Texto 1
A Kombi, se o leitor não sabe devo adverti-lo, pertence
à história pessoal de cada jornalista esportivo. Há dois
tipos de jornalistas: os que viajam e os que não viajam.
Os esportivos pertencem ao primeiro tipo. A Kombi já
define a viagem: ela será lenta, intestinal, suada, poeirenta e muito sonora. Imaginei que não haveria mais
Kombi na minha vida. A última eu mesmo a aluguei e saí
a dirigi-la como um rolador de tonel. Mas Campos fica a
quatro horas do rio e o Almir é um excelente motorista
de Kombi: acomodamos tudo atrás, sentamos um ao
lado do outro, bem-humorados, dispostos e ressequidos
por uma cerveja que tardava. E viajamos 30 minutos.
A Kombi andou de um lado para o outro, fomos para
o acostamento. Fazia quarenta graus, o sol estava em
cima, o pó embaixo do pneu furado. No borracheiro,
dois quilômetros adiante, se podia ver a câmara
enrugada, com duas bolas, saindo de dentro do pneu
novo. Bebemos a cerveja, mas foi preciso afastar com
a palma da mão o lençol de moscas que recobria o
balcão. O próximo pneu seria à noite, num lançante
da serra: desciam caminhões em banguela (em ponto
morto), lá estávamos nós, estômago na mão, no
acostamento da contramão que era o único existente.
Campos apareceu aos poucos, já de madrugada escondida entre canaviais e o cheiro forte da cana cortada e
deixada no chão apodrecendo. É um cheiro doce por
vezes, mas dolorosamente azedo quase sempre.
Ruy Carlos Ostermann, Correio do Povo, 08/11/1977