Hora da verdade.
Criança sabe ou não de sexo? Com que idade? Não estou falando do que seria ideal, em termos educacionais, teóricos etc, etc. Mas do real. Informações sobre sexo variam imuito entre as classes sociais e locais de moradia. Escrevo livrosinfantojuvenis. Em certa época, muitos autores amigos achavam importante falar de sexo em seus livros. Eu não. Pelo simplesfato, comentei com uma escritora amiga minha, que as criançassaberiam mais sobre sexo do que eu. Já soube de casosabsurdos. Uma escola adotou um livro de um amigo para leituraparadidática. Em certa página, o casal de adolescentes descobria o sexo. Alguns pais fizeram escândalo. A solução da escola foi arrancar a página específica e queimar! Muitos adultospensam, esquecendo a própria infância, que a criança é umanjinho ingênuo e intocável, a quem as informações jamais devem ser oferecidas, Nossa, quanta bobagem! Entre meus muitos livros, tenho um que aborda a questão do crack, Vida de Droga. A personagem é uma adolescente que se vicia. Escrevi a partir de entrevistas com adolescentes. Achava que seria um :fracasso absoluto, devido à ousadia do tema. Para minha surpresa, logo após o lançamento, fui chamado para dar muitas palestras em escolas religiosas. Um dia perguntei para uma :freira se não se chocava com o tema.
- A gente quer mostrar como realmente acontece. O fundo do poço! Para evitar o vício - disse ela.
Achei interessante. Mas foi em um colégio público, na periferia de São Paulo, que descobri a real. Dei uma palestra e, em seguida, assisti à dramatização de meu livro, feita pelos próprios alunos. Para minha surpresa, havia cachimbos em cena ;e uma descrição do uso de crack absolutamente completa! No intervalo, falei com a diretora e com os professores. Comenteisobre o meu medo de o livro ser pesado. A diretora apontou ajanela.
- Está vendo aquela esquina? Atravessando a rua?
Concordei.
- Boa parte das alunas sai daqui no fim da tarde e vai se prostituir, logo ali.
Eu todo cheio de dedos. A diretora me revelou outras coisas de arrepiar
- Pegamos uma aluna com seis garotos. Chamamos a família. Mas...como lidar com isso?
Eu já quebrei a cara em palestra. Tenho outro livro, Acorrente da vida, que fala sobre a contaminação do HIV entrejovens. Fui a uma cidade próxima a São Paulo. Terminada apalestra em que falo sobre os riscos-nessas ocasiões, sou bemprofessoral-, pedi aos alunos que me enviassem perguntasescritas e anônimas, para que cada um se sentisse a vontadepara perguntar o que quisesse. Lá pelas tantas veio: “É possívelreutilizar uma seringa?”
Olhei para aqueles rostinhos, entre 10 e 12 anos. E mesenti no papel de moralizar. Respondi:
- Nunca se pode reutilizar uma seringa, porque há riscode contaminação.
Sinceramente, eu só queria que ninguém naquela salausasse a tal seringa... Um garoto de no máximo 11 anos ergue amão.
- O senhor está mentindo. Para esterilizar uma seringa, agente faz assim, assim....
E dei o serviço. Quase cai duro.
Meus livros abordam temas atuais, mas não em torno dasexualidade. Vi amigos despencar nas vendas porque pais reclamam de situações que, segundo dizem, os filhos não'podem saber. Na televisão e em todo meio de comunicação, amesma pressão. Até na propaganda. Proíbem-se anúncios ecomerciais para crianças, para não criar desejos que redundemem frustrações se o pai não puder comprar. Fui um meninopobre, tive muitos desejos que meus pais não puderamsatisfazer. Isso me deu noção de limites. Não um sofrimentoatroz, a não ser por um cavalo branco, que eu desejava ter noquintal. Foram anos de brigas como Papai Noel, que nunca traziao tal cavalo.
Eu vejo argumentos de educadores e penso onde é queeles estão, num país em que adolescentes têm seu primeiro filhoaos 12,13 anos? E onde o problema já é evitar o segundo? Ondeas drogas correm solto nas praias, escolas? Vamos continuarfingindo que nada disso existe ....Que a criança é um anjinho deprocissão?
Penso que está na hora de rever o Estatuto da Criança edo Adolescente. Rever situações que satisfazem aos adultos aosteóricos, mas não resolvem as questões básicas. Penso queaulas de educação sexual, com valores, jamais poderiam serabolidas, porque ou a criança já sabe ou vai saber de um jeitopior.
Eu só não entendo como os teóricos de educação etantos pais podem ser tão inocentes - enquanto para crianças eadolescentes basta abrir a internet e fazer o diabo.
Walcyr Carrasco é jornalista, autor de livros peças teatrais e novelas detelevisão. Época, 26/01/2018.