Leia o texto abaixo, que é uma canção de Caetano Veloso, para responder as questões de 01 a 05
O Quereres
Caetano Veloso
Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim
VELOSO, Caetano. Velô. Polygram, 1984. Faixa 7.
Considere o texto “o quereres” para responder a questão a seguir:
1- No texto, é possível perceber que a arte organiza o que na vida não se consegue controlar.
2- As contradições próprias do amor, os quereres diferentes, peculiares a cada amante, a indomesticabilidade do corpo na vida, representadas pelo conflito entre o eu lírico do texto e o tu da mensagem, encontram, no corpo do poema, a ordem, a regra, as rimas, os cálculos, enfim, a harmonia não encontrada na relação amorosa.
3- No texto, o querer do cotidiano esbarra-se no sistema métrico e rítmico do poema, consistente de um exuberante arcabouço de antíteses e de suas variantes, tais como o paradoxo.
4- O autor do texto faz uso de um recurso expressivo e se abastece de artifícios para tornar o texto ainda mais expressivo. Esses artifícios mostram-se claros na concisão e na economia de palavras que traduzem as antíteses e no paralelismo rítmico de seus versos que enaltece ainda mais os seus efeitos.
Sobre as proposições acima é possível afirmar: