaeternidade de seu atraso. Aqui, sem futuro, vivemos nessa ansiedade individualista medíocre, nesse narcisismo brega quenos assola na moda, no amor, nessa fome de aparecer para existir. Nosso atraso cria a utopia de que, um dia, chegaremosaalgo definitivo. Mas, ser subdesenvolvido não é "não ter futuro"; é nunca estar no presente.


Disponível em [adaptado]: https://www.pensador.com/cronicas_de_arnaldo_jabor/. Acesso em 29 de novembro de 2017.

A frase “ver se havia ali alguma chave que explicasse meu presente hoje” expressa um mecanismo de produção de sentido, identificado como:

 

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