O artista inconfessável
Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e difícilmente
se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.
MELO NETO, João Cabral de. O artista inconfessável. SECCHIN, Antônio Carlos
(Org). João Cabral de Mello Neto (seleções). São Paulo: Global Editora. Disponível em:
<http://culturanavegante.blogspot.com.br/2010/11/o-artista-inconfessavel-joao-cabral-de.
html.>. Acesso em: 29 ago. 2015.
Os versos de João Cabral de Melo Neto revelam um eu poético