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O homem de Neandertal tinha uma caixa craniana

maior do que __ nossa e, presumivelmente, um cérebro

mais desenvolvido. Mas não tinha uma linguagem.

Usava instrumentos de pedra, dominava o fogo, enter-

rava seus mortos e vivia em comunidades como as

nossas, talvez um pouco menos selvagens. Mas só se

comunicava com os outros com grunhidos e tapas no

ouvido. Pela aparência, estava mais bem preparado

para dominar o planeta do que nós. Além do crânio

enorme, tinha ombros maiores, mais músculos e ossos

mais fortes. Mas não falava, embora tivesse todo o

equipamento necessário.

Hoje, especula-se que era o cérebro que atrapalhava.

A gestação na mulher de Neandertal durava mais

tempo, o que significava que o cérebro já nascia pronto

e, em vez de ter a infância prolongada e protegida que

literalmente faz __ nossa cabeça, o guri de Neandertal

recebia seu tacape na saída do útero e já ia caçar.

Sabe-se que o embrião humano reproduz, no ventre,

toda a evolução da espécie, e tem um momento na

gestação em que nosso cérebro fica tão completo

quanto o do feto de Neandertal. Mas aí começa um

processo de depuração, de eliminação de células e

modificação de circuitos, que continua no período

pós-natal, e é esta adaptação que nos permite falar.

Ou seja, a linguagem é o produto de uma carência

programada do cérebro, o poder da fala uma compen-

sação pelos neurônios perdidos. O homem de Neandertal

era evoluído demais, tinha o cérebro tão acabado que

não precisava da linguagem, mas sem a linguagem foi

um fracasso social. Não durou nem oitenta mil anos, e

com aqueles ombros.

Foi a linguagem que permitiu ao modelo seguinte

dos pré-homens se organizar, conceitualizar e transmitir

informações – e mentir. Isto é, civilizar-se. Ou então –

se você prefere a tese de que a Natureza sabe o que

quer, e o próprio Darwin estava sendo usado como

despiste quando propôs que tudo era por acaso – o

objetivo da evolução era dar uma voz ao mundo. Dar

um nome __ coisas e uma retórica aos elementos,

que antes da linguagem rugiam de frustração com

a incapacidade da fala. Tudo na Natureza – os vulcões,

os vendavais, os terremotos e as bestas – seria uma

dificuldade de expressão.

Tentando e errando, tudo que a Natureza quer é

que falem por ela, que sejam o poeta que ela, por mais

que se esforce, não consegue ser. No fim é que será a

palavra. Nem que seja a palavra “Fim”.

Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias da vida pública. 266 crônicas datadas. Porto Alegre: L&PM, 1995.

O autor do texto atribui à linguagem algumas habilidades específicas. Assinale a alternativa que NÃO apresenta uma habilidade decorrente da capacidade linguística.
 

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