Magna Concursos
2262889 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: Pref. Piracicaba-SP

Cão reencontrado

Era muitas vezes com lágrimas nos olhos que se aprendia a dar valor à amizade, ao caráter e ao amor. Exemplos melodramáticos não faltavam e talvez por isso se tenham tornado marcantes.

Nunca pude me esquecer de um longo poema lido em aula pela professora, no segundo ano primário. Falava de um cão, feio mas dedicado, de que o dono procura se desfazer, afogando-o no mar. Lembro-me da forte emoção com que acompanhamos a leitura, e da minha atenção ao copiá-lo depois. Decorei-o inteiro, e declamava-o para os outros meninos, provavelmente quando havia por perto algum bolo de aniversário. Ao terminar a narrativa da tragédia de Veludo, havia olhos úmidos na pequena plateia. Esse era o nome do cão: Veludo. Magro, asqueroso, revoltante, imundo – dizia o poema.

Passaram-se os anos e deles restaram em minha memória os seis primeiros versos e uma lição de moral. Nem sabia quem era o autor. Então, numa conversa com um amigo amante de livros, ouvi dele a promessa: “Vou te mandar o poema”. Mandou mais do que isso: a cópia da folha de rosto do volume onde o poema, de Luiz Guimarães, aparecera na edição de 1886.

Começava assim: Eu tive um cão. Chamava-se Veludo: / Magro, asqueroso, revoltante, imundo; / Para dizer numa palavra tudo / Foi o mais feio cão que houve no mundo. (Alguém se lembra?) Recebi-o das mãos de um camarada / Na hora da partida. Exatamente aí terminavam as minhas lembranças.

Prossegue a história o narrador dizendo que o amigo tinha lágrimas nos olhos ao se separar do cão. E ao se despedir deseja que o cão console o novo dono.

Mas aquele cão incomodava o novo dono. Deu-o à mulher de um carvoeiro. Respirou aliviado por não ter mais de dar ossos diariamente ao animal. Porém à noite alguém bateu à porta: Era Veludo, que entrou lambendo as mãos do narrador e farejando a casa satisfeito.

Para se livrar do cão, resolveu jogá-lo ao mar. Longe da costa, dentro do barco, ergueu o cão nos braços e o atirou às ondas.

Doloroso que fosse, o narrador deixou-o lá, voltou à terra, entrou em casa e notou que havia perdido, na operação, o cordão de prata com o retrato da mãe, uma relíquia que prezava tanto. Concluiu, com rancor, que a culpa era do cão.

Nesse momento, ouviu uivos à porta. Era Veludo! (Arrepiado, leitor?) O cão arfava e, antes de morrer, entendeu-se a seus pés e deixou cair da boca a medalha suspensa na corrente.

Aprendíamos dramaticamente os valores da vida.

(Coleção Melhores CrônicasIvan Angelo. Seleção de Humberto Werneck. Adaptado)

Considere as frases elaboradas com base no texto.

  • Os seis primeiros versos e a lição de moral, o cronista sempre na lembrança.
  • O autor do poema e o livro onde o texto foi publicado, o cronista não .
  • Sobre o medalhão com o retrato da mãe, foi o novo dono que ao jogar Veludo ao mar.

De acordo com a norma-padrão de emprego e de colocação dos pronomes, as lacunas devem ser preenchidas, respectivamente, por:

 

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