1733555
Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Cachoeirinha-RS
Disciplina: Português
Banca: Fundação La Salle
Orgão: Pref. Cachoeirinha-RS
Provas:
As questões de número 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.
Dona Ana
01 Até a última batida do coração do marido, dona Ana esteve ao lado.
02 Não foi fácil. Seu Antônio era educado e agradável no trato social, mas intempestivo, intolerante e
03 voluntarioso com a esposa e os dois filhos. Dava a impressão de que as interações com pessoas pouco
04 íntimas esgotavam na rua seu estoque de tolerância.
05 Aos sete anos, vendia de casa em casa os pastéis que a mãe viúva fritava, enquanto os cinco filhos
06 ainda dormiam. Aos quinze, veio sozinho para São Paulo com a obrigação de ganhar o sustento da família.
07 Dormiu três dias na rua, antes de conseguir emprego num depósito de ferro velho.
08 Quando ficou doente, aos sessenta e oito anos, tinha mais de duzentos empregados, duas fazendas e
09 uma imobiliária para administrar os imóveis de sua propriedade.
10 Dona Ana tinha três irmãs e um pai militar que proibia as filhas de chegar depois de escurecer e que só
11 permitia que ela saísse com o noivo aos domingos, desde que acompanhada pela irmã caçula, rotina
12 mantida até a semana anterior ao casamento.
13 Casada, aceitou sem rebeldia o autoritarismo do consorte. Deu ____ luz dois filhos criados com o rigor
14 do pai e a dedicação abnegada da mãe, num ambiente doméstico que beirava ____ esquizofrenia: alegre e
15 descontraído na presença dela, sisudo e silencioso à chegada do pai.
16 Quando nasceu o casal de netos, a avó os cobriu de carinho. Passava os dias de semana com eles
17 para que as noras pudessem trabalhar; nos fins de semana em que ficava sem vê-los, morria de saudades.
18 A doença do patriarca mudou a rotina. Com o marido em casa e os filhos ocupados na condução dos
19 negócios do pai, coube a ela cuidar e atender _____ solicitações do doente, que exigia sua presença dia e
20 noite e não aceitava um copo d'água das mãos de outra pessoa.
21 Nas fases finais, oito quilos mais magra, abatida e sonolenta, parecia mais debilitada do que o marido.
22 Viúva, fez questão de permanecer no mesmo apartamento, apesar da insistência dos filhos e das noras
23 para que fosse morar com eles.
24 Os familiares, __________ ando pediu que não deixassem mais os netos com ela. Acharam que a
25 perda do marido havia causado um trauma que lhe _______ a felicidade e a disposição para a lida com os
26 pequenos, suspeita que se agravou quando constataram que a mãe não os procurava. Nos fins de semana,
27 era inútil convidá-la para as refeições, ir ao cinema ou viajar com eles. Quando as crianças queriam vê-la,
28 os pais precisavam levá-las até ela.
29 Numa dessas ocasiões, filhos e noras tentaram ________ a procurar um psiquiatra, um medicamento
30 antidepressivo a livraria daquela tristeza solitária. A resposta foi surpreendente:
31 - Vocês acham que mulher deprimida sai de casa para comprar este vestido lindo que estou usando?
32 Além do que, explicou, não se sentia nem estava solitária: descobrira no Facebook
várias amigas dos
33 tempos de solteira, viúvas como ela. Reuniam-se a cada dois ou três dias para cozinhar, tomar vinho e dar
34 risada. s terças e às quintas, iam ao cinema; aos sábados, lotavam uma van que as levava ao teatro.
35 No carro, a caminho de casa, os filhos estavam desolados:
36 - Como pode? Essa alegria toda, três meses depois da morte do papai?
37 - Deve estar em processo de negação, acrescentou a nora mais nova.
38 Nos meses seguintes, voltaram a insistir tantas vezes no tratamento psiquiátrico, que ela os proibiu de
39 tocar no assunto, sob pena de não recebê-los mais.
40 A harmonia familiar desandou de vez num domingo de verão. Sem conseguir falar com a mãe por dois
41 dias, os filhos decidiram procurá-la. O zelador do prédio avisou que não adiantava subir, dona Ana saíra
42 com a mala na quinta-feira, sem revelar quando voltaria.
43 Segunda-
feira, depois do jantar, os filhos foram vê-la. Com ar consternado, revelaram estar
44 preocupadíssimos com o comportamento materno, achavam que a perda do marido com quem havia
45 convivido quase meio século, comprometera sua sanidade mental.
46 Num tom mais calmo do que o dos rapazes, a mãe contou que, na volta do enterro, abriu uma garrafa
47 de vinho pela primeira vez na vida, sentou naquele sofá em que se achavam e pensou em voz alta:
48 - Vou fazer setenta anos. De hoje em diante não dou satisfação para mais ninguém.
Disponível em < http://drauziovarella.eom.br/drauzio/dona-
ana/ > (adaptado) Acesso em 04 de abril de 2016.
Em " ... um medicamento antidepressivo a livraria daquela tristeza solitária ... " (linhas 29 e 30), o termo sublinhado é